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“A FALTA DE ÉTICA
CORRÓI AS INSTITUIÇÕES”
Por Fabíola Perez
Isto É Online
“Clóvis de Barros Filho refuta a alcunha de pensador ou intelectual,
mas em pouco mais de seis meses de dedicação exclusiva às palestras sobre temas
filosóficos já conquistou milhares de novos admiradores e seguidores em redes
sociais. O professor universitário deixou as salas de aula da Universidade de
São Paulo (USP) para percorrer as empresas de todo o País e ministrar palestras
inspiracionais. Na entrevista a seguir, Barros Filho fala sobre felicidade,
relações sociais, ética privada e pública e como encontrar satisfação no dia a
dia.” (FP)
Existe ética hoje
no país? Qual o seu significado no contexto brasileiro?
A ética é uma luta constante contra a canalhice. A falta de ética
corrói as instituições. Existe ética sempre que duas pessoas precisam conviver.
O que pode acontecer é que hoje há uma espécie de proliferação da canalhice, um
estímulo recorrente às iniciativas auspiciosas. Do ponto de vista de ganhos e
perdas, toda vitória do canalha é negativa. O benefício obtido pelo canalha não
compensa o prejuízo que a canalhice acarreta junto aos demais. Toda iniciativa
canalha, tomando para si patrimônio público é contabilizada como prejuízo. É
uma perda social ininterrupta e despotencializada, fragilizada pelo triunfo de
dois ou três. Estamos assistindo uma transformação da sociedade brasileira que
parece mais consciente da necessidade de buscar soluções do que procurar
repetir iniciativas canalhas.
O desejo pela
felicidade é uma constante dos nossos tempos? Por que é importante falar sobre
a busca pela felicidade hoje?
Podemos chamar a felicidade de várias maneiras, mas ela é, antes de
tudo, uma palavra que, ao longo dos tempos, significou coisas muito diferentes.
A felicidade pode ser entendida como aquilo que, na vida, tem valor maior. Um
bem supremo. A felicidade seria o ponto final não no sentido de término, mas
para onde tudo converge, todos os esforços e estratégias e escolhas buscam a
felicidade. E, sendo assim, tudo o que fazemos tem valor secundário porque são
apenas caminhos para alcançar essa felicidade. Coisas são boas e úteis na
medida em que ajudam a alcançar a felicidade. Porém, a felicidade em si é
inútil porque não serve para nada. Ela não é caminho para nada.
O senhor lançou
recentemente o livro “Felicidade ou Morte”, com Leandro Karnal. Há uma
necessidade de retornar esse tema para o centro do debate?
A preocupação com a vida boa atravessa os séculos, em momento algum
o homem abriu mão de refletir os pontos fortes da vida. Porém, as condições
materiais para se viver bem, recursos naturais e condições econômicas,
políticas e sociais mudam ao longo dos tempos. Aquilo que temos que fazer hoje
para alcançar uma boa vida não é a mesma coisa que fazíamos em outras épocas. É
importante buscar essas condições. Tudo o que está posto no mundo interfere na
vida do homem e, portanto, é relevante para a felicidade.
Quais
características sociais se sobressaem atualmente?
Chama a atenção que o mundo contemporâneo é marcado por uma
intensificação das relações e aceleração das oscilações afetivas. Essa
intensificação é garantida por todas as formas de comunicação digital. As
tecnologias garantem isso e envolvem todo o mundo. Hoje podemos, em curto
espaço de tempo, manter relações com o mundo de uma maneira mais intensa do que
jamais ocorreu antes. Essas relações produzem efeitos afetivos e fazem oscilar
nosso estado de espírito, nos alegram e nos entristecem e, de certa maneira,
essa aceleração provoca estados afetivos mais curtos, as tristezas duram menos,
surgem novos estímulos, um orgia de relacionamentos que nos leva a uma
superficialidade de relações, ou seja, há certa horizontalização de relações
que nos faz conviver de uma maneira muito particular em relação a outros tempos
da nossa história.
As relações
sociais do século 21 são mais efêmeras do que nos séculos anteriores? Elas “se
desmancham no ar”?
Existe muito mais gente se relacionando em muito menos tempo. Com
isso, há menos investimento nas relações. Isso é decisivo na hora de pensar a
vida boa e feliz. Para tornar mais concreto, não há muito tempo para criarmos
uma relação afetiva forte e de referência. Pensemos na lista de contatos que o
WhatsApp nos fornece. As consequências desse processo são importantes. Um
indivíduo que aposta suas fichas em todos os relacionamentos experimenta a
liquidez e volatilidade dos afetos. Podemos substituir e ser substituídos muito
mais rapidamente do que em outros tempos.
Como falar em
felicidade em tempos de violência, crise econômica e crise política?
Tudo o que marca uma sociedade produz efeitos sobre o estado de
espírito de seus agentes, portanto é evidente que uma situação de crise tem
influência sobre o ânimo daqueles que estão concernidos nesse processo.
Observo, porém, que muitos conseguem ter certa competência para blindar a vida
dessas interferências. Os mais engajados chamariam isso de alienação ou falta
de participação cívica. Mas me atrevo a dizer que é perfeitamente possível
viver em grande medida protegido dos problemas sociais mais perturbadores
através da construção de pequenos espaços – alguns chamarão de tribos –, que
acabam costurando relações a partir de uma agenda muito específica e
desconectada, em alguma medida, da realidade. Somos sempre ávidos por encontrar
mundos que nos façam bem. Em alguns momentos a participação no espaço público é
recorrentemente entristecedora. E leva muitos a um espaço de reclusão e
entristecimento.
Como administrar
esse estado de espírito, produto de uma realidade desconfortante?
Há duas formas de enxergar esse problema. A felicidade como uma
espécie de reconciliação com o mundo como ele é, de amor pelas coisas como elas
são. A felicidade é um momento de reconciliação com o mundo e intensa harmonia
com as coisas como elas são. Isso é um tipo de sabedoria. Outra concepção é que
a felicidade implicaria em um engajamento para mudar as coisas, aproximar o
mundo de uma idealidade, a felicidade seria não mais uma reconciliação, mas um
processo revolucionário. Karl Marx é um bom exemplo de quem vê a felicidade
nessa luta transformadora e revolucionária.
Diversas
manifestações sociais demonstram o crescimento de sentimentos como ódio,
intolerância e discriminação? A que o senhor atribui isso?
O ódio é uma tristeza pelo que não conhecemos a causa. Sentimos ódio
pelo outro quando o outro pensa diferente de nós. Nesse sentido, gostaríamos
que muitos concordassem conosco. Podemos entender que as ideologias façam parte
de um mercado e estejam em concorrência. Esse enfrentamento encontra um limite,
um acordo entre todos sobre os processos institucionais que levarão ao triunfo
de uns e disputa pelo poder de outros. Quando isso desrespeita regras
institucionais, alcança proporções preocupantes. Torna-se um cenário de guerra
e força física. É imprescindível que todos nós respeitemos as regras acordadas
e legitimadas por todos. Quando se tripudiam as normas, abre-se uma brecha
perigosíssima para o enfrentamento físico.
As pessoas têm
tentado buscar o sentido da vida hoje?
Muitos buscam a reflexão sobre a própria vida criando condições
excepcionais de existência, cria-se um hiato para buscar um eu interior de
ruptura diferente do cotidiano. Talvez esteja faltando essa mesma busca na vida
como ela é, ou seja, no cotidiano, no trabalho, na esfera familiar. Esse
trabalho de autoconhecimento é muito menos objeto de uma revelação num cenário
de isolamento e muito mais algo que vem se manifestando nas relações mais
triviais. A compreensão de si mesmo tem mais a ver com as intermitências e
percalços da vida. Na minha experiência, passei a me interessar pelo mundo do
trabalho nas empresas e refletir sobre a vida nesses lugares. Uma aventura em
terrenos de isolamento é pouco democrática. Só assim conseguiremos alcançar o
amor pelo trabalho.
Existe uma
sensação de baixa auto-estima pairando no ar que nos atinge como brasileiros,
uma sensação de inferioridade que não nos deixa ser felizes?
Em minhas palestras pelo País, percebo algumas iniciativas no mundo
do trabalho que contrariam esse pressuposto. Na área da saúde, por exemplo, há
muitos empreendimentos bem sucedidos no âmbito privado e público, mesmo que
este ainda enfrente dificuldades. O mundo disputa o empreendedorismo
brasileiro. É preciso perceber que a percepção da opinião pública sobre a
economia é fortemente determinada pelos meios de comunicação.
Muitas obras e
palestras suas são classificadas como literatura de autoajuda. Como este nicho
de mercado tem se transformado?
A palavra autoajuda virou uma categoria de produção editorial que
abriga manifestações muito distintas. Dentro dela há propostas e objetivos
diferentes. Se a autoajuda respeitasse o que quer dizer, ou seja, cada um
refletindo como viver melhor, teríamos um ganho de lucidez. Mas nem sempre ela
entrega o que propõe. Muitas vezes ela se limita a dicas e conselhos
empobrecedores. Não é porque alguém se deu bem fazendo alguma coisa que essa
mesma coisa se aplica a outras pessoas. Talvez o grande problema seja a
pretensão de sua extensão. A autoajuda no seu sentido mais próprio seria a
certeza de que cada um tem condições e possibilidades cognitivas, emocionais e
imaginativas de elocubrar sobre a própria vida.
LEIA TAMBÉM A ENTREVISTA COM LEANDRO KARNAL

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