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| RICARDO PESSOA/GOOGLE |
DELATOR AFIRMA QUE VEM DO MESMO COFRE
DINHEIRAMA ‘DOADA’ PARA AÉCIO E DILMA
“’A minha relação com o João Vaccari era muito grande’,
declarou Ricardo Pessoa. Encontravam-se amiúde, para tratar
dos negócios escusos e dos desvios praticados na Petrobras”
Por Josias de Souza
Em 08/10/2016, às 04:56
Em depoimento ao Tribunal Superior Eleitoral, o empreiteiro Ricardo
Pessoa, dono da Construtora UTC e delator da Lava Jato, confirmou ter feito
doações às campanhas presidenciais de Dilma Rousseff e de Aécio Neves. Repassou
R$ 7,5 milhões para a candidata
petista e R$ 4,5 milhões para o
rival tucano. Inquirido sobre a origem dos recursos, declarou que o dinheiro
saiu do mesmo caixa das empresas do Grupo UTC, que era unificado.
Ricardo Pessoa prestou depoimento no processo em que o PSDB pede à
Justiça Eleitoral que casse os mandatos de Dilma, já deposta, e do vice Michel
Temer, agora efetivado na função de presidente. Ele foi ouvido em audiência
realizada em 19 de setembro. Mas só nesta semana o TSE divulgou no seu site o
papelório que compõe os primeiros 13 volumes dos processos.
O blog manuseou o depoimento de Ricardo Pessoa. A certa altura, o
advogado de Dilma, Flávio Caetano, travou com o empreiteiro o seguinte diálogo:
— […] Tanto a doação à campanha eleitoral de Dilma e Temer e a
doação para a campanha de Aécio e Aloysio [Nunes Ferreira] tiveram origem na
mesma conta corrente, da UTC. É isso?
— Sim
— Da mesma conta corrente?
— Não sei se da mesma conta corrente, mas do caixa, do capital de
giro, do caixa da UTC Engenharia, Constran e UTC Participações, que era
unificado.
— Ou seja, não tem relação nenhuma com eventuais comissões ou
propinas de contratos com a Petrobras.
— Não. Absolutamente.
— A origem de doação a Aécio e Dilma é a mesma?
— Sim senhor.
Deve-se o depoimento do delator da UTC a um requerimento do PSDB,
autor da ação. Imaginou-se que o empreiteiro levaria água para o moinho da
cassação da chapa Dilma-Temer, já que, em depoimentos à força-tarefa da Lava
Jato, ele confirmara ter participado de reuniões com o petista Edinho Silva,
ex-ministro de Dilma e tesoureiro da campanha dela à reeleição.
Interrogado pelo ministro Herman Benjamin, corregedor do TSE, e pelo
juiz auxiliar Bruno Cesar Lorencini, o dono da UTC confirmou ter participado de
três reuniões com Edinho Silva. Reafirmou ter sido encaminhado ao gestor das
arcas da campanha de Dilma pelo ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto. Mas fez
uma distinção entre os contatos que mantinha com Vaccari e as conversas com
Edinho. Nessa versão, repassou ao primeiro algo como R$ 24 milhões em propinas. Ao segundo, entregou os R$ 7,5 milhões doados de maneira
supostamente lícita.
| JOSIAS DE SOUZA É JORNALISTA |
“A minha relação com o João Vaccari era muito grande”, declarou
Ricardo Pessoa. Encontravam-se amiúde, para tratar dos negócios escusos e dos
desvios praticados na Petrobras. Em meados de 2014, o empreiteiro disse ter
sido abordado pelo então tesoureiro do PT com uma conversa diferente:
— O senhor não vai contribuir para a campanha presidencial?
— Ué, como é que faz para contribuir?
— O senhor tem que procurar Edinho, porque isso aqui não é comigo, é
com o Edinho Silva.
O juiz Bruno Lorencini perguntou a Pessoa como foi sua conversa com
Edinho. E o empreiteiro: “Eu fui lá para discutir com ele contribuição para a
campanha presidencial. E tivemos três encontros. O primeiro encontro, ele
estava imaginando uma contribuição de R$
20 milhões. Eu disse a ele que eu fui preparado para dar R$ 5 milhões. Acertei os R$ 5 milhões.
Voltei depois, porque ele achou muito pouco.”
De acordo com o relato do empreiteiro, o caixa da campanha de Dilma
lhe disse que tinha muitas despesas. E insistiu para que doasse mais. “Eu disse
a ele que não estava preparado para isso, mas que eu ia pensar, ia ver como
fazer. E marquei uma outra reunião com ele, onde acertei o pagamento de duas
parcelas de R$ 2,5 milhões, para a
campanha presidencial.”
Pessoa prosseguiu: “Voltei lá, porque ele me disse que precisava de
muito mais dinheiro do que isso, e eu não tinha. Acertei mais duas parcelas,
mas uma parcela de R$ 5 milhões,
porque R$ 20 milhões para nós era
impossível de aceitar. E assim foi feito, só que R$ 2,5 milhões foram pagos, os outros R$ 2,5 milhões não foram pagos.” Por quê? “Eu fui preso”, explicou o
dono da UTC.
O juiz perguntou a Pessoa se as contribuições à reeleição de Dilma
estavam amarradas a algum benefício futuro. O depoente respondeu negativamente.
“Não tinha nesse diálogo nenhuma vinculação a contrato específico”. Mas
reconheceu que Edinho Silva levou à mesa a Petrobras: “Você tem muito contrato.
Você vai continuar.”

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