DUELO ENTRE ALCKMIN E AÉCIO
JÁ BEIRA A AUTOFAGIA
É contra esse pano de fundo – a falta de regulamentação das prévias –
que Aécio e Alckmin trocam bicadas, observados à distância
por José Serra, candidato a estorvo
Por Josias de Souza
UOL – 13/10/2016, às 04:57
A situação poderia ser mais simples para o PSDB, pois a legenda
cavalga o esfacelamento do PT nas eleições municipais, Dilma cuida dos netos em
Porto Alegre e Lula está mais próximo da carceragem de Curitiba do que das
urnas de 2018. No entanto, o tucanato parece ter feito uma opção preferencial
pelo desastre. Aécio Neves e Geraldo Alckmin duelam sem método. Ainda não se
deram conta de que as regras são sempre menos perigosas que a improvisação. Sem
elas, os tucanos bicam a própria carne.
Aécio terá de deixar a presidência do PSDB no início de 2017. Perdeu
a condição de candidato natural ao Planalto. Terá de tourear a Lava Jato e
Geraldo Alckmin, que também ambiciona a cadeira que Michel Temer esquenta. O
estatuto do PSDB prevê a realização de eleições prévias. Todos defendem as
prévias. Mas elas jamais foram regulamentadas. É contra esse pano de fundo que
Aécio e Alckmin trocam bicadas, observados à distância por José Serra,
candidato a estorvo.
Em 2006, os tucanos escreveram uma página constrangedora de sua
história. As plumas mais vistosas do ninho, FHC entre elas, deixaram-se
fotografar num restaurante chique de São Paulo em meio a taças de vinho.
Passaram a impressão de que escolhiam um adversário para Lula, que disputaria a
reeleição. Desde então, as definições de candidaturas no PSDB ganharam a fama
de conchavos da elite partidária.
Em 2008, o senador cearense Tasso Jereissati tentou alterar a sina.
Ele presidia o PSDB federal naquela época. E levou à mesa a proposta de
regulamentação das prévias partidárias para a escolha de candidatos do partido
a cargos executivos. Oferecia duas alternativas de modelo. Numa, as prévias
tucanas seriam abertas a todos os eleitores, como ocorre nos Estados Unidos.
Noutra, seriam feitas apenas entre os filiados da legenda. Houve muita espuma e
nenhuma definição.
“Temer não se importa que os tucanos exercitem sua vocação para o
suicídio, desde que votem unidos no Congresso a favor das reformas”
Todos os tucanos que sucederam Tasso no comando do partido falaram
em prévias, inclusive Aécio. Nenhum logrou passar da fase da conversa fiada. Se
levasse a questão a sério, o PSDB teria deflagrado o processo das prévias no
início desde ano eleitoral de 2016, com uma campanha de filiação partidária.
Os tucanos lançariam um convite à plateia. Algo assim: filie-se ao
PSDB e ajude o partido a escolher o candidato à Presidência. Ao longo de 2017,
a legenda promoveria um intenso debate nacional. Quem tivesse bala na agulha
subiria no caixote. Com alguma sorte, 16 anos depois de ter sido arrancado do
Planalto pelo eleitor, o tucanato chegaria ao início de 2018 dispondo de algo
parecido com um receituário. E as prévias abençoariam uma candidatura
presidencial.
| JOSIAS DE SOUZA É JORNALISTA |
Distantes desse enredo, Alckmin e Aécio se atracam nos porões pelo
controle do PSDB. Vitaminado pela eleição do seu poste João Doria na cidade de
São Paulo, Alckmin pega em lanças para acomodar na presidência da legenda o
deputado paulista Silvio Torres, do seu grupo. Com a engrenagem partidária nas
mãos, Aécio ensaia empinar o nome de um aliado, o senador paraibano Cássio
Cunha Lima.
Ao sentir o cheiro de queimado, Michel Temer apressou-se em convidar
o grão-tucano Fernando Henrique Cardoso para um almoço no Alvorada. Temer não
se importa que os tucanos exercitem sua vocação para o suicídio, desde que
votem unidos no Congresso a favor das reformas. O sucessor-tampão de Dilma tem
em FHC um aliado.
O ex-presidente tucano refere-se ao governo Temer como uma
“pinguela” pela qual transitarão as reformas que entregarão um país menos
desorganizado ao próximo presidente. Convertido pela conjuntura em força
auxiliar do PMDB no Congresso, o PSDB arrisca-se com sua divisão interna a
transformar o caminho para 2018 numa rua ladrilhada com pedrinhas de brilhante
para alguém como o ministro Henrique Meirelles passar. Ou coisa bem pior.
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