segunda-feira, 10 de outubro de 2016

OUTRAS LEITURAS: LEANDRO KARNAL



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“A FELICIDADE É UM PROJETO DE CLASSE MÉDIA”

Aristocratas e proletários pensam e agem por outro caminho

LEANDRO KARNAL
Isto É Online
Em 04/10/2016
Por Fabíola Perez


Quais são hoje as grandes questões da humanidade, inerentes à nossa época?

O ser humano está associado ao consumo, a vida adquiriu uma dimensão virtual, imagem é tudo, o outro é perigoso, família é meu centro, esforço resolve qualquer questão, o melhor virá logo em seguida se eu me sacrificar, informação virou conhecimento, tecnologia resolve, juventude será eterna, a vida pode ser controlada. Isto é quase toda a nossa filosofia atual.

O senhor acredita que hoje as pessoas estão tentando buscar o sentido da vida de uma forma diferente? Há uma retomada às tentativas de se compreender melhor?

Existem pessoas que se perguntam pela árdua questão do sentido da vida. Mas, a maioria busca a satisfação de necessidades rápidas como o consumo. O mais desafiador seria pensar, “sartreanamente”, que a vida em si não apresenta um sentido prévio, mas que devemos descobrir algo a partir da nossa realidade, pois a existência precede a essência.

Existe ética hoje no País? Onde o senhor consegue vê-la? Qual o significado da ética hoje no Brasil?

Sim, existe e é muito expressiva. Nenhum sistema sobrevive se todos foram ilegais. Nós temos facilidade de ver a falta de ética em governos e dificuldade em vê-la no campo privado. A maioria dos alunos não cola. A maioria dos fregueses da padaria devolve dinheiro se o troco veio a mais. Mas temos um trânsito sem cidadania, violento, misógino e homofóbico. O trânsito é um campo onde a ética brasileira fracassou.

O desejo pela felicidade é uma constante dos nossos tempos? Por que é importante falar sobre a busca pela felicidade hoje?

Não. Ele é um projeto essencialmente burguês do século XIX. A felicidade neste mundo não era o foco da maioria das civilizações anteriores. Como nós a entendemos, hoje, felicidade é um grande projeto de classe média (que atinge gente de todas as classes) que deve apresentar uma vida integral, plena, com saúde, estrutura familiar, bem sucedida e cheia de controles. Felicidade é um projeto de classe média e isto marca todo o aconselhamento sobre felicidade disponível nas redes. Aristocratas e proletários pensam e agem por outro caminho.

Qual a importância da religião na vida das pessoas? Como o senhor vê o uso político da religião?

A religião sempre foi usada politicamente. Foi por interesse político que Getúlio Vargas apoiou a inauguração do Cristo Redentor, por exemplo. Este uso sempre foi paralelo à convicção pessoal de cada um dos seguidores de uma religião. Atualmente, a religião continua sendo um poderoso esteio de anseios e esperanças, de defesas contra o mal e catalisadora de todos os sentimentos humanos. E continua sendo usada politicamente, também.

Por que há tanta repressão – policial e até mesmo social – em relação aos movimentos sociais?

Porque alguns destes movimentos representam um desafio à ordem estabelecida nas formas tradicionais. Assim, a repressão é uma resposta consciente de negativa deste risco. Por vezes o próprio policial, mesmo que oriundo de uma classe baixa, internaliza certos valores e vê na passeata ou na greve um desafio que deve ser vencido.

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Depois dessa intensa crise política e institucional pela qual passamos, o senhor acredita que devemos avançar social e politicamente?

O futuro é sempre uma incógnita. O debate sobre ética está com intensidade inédita no país. Logo, existe uma possibilidade dele originar uma cobrança maior sobre o campo da política e das relações pessoais. Chance apenas… Lembremos que após um esforço ainda maior de moralidade na Itália, a operação Mãos Limpas, o eleitorado apoiou o nome de Berlusconi, que encarnava o oposto ao obtido pela operação.

Por que a discriminação tem aumentado no Brasil? Por que assistimos a mais demonstrações de preconceito?

Porque mais grupos organizados estão tomando as ruas e a mídia, como feministas, grupos de combate ao racismo e contra a homofobia, isto aumenta o medo de muitas pessoas. Preconceito é filho do medo e do risco que eu vejo no deságio de alteridade, ou seja, da diferença (ou até da semelhança mal resolvida). No momento que negros, mulheres e gays passam à fase de celebração (tendo superado a fase de intolerância e de tolerância simples ou passiva) algumas pessoas são obrigadas a confrontar seus fantasmas.

O senhor já afirmou que o eleitorado brasileiro é centrista. Mas ele é centrista por falta de conhecimento político, pelo distanciamento da política?

O centro é a posição dominante sempre. Os extremos são excepcionais. Só situações específicas levam ao poder a extrema direita ou a extrema esquerda. Não se trata de deficiência ou de falta de conhecimento, pois o de extrema direita não é mais consciente do que o centrista, mas do papel que a maioria dá à política. O foco das pessoas está na família, na carreira, no consumo e na sua individualidade. O centro atinge mais a estes valores do que os extremos.

A morte continua sendo uma angústia coletiva?

Virou um medo: a tanatofobia. Não queremos mais vê-la e nem falar dela. Jovens não vão a cemitérios e evitam hospitais. Velhos também não gostam de ir, mas acham que é um dever de solidariedade, e se irritam com os jovens que expressam o que não podemos dizer de maneira direta. Sempre tivemos medo da morte, mas hoje cultivamos a ideia de que ela seria evitável. Não é… Nunca.

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