terça-feira, 5 de dezembro de 2017

CRÔNICA: WALCYR CARRASCO




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NATHALIA TIMBERG

O SUCESSO DA JOVEM VELHICE

Já na terceira idade, não me sinto nem um pouco velho.
Há livros que quero escrever. Novelas. Peças. Tenho planos

Por Walcyr Carrasco
http://epoca.globo.com/sociedade/walcyr-carrasco
28/11/2017 | 08h01

Bibi Ferreira aos 94 anos apresenta-se no Teatro Oi Casa Grande, no Rio de Janeiro. Em Bibi, por toda a minha vida, canta de Edith Piaf a Roberto Carlos. A plateia sai maravilhada. Bibi faz parte de um grupo cada vez maior de pessoas que envelhecem, mas continuam em plena atividade. Quando eu era criança, velhice era sinônimo de aposentadoria. Paz e tranquilidade. Quem quer? Meu pai se aposentou aos 52 anos. Continuou trabalhando para complementar a renda. Pré-adolescente, diziam que o fim do mundo chegaria em 2000. (A crença continuou até a virada daquele ano, com teorias conspiratórias, previsões do calendário maia e até gente que se refugiou em arcas.) Eu pensava: “Quando o fim do mundo chegar, estarei velho, com 49 anos”.

Já na terceira idade não me sinto nem um pouco velho. Há livros que quero escrever. Novelas. Peças. Gosto de pintar. De cozinhar também, e com frequência faço cursos de culinária. Ainda não li Proust. É algo que devo a mim mesmo. A maior parte de meus amigos são mais jovens. Como eu, têm planos para o futuro. Projetos de vida. A mãe de um deles, com mais de 80, costuma organizar viagens. Vive no interior de São Paulo, mas passa muitos feriados e fins de semana em cachoeiras ou praias. Não é rica, divide com as amigas. Gosta de feijoada e caipirinha. Saúde de ferro. Já brinquei. Se fosse uma oriental, digamos, tibetana, poderia escrever um livro: O segredo da feijoada zen. Ou título parecido. Não seria absurdo: a dieta de Okinawa, local do Japão com um dos maiores índices de longevidade do mundo, inclui, além de frutas e legumes, carne de porco! Quando comentei isso com meu acupunturista, vegetariano, ele odiou.

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FERNANDA MONTENEGRO

Em minha novela O outro lado do paraíso, apresentada às 21 horas na Rede Globo, há um time de octogenários: Fernanda Montenegro, Laura Cardoso, Lima Duarte, Nathalia Timberg. Nathalia fez minha novela Amor à vida, e arrasou. Lima Duarte, recentemente, gravou no Jalapão sob um calor abrasivo. Até correu ao sol! Fernanda não erra texto. Laura entrou para uma participação especial. Encontrou-se comigo e falou da tristeza de sair tão cedo. Permaneceu. Grava ativamente. Há nem tantos anos assim, em Gabriela, passava o dia de sapatinho de salto. Em pé. Se alguém oferecia uma cadeira, recusava ofendida. Agora, quando soube que continuaria na novela, me telefonou feliz:

– É o melhor presente de Natal que eu podia ganhar. Adoro trabalhar.

Talvez toda essa conversa soe como um argumento a favor da reforma da Previdência. De fato, não é. A questão é polêmica, mesmo porque nem todas as pessoas idosas têm a mesma performance. Pior ainda, os realmente aposentados descobrem que com o tempo seus ganhos viram pó. Minha professora de ciências na pré-adolescência, dona Thelma, tem mais de 80. Quando fui visitá-la, contou:

– Minha aposentadoria não paga mais nem a faxineira duas vezes por semana.


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LIMA DUARTE

Então há uma teoria do que é se aposentar. E uma realidade dos aposentados. Estou, de fato, falando de algo mais além: o que mantém esses octogenários tão ativos? Há várias hipóteses para explicar. Uma vida sempre saudável. Genética. Dizem que aprender línguas evita o Alzheimer. Logo que me tornei mocinho, lá pelos 20 anos, comecei a ouvir histórias tristes, que se perpetuaram ao longo dos anos. A pessoa se aposentava. Parava de trabalhar. Relaxava, ficava tranquila, enfim não tinha patrão. Meses depois, morria. Como se a suposta paz tirasse seu lugar no mundo. Hoje existem grupos e escolas com cursos para a terceira idade. Teatro, dança, pintura, culinária. A inatividade, na real, produz tédio. Em consequência, a pessoa desiste de viver. Acredito firmemente que há um mecanismo psicológico, onde alguém se “desliga”. A ligação entre corpo e mente é pouco conhecida ainda. Ao sentir que não há lugar para ela na sociedade, a pessoa resolve partir. Em contrapartida, o jornalista Roberto Marinho fundou a Rede Globo aos 60 anos. Acompanhou o crescimento da empresa, e só partiu aos 98, um sólido exemplo de que longevidade está associada à atividade. Silvio Santos, octogenário, apresenta seu programa, continua um mito. Por quê? Simplesmente porque gosta. Quer continuar. Não é questão de dinheiro.

Eu vejo muitos dos meus amigos se aposentando. Depois, lamentam falta de motivação. Não quero parar nunca. O segredo de uma velhice bem-sucedida é um só. Sentir um significado. Sonhos, projetos, criatividade. Enfim. Ter razões para viver.

***

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