terça-feira, 22 de outubro de 2013

TIA DOLORES

Levou uma vida de dores. Pelo menos é o que dizia, em detalhes e com orgulho. Gabava-se de tomar uma quantidade gigantesca de remédios, todos os dias, desde... Nem ela se lembrava desde quando. E a cada semana, segundo seu próprio diagnóstico, o quadro se agravava. Era uma nova dor que surgia aqui e acolá.

Mas verdade seja dita: reclamava, sim, mas não muito.

Gostava de exibir aos ouvintes desatentos aquele ar típico dos falsos resignados. Só ficava irada quando alguém lhe dizia, para ter fé e paciência, que fulana sofria mais que ela. Tomava tal afirmação como ofensa das grandes. Ninguém poderia sofrer mais que ela, segundo a própria. “Seria algo além de humano”.

Na saída, após ter recomendado aos visitantes que nunca fizessem vistas grossas a nenhum sintoma, “pode ser doença grave”, arrematava:

-- Voltem sempre. É tão bom bater um papo gostoso como o nosso.


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