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| ROQUE SPONHOLZ |
DECISÃO DO STF
APROXIMA LULA DA CADEIA
Há dois anos e meio, quando a Lava Jato foi deflagrada, os membros
da coligação que une a política à plutocracia imaginaram que o engavetamento da
operação era uma questão de tempo. Deram-se mal. Os poderosos tornaram-se
impotentes
Por Josias de Souza
UOL – 05/10/2016 – 20:42
Ao manter a porta da cadeia aberta para os réus condenados na
primeira e na segunda instância do Judiciário, o Supremo Tribunal Federal
estreitou o horizonte de ex-poderosos como Lula. Submetido aos rigores
jurisdicionais de Sérgio Moro, o morubixaba do PT será recolhido a um presídio
se eventual sentença condenatória do juiz da Lava Jato for confirmada pelo
Tribunal Regional Federal da 4ª Região. Nessa hipótese, mesmo que recorra aos
tribunais de Brasília, o ex-presidente da República terá de aguardar atrás das
grades o desfecho da apelação.
A presença de Lula no caldeirão da Lava Jato dá uma ideia do caráter
histórico da decisão tomada pelo Supremo nesta quarta-feira, 5 de outubro de
2016. Em fevereiro, por um placar de 7 a 4, os ministros da Corte Suprema
haviam decidido que pessoas condenadas na segunda instância deveriam cumprir
pena imediatamente, sem prejuízo dos recursos. A OAB e o obscuro Partido
Ecológico Nacional recorreram. A turma da Lava Jato esfregou as mãos.
Em nova decisão majoritária — 6 X 5 — o Supremo manteve o
entendimento anterior. Fez isso um dia depois da divulgação de dois despachos
estratégicos do ministro Teori Zavascki. Num, o relator da Lava Jato indeferiu
recurso em que Lula pedia que os três processos que correm contra ele em
Curitiba subissem para Brasília. Noutro, Teori remeteu para Moro a ação penal
sobre o dinheiro sujo entesourado na Suíça por Eduardo Cunha, agora um deputado
cassado, sem o escudo da imunidade parlamentar. Assim como Lula, Cunha também
ficou mais próximo do xadrez.
| JOSIAS DE SOUZA É JORNALISTA |
Há dois anos e meio, quando a Lava Jato foi deflagrada, os membros
da coligação que une a política à plutocracia imaginaram que o engavetamento da
operação era uma questão de tempo. Deram-se mal. Os poderosos tornaram-se
impotentes. A carceragem de Curitiba solidificou-se como um cemitério da
impunidade. Até aqui, fracassaram todas as emboscadas concebidas com o
propósito de “estancar a sangria”. A tentativa de inverter no Supremo o placar
de fevereiro foi o penúltimo malogro.
Os doutores que fazem a defesa dos figurões encrencados em Curitiba
reclamam que a prisão na segunda instância viola o princípio constitucional
segundo o qual ninguém pode ser punido antes do trânsito em julgado da
condenação. Conversa mole. Há nas cadeias do Brasil 360 mil vagas. Nelas, espremem-se cerca de 700 mil presos. Desse total, 40%
são presos provisórios. Não foram julgados nem na primeira instância.
Levantamento do Conselho Nacional de Justiça identificou no Espírito
Santo um preso que aguarda há 10 anos por um julgamento. No Ceará,
identificou-se um sem-sentença mantido atrás das grades há 14 anos. Num país
que convive com tal realidade, deve-se celebrar a perspectiva do fim da
República em que, acima de um certo nível de poder e renda, nenhuma mutreta
justificava a incivilidade de uma reprimenda pública.

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