terça-feira, 11 de outubro de 2016

LÍNGUA AFIADA: NELSON RODRIGUES (2)


Amigos, eis uma verdade eterna: — o passado sempre tem razão.

Toda família tem um momento em que começa a apodrecer. Pode ser a família mais decente, mais digna do mundo. Lá um dia aparece um tio pederasta, uma irmã lésbica, um pai ladrão, um cunhado louco. Tudo ao mesmo tempo.

A família é o inferno de todos nós.

A fidelidade devia ser facultativa.

O gordo só é cruel na mesa, diante do prato, com o guardanapo a pender-lhe do pescoço.

D. Helder só olha o céu para saber se leva ou não o guarda-chuva.

Na mulher, certas idades constituem, digamos assim, um afrodisíaco eficacíssimo. Por exemplo:— quatorze anos!

O jovem só pode ser levado a sério quando fica velho.

Hoje, a primeira noite é a centésima, a qüinquagésima. O casamento já é uma rotina antes de começar.

O ser humano está mais para Lucho Gatica do que para Paul Valéry.

O que se está fazendo aqui é uma música popular brasileira que não é popular, nem brasileira e vou além: — nem música.

Aqui o branco não gosta do preto; e o preto também não gosta do preto.

Não se apresse em perdoar. A misericórdia também corrompe.


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