terça-feira, 19 de setembro de 2017

A COLUNA DO CLÓVIS


PARA ONDE IRIA BANDEIRA?

(Por Clóvis Campêlo) Para onde iria o poeta Bandeira todo vestido de branco e arrastando consigo aquela mala preta? Não aparenta grande esforço, apesar do ar cansado. À sua frente, segue a amiga Maria de Lourdes Heitor de Souza. Sugestivamente, quatro rapazes que compõem involuntariamente a imagem caminham em sentido contrário. Iria o poeta para Pasárgada, onde sempre foi amigo do rei? Estaria fugindo do beco em busca de ares menos rarefeitos? Para o poeta Drummond, que lhe dedicou alguns poemas, Bandeira não foi para Pasárgada porque não era esse o seu destino. Com certeza, não se habituaria lá. Para ele, Bandeira era homem de viver em seu território próprio e intransferível, homem dolorido e experiente que subjugara o seu desespero a poder de renúncia, vigília e ritmo.

Na fotografia acima, Bandeira parece carregar na mala o leve e inseparável peso da vida. Parece ter plena consciência de que já não haveria mais tempo para largá-la e recomeçar. Olha para frente com a certeza de que já conhece o caminho a seguir. Não lhe interessa nem mesmo a bifurcação da calçada por onde transita. Não lhe parece haver outro rumo ou a possibilidade de retorno. Apenas caminha e vai.

Em outro poema chamado de Itinerário, o poeta Drummond traça o caminho inicial do poeta Bandeira, que se inicia na Rua da Ventura e chega à Rua da Saudade, passando pela ruas da Soledade, da Aurora e do Sol, e formando um halo em torno da Rua da União. Na visão de Drummond, o poeta Bandeira, verdadeiro itinerante, atravessava o Recife com a naturalidade de quem sabe que ali apenas começava o grande caminho.


Em mais outro poema, agora chamado de Rotinas, o vate mineiro, com conhecimento de causa, diz que o poeta Bandeira, cumprindo sem revolta e sem amargura o estatuto civil da pobreza, enfrenta uma crepuscular fila de ônibus em Copacabana, tendo na mão esquerda um livro e a tradução da tragédia alemã. Em outro território, o mesmo exercício da simplicidade e do despojamento. Um homem simples, embora sensível e poeta.

Bandeira sempre foi um homem de ir. Em Clavadel ou em Quixeramobim. Mesmo sabendo que o futuro poderia ser uma terra incerta e pedregosa. Do Recife ao Rio de Janeiro, a mesma certeza de que haveria a hora da chegada, assim como houve a hora da partida. Ao poeta modernista, não cabem revoltas. Apenas conhecimento e resignação.

Ao deixar o beco, simbolicamente Bandeira pouca coisa levava, como da vida pouca coisa se leva. Talvez imaginasse o grande encontro com o ineludível, com a passagem, com a transmutação final. Ao deixar o beco, embarcaria em um grande automóvel preto onde poderia ser vista no seu rosto uma tranquilidade consciente e inalienável. Ao deixar o beco, Bandeira tornava-se imortal e imorrível, uma referência segura e incomparavelmente bela.

Recife, março 2016

Fonte: Bandeira a Vida Inteira. 
Edições Alumbramento/Livroarte Editora, Rio de Janeiro, 1986.

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