ROBERTO JEFFERSON FOI ATRAÇÃO
DO JANTAR DE TEMER
“O pajé vitalício do PTB compartilha da tese do governo,
segundo a qual a alternativa ao ajuste fiscal é o caos”
Por Josias de Souza
UOL – 10/10/2016 – 05:32
Depois de Marcela Temer, que recepcionou os convidados ao lado do
marido na entrada do Alvorada, a pessoa que mais chamou a atenção no jantar
oferecido por Michel Temer aos aliados na noite deste domingo foi Roberto
Jefferson. Ele não pisava os mármores palacianos de Brasília havia mais de 11
anos, desde que pendurou o mensalão nas manchetes, em 2005.
Jefferson preocupou-se em documentar minuciosamente o seu retorno.
Tirou fotos desde o instante em que chegou, perto das 19h, até o momento em que
deixou a residência presidencial, pouco antes das 23h. Aos pouquinhos, o algoz
do PT vai reconquistando um lugar na cena política. Mesmo sem mandato,
Jefferson havia escalado na semana passada a tribuna da Câmara. Discursara numa
sessão em homenagem ao centenário de Ulysses Guimarães.
Vivo, Ulysses gostava de dizer que “político é como cozinheiro: quem
faz o melhor bocado nem sempre o come.” Jefferson, por exemplo, jacta-se de ter
levado ao caldeirão os principais ingredientes da mistura em que o PT se
dissolve. E não comeu senão o pão que satã amassou. Teve o mandato passado na
lâmina, foi condenado a 7 anos de prisão e amargou 14 meses de cana dura.
A cozinha do Alvorada não chega a proporcionar experiências
gastronômicas transcendentais. Entretanto, para alguém com o histórico de
Jefferson, um ex-aliado de Lula que havia cuspido num prato em que já não podia
comer, o repasto oferecido por Temer teve gosto de ressurreição. Depois de
padecer as provações, Jefferson está novamente pronto para sofrer na própria
pele vantagens insuportáveis.
Jefferson foi, por assim dizer, reabilitado pelo Supremo Tribunal
Federal, que concedeu no último mês de março um indulto de sua pena. Reassumiu
a poltrona de presidente do PTB federal, que cedera temporariamente à filha, a
deputada Cristiane Brasil (RJ). Sob sua batuta, o partido segue a partitura do
Planalto. Ajudará a aprovar a emenda constitucional que congela os gastos
federais por 20 anos, prato principal do jantar de domingo.
O pajé vitalício do PTB compartilha da tese do governo, segundo a
qual a alternativa ao ajuste fiscal é o caos. Horas antes do jantar do
Alvorada. Jefferson levara ao ar, no blog que mantém na internet, uma nota que
ecoava notícia sobre um estudo feito pela Consultoria Tendências.
Jefferson anotou: “O estudo revela que haverá expansão da pobreza
mesmo que o PIB do Brasil volte a crescer. E os petistas ainda têm a cara de
pau de falar em ‘ataque a direitos sociais’ e em ‘retrocessos’, além de outras
mentiras. Foi o PT que demitiu 12 milhões de brasileiros de seus empregos, e
rasgou a CLT. Para a esquerda, trabalhador é mera retórica.”
Há dois meses e meio, quando um juiz do Distrito Federal transformou
Lula em réu no processo em que ele é acusado de obstruir a Justiça, Jefferson
se colocou nos sapatos do ex-aliado. ''Não é fácil o que ele vai passar, não.
Eu já passei por isso e sei bem. É ruim.''
Como que antevendo para Lula um futuro semelhante ao seu passado
recente, Jefferson se absteve de tripudiar. ''Ele tem meu respeito como ser
humano. Não é uma satisfação, não desejo isso para ninguém. Não quero julgar
ninguém, desejo a ele força para que possa enfrentar isso de cabeça erguida.''
Desde que Jefferson fez essas declarações, Lula foi indiciado pela
Polícia Federal noutro inquérito, amargou uma denúncia da força-tarefa de
Curitiba e foi reenviado ao banco dos réus, dessa vez por Sergio Moro, o juiz
da Lava Jato. Às voltas com o petrolão, que é uma espécie de mensalão
hipertrofiado, Lula está mais próximo da carceragem paranaense do que de uma
nova candidatura presidencial.
Quanto a Roberto Jefferson, voltou a frequentar os salões do poder,
agora sob a administração seminova de Michel Temer. Ainda não provou do “melhor
bocado” de que falava Ulysses Guimarães. Mas o seu PTB já controla o Ministério
do Trabalho, terceirizado ao deputado licenciado Ronaldo Nogueira (PTB-RS).
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