quarta-feira, 27 de maio de 2015

TRAGÉDIA CARIOCA

pleito2012.blogspot.com


Foi assim durante quase duas décadas. Logo cedo, alguém punha a velha no sol. Logo depois, às vezes nem tão logo assim, outro alguém tirava a velha do sol. Diariamente, o ritual se repetia – exceto, obviamente, nos dias de chuva.

No começo, era quase farra, tarefa dividida pela família. Filho, nora e netos se revezavam. O cachorro de estimação se divertia a valer com a turma empurrando a cadeira de rodas da velha até o quintal.

As crianças cresceram, foram cuidar da vida. O cachorro de estimação morreu. Seu substituto – ninguém sabe por que – odiava a velha e sua cadeira de rodas. Rosnava. 

Pôr e tirar a velha do sol virou tarefa da empregada. A situação apertou. Sabem como é? Viver de aposentadoria é uma porcaria, o dinheiro não dá para nada. A empregada se foi com os salários atrasados. Com ódio de todos, especialmente da velha.

Alquebrados, filho e nora passaram, então, a dividir a tarefa de pôr a velha no sol e tirar a velha do sol.

Naquele dia, filho e nora cumpriram apenas a parte inicial da tarefa: colocaram a velha no sol.

Rio, 45 graus.

No dia seguinte, a velha, tão branquinha, meio rosada, foi enterrada mais escura que Clementina de Jesus. Virou carvão.

Nenhuma lágrima foi vertida pela família.

(JANEIRO/2014)




Nenhum comentário:

Postar um comentário