sexta-feira, 8 de março de 2019

QUASE HISTÓRIAS: A TURMA DA BALINHA

Resultado de imagem para ilustração para pessoas distribuindo balas

Iracema não tem boca pra nada - aliás, nunca teve. Suporta tudo calada. Quando excepcionalmente reage, não consegue dormir. No dia seguinte, não sossega enquanto não pega o telefone e se desculpa com irmãos e cunhadas, ainda que eles não tenham razão. Com os dois cunhados nunca se aborreceu. Nem poderia. Um e outro jamais aparecem por lá: na casa em que ela e irmãos nasceram e se criaram. Todos irmãos cuidaram de si; ela, dos pais.

Continua virgem, mas nunca teve lábios de mel, conforma-se. Com o tempo engordou um bocado. Às vezes, conversa por telefone com uma amiga do ginásio. Ao cinema, foi meia dúzia de vezes, se tanto. Ao teatro, apenas uma vez. Viajou bastante quando era criança e o pai ainda tinha saúde. Depois, miau. Gosta de televisão, em especial dos programas de culinária. Acha que as moças de hoje são muito assanhadas, talvez mais que os rapazes de seu tempo de guria.

Quando o pai morreu, há dez anos, combinou com a mãe que viajariam bastante. A velha ficou de pensar. Não deu tempo. O Alzheimer mostrou suas garras. Mas, como já foi dito, Iracema não reclama. Ao contrário. Pede a Deus forças para cuidar da mãe. É grata ao Senhor por Ele ter colocado Tiana na vida dos Silva, há  vinte anos. Para Iracema, mais que empregada, Tiana faz parte da família, é amiga, solidária, pau pra toda obra.  

Os irmãos, de tempos em tempos, visitam a mãe. Trazem sempre algum doce, balas de preferência, coisas assim. Mas não esquentam cadeira, todos muito atarefados. A caçula é a que menos aparece, mas, em contrapartida, liga todos os dias, três vezes ao dia, de segunda a segunda, para saber como mamãe está. E fazer cobranças indiretas: cuidaram disso? Cuidaram daquilo? Acho que vocês deveriam fazer assim e não assado.

Tiana, que não tem papas na língua, não esconde sua irritação com a corja, como ela costuma chamar todos da família  Silva que não moram naquela casa:

-- Iracema, seus irmãos são uns vagabundos. Não estão nem aí com você e sua mãe. Não ajudam em nada, são incapazes de levar dona Isaura ao médico. Aparecem ou telefonam apenas para nos aborrecer. Se eu fosse você, mandava todos eles enfiarem as balinhas que trazem...

-- Tia-a-na.

-- Me desculpe, sei que você não gosta de palavrões. Se não tem coragem de mandar essa gente pro inferno, deixa comigo.

-- Tiana: é minha cruz. Se brigar com eles, é pior. Mamãe ficará triste. E isso eu não quero.

(OS - agosto/2016, atualizado em março de 2019)


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