| LULA: CÍNICO OU DISTRAÍDO (GOOGLE) |
DEPOIS
DA SURRA,
TUDO
É VELÓRIO PARA O PETISMO
O brasileiro
já não está disposto a avalizar a pretensão petista
de
ser uma potência ética, que só deve contas à sua própria noção
de
superioridade e ao seu destino evangelizador
Por
Josias de Souza
UOL –
04/10/2016 – 05:12
Desde
que trocou o tino político pelos confortos de sua ex-presidência, Lula passou a
ser movido por uma desastrosa autoconfiança. Na véspera da eleição, ele fez a
defesa inconsciente do voto útil. Parecia decidido a convencer o eleitor a
tomar qualquer decisão, desde que desse uma surra no PT. Lula foi a um comício
do candidato petista à prefeitura de São Bernardo do Campo. E declarou o
seguinte:
“Você
que ouviu tantas vezes nos últimos anos a Rede Globo de Televisão agredir o PT,
a imprensa criminalizar o PT, eu queria fazer um apelo pra vocês, homens de
bem, mulheres de bem, trabalhadores e trabalhadoras: amanhã, na hora de votar,
é importante vocês saberem que urna não é lugar pra depositar ódio ou
preconceito. Urna é lugar pra depositar esperanças e sonhos…”
O
contrário do antipetismo que Lula supõe existir no noticiário é o pró-petismo
reivindicado por ele — um sentimento inocente, que aceita todas as presunções
do PT a seu próprio respeito. Isso inclui concordar com a tese segundo a qual
os petistas têm uma missão especial no mundo, de inspiração divina e, portanto,
inquestionável.
Como
qualquer religião, o petismo pode cultivar seus dogmas. Mas o desembaraço
autocrático de Lula tem limites. Discurso que agride a realidade, trata a
plateia como imbecil. E se a surra de domingo ensinou alguma coisa é que o
brasileiro já não está disposto a avalizar a pretensão petista de ser uma
potência ética, que só deve contas à sua própria noção de superioridade e ao
seu destino evangelizador.
À
beira da urna, Lula escancarou a impostura. Alguém que acaba de se transformar
em réu por corrupção e lavagem de dinheiro, depois de 13 anos em que o Estado
foi saqueado pelo seu partido e pelos esquemas que o acompanharam no poder, e
ainda consegue ostentar a pose de vítima da imprensa ou é um cínico ou é um
distraído. Em nenhum dos casos é um líder político que mereça respeito. Levou o
PT à derrota até em São Bernardo, seu berço político.
A
declaração de Lula —“Urna não é lugar pra depositar ódio ou preconceito. Urna é
lugar pra depositar esperanças e sonhos”— talvez seja citada no futuro como um
resumo da ópera petista, como uma apoteose da incapacidade do PT de compreender
o vexame em que se converteu. A reação das urnas foi compatível com a dimensão
da ofensa.
Em
certos momentos, o desalento pode ser justificável. O que ninguém aguenta mais
é a esperança sem causa. O eleitorado ensinou a Lula que urna é lugar para
depositar consciência. No Brasil, a eleição é loteria sem prêmio, é a ilusão de
que é possível começar tudo de novo, do zero, para ver se finalmente dá certo.
O voto vem se revelando um equívoco renovado a cada quatro anos. O eleitor pelo
menos decidiu cometer erros novos.
Depois
da surra de domingo, tudo é velório para o petismo. Aquele partido imaculado de
outrora cometeu suicídio. O cadáver do ex-PT pode inspirar o surgimento de
outro PT. Mas isso depende da disposição de Lula e de seus discípulos de
protagonizar um gesto de contrição.
Uma
expiação mais rápida teria feito bem ao PT. Mas o partido ainda não se deu
conta de que o arrependimento é a última serventia do crime. A julgar pelo
silêncio pós-eleitoral de Lula e do resto da seita, o PT talvez só descubra os
prazeres do remorso depois que a autocrítica não adiantar mais nada.
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