quarta-feira, 20 de julho de 2016

QUASE HISTÓRIAS (XXIV)





AS PRIMAS

Como sempre, a prima endinheirada, “perua” assumida, deitou falação nos ouvidos da prima pobre:

- Você está uma lástima, precisa se cuidar, emagrecer, secar as varizes, cuidar da pele… Seus dentes estão uma miséria, seus cabelos parecem ninho de rato. Ponha silicone nos peitos. Vai acabar pisando nos bicos.

A prima pobre tentou falar. Em vão. A outra não deixou:

- Você também precisa se vestir melhor, comprar sapatos e sandálias boas. Vá à academia. Bem, estou lhe dando esses conselhos, porque sou sua amiga, você sempre foi minha prima predileta. Mas, cada um faz da vida o que quer. Não é, meu bem?

A prima pobre ia lhe perguntar onde arrumaria dinheiro para tanto.

Desistiu.

Agradeceu os conselhos da prima rica. Disse que ia pensar.


BIBLIOTECA

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Num ambiente povoado por analfabetos, orgulhosos da sua ignorância longamente cultivada, o pai fez história. Foi ridicularizado. Gastar dinheiro com livros? Isso é coisa pra gente rica, pra quem tem dinheiro sobrando, diziam.

Apesar do dinheiro miúdo, o pai sempre comprou muitos exemplares, uns três mil, talvez. Leu bastante. Suas preferências literárias nunca bateram com as minhas. Visões diferentes do mundo. Que importa? Com seu exemplo, ele ajudou os netos a gostar de ler e a estudar sempre. Trabalho de Hércules.

A propósito, há quem nos pergunte:

-- O que vão fazer com essa tralha toda, quando ele morrer?

Pode? (OS - maio de 2015)



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