segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

NO DIA DE SÃO NUNCA

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O Velho Marinheiro e Ananias aproveitaram a ausência dos freqüentadores barulhentos para colocar a prosa em dia. Os dois amigos trocaram ideias sobre os mais variados assuntos – de política a futebol, passando pela crise hídrica, disparada da inflação, as curvas da Deolinda e as expectativas em relação ao desempenho da escola de samba do bairro. Além deles, apenas Carneiro – o dono do boteco, sempre a conferir contas a pagar e o caderno de fiados. Operação que fecha invariavelmente no vermelho.  

Ananias, sem querer, fez um comentário e mudou o rumo da conversa:

-- O senhor viu quem desviou de caminho, para não passar por aqui?

-- Não. Se eu estou de costas para a rua, como poderia ver?

-- O Toninho Veludo. Estava junto com o Jacó do Pandeiro. Faz tempo que eles não vêm aqui. Será que se chatearam com alguma coisa?

-- Qual o quê! O veado e o tocador de pandeiro são dois pilantras. Eles fogem porque devem para o pobre do Carneiro.

-- Mas dia desses eles estavam os dois, mais o Chico Gordo, tomando umas no boteco da rua debaixo.

-- Chico Gordo é outro safado, devedor contumaz. Estão sujos aqui? Vão fazer dívida em outro lugar. Ficaram sujos lá? Eles procuram nova vítima. É assim que vivem esses vagabundos. Pagam à vista nos primeiros dias, depois partem para a lambança. Quantos outros não têm aparecido por aqui, mas podem ser encontrados nos botecos da redondeza? Puxe pela memória.

-- Velho Marinheiro: não posso acreditar numa coisa dessas, eles devem estar sofrendo os efeitos da crise, sei lá.

-- Ananias: desde quando cachaça é prioridade? Na semana passada, eu vi Marreta negar ao neto um daqueles doces ordinários que Carneiro tem na vitrine. Disse ao menino que estava sem dinheiro. Mas ele continuou bebendo e devendo... Isso não é de hoje, não.

O Velho Marinheiro fez sinal para que Carneiro viesse à mesa, pediu cerveja e dois aperitivos e emendou a pergunta:

-- Carneiro: não precisa dizer valores, mas Toninho Veludo, Jacó do Pandeiro e Chico Gordo devem para você?

-- Devem e devem muito, há bastante tempo. Se fossem só eles...

-- Não entendo. Carneiro: você continua vendendo fiado para essa gente?

-- Ananias: para não fazer desgraça, a gente se ilude, faz de que conta que acredita que um dia eles pagarão. Mas esse dia nunca chega. A desgraça é que não sei fazer mais nada na vida, além de vender cachaça. (OS)  

2 comentários:


  1. -- Ananias: para não fazer desgraça, a gente se ilude, faz de que conta que acredita que um dia eles pagarão. Mas esse dia nunca chega. A desgraça é que não sei fazer mais nada na vida, além de vender cachaça. É mesmo... amei.. obrigada

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