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“A FELICIDADE É UM PROJETO DE CLASSE MÉDIA”
Aristocratas e proletários pensam e agem por outro caminho
LEANDRO KARNAL
Isto É Online
Em 04/10/2016
Por Fabíola Perez
Quais são hoje as
grandes questões da humanidade, inerentes à nossa época?
O ser humano está associado ao consumo, a vida adquiriu uma dimensão
virtual, imagem é tudo, o outro é perigoso, família é meu centro, esforço
resolve qualquer questão, o melhor virá logo em seguida se eu me sacrificar,
informação virou conhecimento, tecnologia resolve, juventude será eterna, a
vida pode ser controlada. Isto é quase toda a nossa filosofia atual.
O senhor acredita que
hoje as pessoas estão tentando buscar o sentido da vida de uma forma diferente?
Há uma retomada às tentativas de se compreender melhor?
Existem pessoas que se perguntam pela árdua questão do sentido da
vida. Mas, a maioria busca a satisfação de necessidades rápidas como o consumo.
O mais desafiador seria pensar, “sartreanamente”, que a vida em si não
apresenta um sentido prévio, mas que devemos descobrir algo a partir da nossa
realidade, pois a existência precede a essência.
Existe ética hoje
no País? Onde o senhor consegue vê-la? Qual o significado da ética hoje no
Brasil?
Sim, existe e é muito expressiva. Nenhum sistema sobrevive se todos
foram ilegais. Nós temos facilidade de ver a falta de ética em governos e
dificuldade em vê-la no campo privado. A maioria dos alunos não cola. A maioria
dos fregueses da padaria devolve dinheiro se o troco veio a mais. Mas temos um
trânsito sem cidadania, violento, misógino e homofóbico. O trânsito é um campo
onde a ética brasileira fracassou.
O desejo pela
felicidade é uma constante dos nossos tempos? Por que é importante falar sobre
a busca pela felicidade hoje?
Não. Ele é um projeto essencialmente burguês do século XIX. A
felicidade neste mundo não era o foco da maioria das civilizações anteriores.
Como nós a entendemos, hoje, felicidade é um grande projeto de classe média
(que atinge gente de todas as classes) que deve apresentar uma vida integral,
plena, com saúde, estrutura familiar, bem sucedida e cheia de controles.
Felicidade é um projeto de classe média e isto marca todo o aconselhamento
sobre felicidade disponível nas redes. Aristocratas e proletários pensam e agem
por outro caminho.
Qual a importância
da religião na vida das pessoas? Como o senhor vê o uso político da religião?
A religião sempre foi usada politicamente. Foi por interesse
político que Getúlio Vargas apoiou a inauguração do Cristo Redentor, por
exemplo. Este uso sempre foi paralelo à convicção pessoal de cada um dos
seguidores de uma religião. Atualmente, a religião continua sendo um poderoso
esteio de anseios e esperanças, de defesas contra o mal e catalisadora de todos
os sentimentos humanos. E continua sendo usada politicamente, também.
Por que há tanta
repressão – policial e até mesmo social – em relação aos movimentos sociais?
Porque alguns destes movimentos representam um desafio à ordem
estabelecida nas formas tradicionais. Assim, a repressão é uma resposta
consciente de negativa deste risco. Por vezes o próprio policial, mesmo que
oriundo de uma classe baixa, internaliza certos valores e vê na passeata ou na
greve um desafio que deve ser vencido.
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Depois dessa
intensa crise política e institucional pela qual passamos, o senhor acredita
que devemos avançar social e politicamente?
O futuro é sempre uma incógnita. O debate sobre ética está com
intensidade inédita no país. Logo, existe uma possibilidade dele originar uma
cobrança maior sobre o campo da política e das relações pessoais. Chance
apenas… Lembremos que após um esforço ainda maior de moralidade na Itália, a
operação Mãos Limpas, o eleitorado apoiou o nome de Berlusconi, que encarnava o
oposto ao obtido pela operação.
Por que a
discriminação tem aumentado no Brasil? Por que assistimos a mais demonstrações
de preconceito?
Porque mais grupos organizados estão tomando as ruas e a mídia, como
feministas, grupos de combate ao racismo e contra a homofobia, isto aumenta o
medo de muitas pessoas. Preconceito é filho do medo e do risco que eu vejo no
deságio de alteridade, ou seja, da diferença (ou até da semelhança mal
resolvida). No momento que negros, mulheres e gays passam à fase de celebração
(tendo superado a fase de intolerância e de tolerância simples ou passiva)
algumas pessoas são obrigadas a confrontar seus fantasmas.
O senhor já
afirmou que o eleitorado brasileiro é centrista. Mas ele é centrista por falta
de conhecimento político, pelo distanciamento da política?
O centro é a posição dominante sempre. Os extremos são excepcionais.
Só situações específicas levam ao poder a extrema direita ou a extrema
esquerda. Não se trata de deficiência ou de falta de conhecimento, pois o de
extrema direita não é mais consciente do que o centrista, mas do papel que a
maioria dá à política. O foco das pessoas está na família, na carreira, no
consumo e na sua individualidade. O centro atinge mais a estes valores do que
os extremos.
A morte continua
sendo uma angústia coletiva?
Virou um medo: a tanatofobia. Não queremos mais vê-la e nem falar
dela. Jovens não vão a cemitérios e evitam hospitais. Velhos também não gostam
de ir, mas acham que é um dever de solidariedade, e se irritam com os jovens
que expressam o que não podemos dizer de maneira direta. Sempre tivemos medo da
morte, mas hoje cultivamos a ideia de que ela seria evitável. Não é… Nunca.


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