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| PARA O PT, A CULPA É SEMPRE DOS OUTROS |
AUTOCRÍTICA FICA PARA DEPOIS
Autocrítica? Sim, tem uma passagem que, ao mencioná-la,
a resolução a trata como uma “tarefa” a ser executada
(não diz quando) pela direção do PT e pela militância.
Por Ricardo Noblat
Em 06/10/2016 - 06h52
Os de boa alma, os puros de coração que ainda acreditam numa
reconciliação do PT com seus valores originais, esperaram, ontem, aflitos, a
divulgação de mais uma resolução do partido, desta vez a propósito do resultado
do primeiro turno da eleição municipal.
Não foi nada, não foi nada, mas o PT colheu no último domingo sua
mais humilhante derrota desde a sua fundação. Elegeu um único prefeito de
capital. Perdeu mais da metade das prefeituras que controlava. Ficou de fora do
segundo turno em São Paulo.
Reunida em Brasília, a Executiva Nacional do partido deu à luz uma
resolução dividida em 18 itens, que
termina com o retumbante brado de “Ousar lutar, ousar vencer!”. Foi a única
coisa, digamos, animadora de um documento que se valeu de 921 palavras.
Dos 18 itens, 10 são dedicados a criticar seus
desafetos – a mídia golpista, o governo golpista e conservador, as forças
reacionárias em geral, e por aí segue. Um único item admite que o partido
cometeu erros, antes e durante o processo eleitoral, mas não diz quais foram.
Os demais são neutros, mais ou menos inofensivos, ou burocráticos.
Autocrítica? Sim, tem uma passagem que, ao mencioná-la, a resolução
a trata como uma “tarefa” a ser executada (não diz quando) pela direção do PT e
pela militância. E pronto.
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| RICARDO NOBLAT É JORNALISTA |
Abaixo, a resolução, apenas despojada do seu cabeçário.
1. A ofensiva desferida contra o PT pela mídia monopolizada e os
aparatos da classe dominante, desde a Ação Penal 470 até as vésperas da eleição
municipal, culminou com uma derrota profunda do campo democrático-popular,
principalmente do nosso partido. E resultou num avanço conservador em todo o
País.
2. É fundamental reconhecer, porém, ao iniciar nosso balanço –
necessariamente detalhado, criterioso, sereno – que o duro revés estampado nos
números deveu-se, também, a outros fatores, avultando entre eles nossos erros,
cometidos antes e durante o processo eleitoral. Analisá-los e extrair lições
para recuperar o terreno perdido é uma tarefa autocrítica, a começar pela
direção partidária – que não se exime de suas responsabilidades – e abrir-se
para o conjunto da militância.
3. Antes disso, vale ressaltar que o cenário negativo em que se
realizaram as eleições municipais é produto, em grande medida, do movimento
político iniciado após o pleito de 2014 quando os derrotados passaram a sabotar
o governo e a empenhar-se na sua deposição.
4. O aprofundamento da crise econômica a partir de 2015, a
criminalização do PT e a ação corrosiva da mídia monopolizada erodiram a base
eleitoral progressista, provocando forte recuo da influência petista sobre
administrações locais e legislativos municipais.
5. Apesar da resistência ao golpe institucional, especialmente antes
da votação da admissibilidade do impeachment pela Câmara dos Deputados no dia
17 de abril, o PT e a esquerda não conseguiram reconquistar o apoio, a
confiança e a identidade da classe trabalhadora, dos pobres e dos setores
médios, inconformados com o ajuste fiscal implementado pelo nosso governo.
6. As medidas então adotadas serviram de pretexto para que a classe
dominante e os partidos conservadores impusessem a narrativa do estelionato
eleitoral.
7. Mesmo afastado do governo desde maio, continuam a ser atribuídas
ao PT, de forma direta ou indireta, as enormes dificuldades da economia,
agravadas pelo programa ultraliberal, antinacional e antipopular aplicado pelo
governo golpista. Basta ver a campanha veiculada agora pelo governo usurpador,
com um slogan de duplo sentido e que deixa evidente, ademais, a intenção de
liquidar o PT. Não tivemos sucesso, durante o primeiro turno, em construir uma
contra-narrativa capaz de desmascarar o programa defendido pelas forças
golpistas e associá-lo a seus projetos privatistas para as cidades.
8. Não conseguimos tampouco apresentar listas mais amplas de
candidaturas a prefeito e vereador, o que já prenunciava uma redução numérica
que, afinal, superou as expectativas mais pessimistas, sobretudo nas grandes
cidades e em municípios que já governamos.
9. A "reforma política" comandada pelo ex-deputado Eduardo
Cunha, reduzindo o tempo de campanha e os programas tanto no rádio quanto na
televisão, acabou por limitar nossas possibilidades de enfrentamento contra os
partidos de direita.
10. Da mesma maneira, ao permitir autodoações sem teto para os
candidatos e ao não fixar um limite nominal para as contribuições individuais,
abriram-se brechas para a influência do poder econômico, dando mais razão à
nossa defesa do financiamento público exclusivo das campanhas.
11. Também teve importante impacto, particularmente nos grandes centros
urbanos, a escalada antipetista da Operação Lava Jato, que nos trinta dias
anteriores às eleições desencadeou ofensivas fraudulentas, mas de ampla
repercussão, contra o presidente Lula e ex-ministros de seu governo.
12. Em que pese a vitória sobre o campo democrático-popular, o bloco
conservador sai do primeiro turno com divergências que podem se acentuar. Não é
o caso de enumerá-las agora, mas é importante tirar proveito delas na campanha
do segundo turno, sobretudo nas cidades onde candidaturas progressistas
enfrentarão esquemas conservadores e da direita.
13. A Direção Nacional do PT orienta nossa militância a apoiar
incondicionalmente as candidaturas do PSOL, do PCdoB, da Rede e do PDT nas
capitais, bem como daqueles com quem já estivemos no primeiro turno. Além
disso, sugere aos diretórios municipais que avaliem localmente a quem devemos
negar apoio e voto.
14. Conclamamos a militância a cerrar fileiras em torno das sete
candidaturas petistas neste segundo turno: Recife, Juiz de Fora, Santo André,
Mauá, Vitória da Conquista, Santa Maria e Anápolis. É decisivo envidar esforços
para unir o eleitorado democrático e popular, abrindo nossas campanhas para
todos e todas que desejarem compartilhar dessa empreitada.
15. A CEN parabeniza todos os governadores e prefeitos, parlamentares
e militantes, que travaram o bom combate nas condições mais adversas dos
últimos anos. Cumprimenta todos os candidatos e candidatas, eleitos ou não, por
aceitarem, com bravura, uma tarefa fundamental na defesa de nosso partido e do
legado de nossos governos.
16. Sem minimizar o resultado desfavorável, encaramos a perda como uma
batalha no processo de resistência democrática e de reorganização do PT e do
campo popular. Da derrota, extrairemos lições que possibilitem reorientar nossa
prática, a fim de recuperar a confiança política dos trabalhadores, da
juventude, das mulheres, dos intelectuais, acumulando forças para retomar o
projeto de transformação social que constitui nossa razão de ser.
17. É preciso, nesse momento, conjugar a mobilização na campanha
eleitoral com o empenho de nossas bancadas na Câmara e no Senado de se
mobilizarem com as bancadas de oposição para derrotarem a PEC 241, a PEC do
arrocho, o PL do Pré-Sal e a MP da reforma do ensino médio.
18. Ao lado do povo brasileiro, dos demais partidos progressistas e
dos movimentos sociais, os petistas continuaremos, nas urnas e nas ruas, a
lutar contra o governo usurpador e a retirada de direitos, em favor de eleições
diretas já e pela reforma do sistema político.
Ousar lutar, ousar vencer!


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