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| OTÁVIO NUNES É JORNALISTA |
UM TREM PARA AS ESTRELAS
(Por Otávio Nunes) Acabo
de comprar um jornal e sento-me no banco da praça para ler. A meu lado, um
senhor de mais ou menos 60 anos, de braços cruzados, olha constantemente para o
lado esquerdo, como se espera por alguém. Chego a pensar que ele está
interessado em ler meu jornal e lhe ofereço um dos cadernos.
-
Muito obrigado. O jornal não tem nada a me dizer.
-
Mas o senhor pode se informar sobre futebol, por exemplo, quer o caderno
esportivo?, insisto.
-
Obrigado. Não torço para nenhum time e acho bobagem um bando de idiotas
correndo atrás de uma bola.
Caro
e barato leitor, você talvez imagine, e com razão, que o velhinho seja um
tremendo chato, de mal com a vida. No entanto, ele carrega um semblante feliz e
simpático.
Não
interpreto mal suas negativas em ler pedaços do meu jornal. Pergunto o que faz
na praça, pois parece ter encontro marcado com outra pessoa.
-
Estou esperando o trem.
-
Como? Questiono novamente. Ao que me responde a mesma coisa, no mesmo tom de
voz.
-
Mas, meu senhor, estamos numa praça. Não passa trem aqui.
-
Passa, sim. Fique aqui mais um tempo e verá o trem chegar.
Não
sei por quê. Mas permaneço no banco mais alguns minutos a ler meu jornal e
curioso em ver o trem. Não tenho outra coisa a fazer, por hora. Passam-se não
sei quantos minutos e nada. Resolvo então ir embora e me despeço do homem.
-
Boa viagem para o senhor.
Perambulo
pelas ruas, olhando vitrines, e meia hora depois volto à praça. Porém, o
velhinho não está mais lá. Dirijo-me até o dono da banca, onde comprei o
jornal, o mesmo que viu eu me sentar no banco, e pergunto sobre o velhinho.
-
Ele pegou o trem – diz o dono da banca
-
Meu amigo, com todo respeito, parece que de repente o mundo todo enlouqueceu.
Aqui não passa trem algum.
-
Passa sim. Sente-se no banco e espere.
Sento-me
e minutos depois ouço “Tiuc tiuc tiuc tiuc ...” É o trem. Para à minha frente e
abre a porta. Entro. Só há um vagão e um passageiro: eu. Não sei aonde vai, nem
como descer. Mas sinto-me bem sentado aqui, na janela, vendo as pessoas lá fora
que nem sequer notam o trem passar perto delas. Lembro-me, agora, de uma música
do Cazuza chamada “Um trem para as estrelas”. É para lá que vou, tenho certeza.
“Tiuc tiuc...”

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