quinta-feira, 6 de outubro de 2016

QUASE HISTÓRIAS


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DIÓGENES CANSOU

-- Fui falar com o vereador sobre aquele troço: o cargo de fiscal na Prefeitura.

-- E, aí?

-- Ai, nada. É um filho da puta como os outros. Só pensa nele mesmo. Veio com uma conversa de que para ser fiscal precisa passar no concurso. Lorota. Quando eles querem dão um jeito. Ou não dão?

-- Claro que dão.

-- Fui claro. Falei para ele: Eu não vou prejudicar ninguém, fique sossegado. Quero apenas ganhar uns trocos, sacou? Quero fazer que nem um fiscal conhecido meu. Ele leva R$ 10 do açougueiro; R$ 15 da lanchonete; R$ 25 do mercadinho... Ele tem uma tabela. Da padaria, ele leva R$ 50... Só para fazer vistas grossas.

-- Por dia?

-- Pirou? Por semana. Se fosse tudo aquilo por dia, seria corrupção. Com essas coisas, eu não lido.

-- Faz bem, faz bem. Isso é coisa pra bandido.

***

-- Consultório do doutor João Matos, boa tarde.

-- Boa tarde. Gostaria de marcar uma consulta pra minha filha.

-- Só temos pra janeiro.

-- Três meses! Que absurdo, pior que o SUS!

-- Qual é seu convênio?

-- Nenhum. A consulta é particular.

-- Ah, bom! Pode vir amanhã. Que hora a senhora prefere?


***

-- Esse negócio de catar latinha pra vender já foi bom. Não é mais. Antes pagavam bem pelo quilo. Hoje, pagam uma miséria. E a concorrência é muito grande. Até dono de bar junta lata pra fazer uns trocos. Cheguei a ganhar um bom dinheiro. Ainda mais que colocava areia, pra aumentar o peso.

-- Você punha areia dentro das latas?

-- Era o que mais fazia. Um dia o cara do ferro velho descobriu, bateu um fio para os amigos sucateiros. Nunca mais vendi pra ninguém da região. É uma máfia.

***


-- Doutora: quanto vou gastar para ficar com os dentes em ordem?

-- Depende.

-- Depende de quê? Quero material de primeira qualidade.

-- Sei. Não é disso que se trata. Vai querer recibo para declarar no Imposto de Renda?

***

-- Mana: venha ver que beleza está minha despensa.

-- Nossa. Está abarrotada. Está podendo, danadinha.

-- Que nada. O dinheiro continua curto. Mas comida não falta para as crianças, desde que arrumei emprego de merendeira na Prefeitura. Trago tudo de lá.

DA SÉRIE A ÉTICA DO CRUZ-CREDO

POR ORLANDO SILVEIRA

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