quinta-feira, 16 de abril de 2015

CLÓVIS CAMPÊLO



NO REINO DA ÁGUA FRIA


Meus caros amigos, o caso eu conto como o caso foi. Como um menino da praia azul do Pina, na zona sul da cidade do Recife, foi parar em uma rua bucólica do bairro de Água Fria, na zona norte da cidade?

Antes de mais nada, porém, dedico essas mal traçadas linhas ao escritor Urariano Mota, que nasceu, cresceu, multiplicou-se e vive até hoje no bairro, cuja grande virtude é ser vizinho das Repúblicas Independentes do Arruda.

Mas tudo começou com a minha avó materna, dona Carmelita, que um dia resolveu comprar uma casa na Rua Alegre, à direita de quem vem, logo após o Mercado de Água Fria, descendo uma pequena e bucólica ladeira calçada por paralelepípedos. Lembro que numa casa de esquina, logo ao lado, havia um pé de sapoti que nos enchia as noites com um perfume doce e agradável.

Na casa onde fomos morar, havia um grande quintal onde dona Carmelita plantou diversos coqueiros. A nossa obrigação – minha, dos meus irmãos e primos – era urinar nessa plantação para fazê-los vingar. Não sei, porém, se provocado pelo excesso de urina ou pelo solo argiloso e úmido, os coqueiros terminaram por minguar e morrer. No Pina, via o meu pai plantá-los no terreno arenoso e adubá-los com salitre do Chile, que comprava na Casa Leão. Sempre dava certo. Mas os coqueiros de dona Carmelita não vingaram, para tristeza de todos nós, crianças e adultos.

Também havia uma cadela da raça pastor alemão, chamada Pepita. Criada solta e cercada de crianças desde pequena, era dócil como um vira-latas. Um belo dia, porém, Pepita amanheceu triste e sem querer se alimentar. Foi definhando, dia a dia. Terminou por morrer, deitada junto de uma lavanderia que havia no quintal, perto da porta da cozinha. Fizemos o seu enterro num cantinho do muro, aos fundos do terreno. Ali, ela descansou em paz.

Lembro também que nas semanas que antecediam os dias de carnaval, pela rua Alegre (sem trocadilhos!) sempre passava um clube com a orquestra tocando frevos animados. Durante anos supus que se tratava da Troça Carnavalesca Mista Batutas de Água Fria, até descobrir que as troças, diferentemente dos blocos, só saem durante o dia. Até hoje, não sei que bloco era aquele que incendiava a noite da rua onde a minha avó morava.

CLÓVIS CAMPÊLO

Assim como no Pina, em Água Fria, durante determinadas noites podia-se ouvir os batuques dos terreiros de macumba. Não sei se hoje ainda existem. Os que haviam no Pina, porém, foram dizimados pelo progresso que o transformou em um bairro quase sem identidade cultural e sem as manifestações populares que o diferenciavam.

Lembro ainda que em determinadas épocas do ano, o Mercado de Água Fria enchia-se de abacaxis, com as frutas formando pequenas montanhas. Eu, que durante algum tempo da minha vida fui criado com vó, acompanhava sempre dona Carmelita ao mercado e ganhava o direito de escolher os abacaxis pequenos, mas maduros, para comer com o feijão ela preparava, repleto de bucho de boi e tripa de porco. Para mim, naquele tempo, não havia pecado nem abaixo e nem acima do equador.

Um belo dia, dona Carmelita resolveu vender aquela casa e se mudar para o bairro da Boa Vista, no centro de Recife. Assim, Água Fria foi se distanciando até tornar-se uma pálida imagem no álbum de fotografias, repleta de lembranças foras da moldura.

Faz tempo que não vou em Água Fria, muito embora sistematicamente esteja sempre no Arruda, olhando o Santinha jogar. Talvez agora que encontro um amigo daquele bairro, ofereça-se a ocasião adequada para isso. Talvez agora, o menino da zona sul possa reencontrar o menino da zona norte.

Recife, abril 2015




NÚBIA NONATO


literaturaemcontagotas.wordpress.com


ENCONTROS

Piu! Diz o pequeno passarinho
que desconfiado foge de
minhas mãos.
Piu! Reclama o pequeno quando
percebe que me distancio.
Piu! Eu fico! E quando o sol
preparar seu manto para o
sono derradeiro, mando-lhe
um beijo numa brisa fugidia
e marco no relógio do tempo
novo encontro.


COISAS DA VIDA

Resultado de imagem para imagem vidraça quebrada
FOTO: GIZELA SANCHEZ


A VIDRAÇA

(Por Violante Pimentel) Era uma escola pública da periferia da capital. A maioria dos alunos era proveniente de famílias pobres. A rigidez do professor impunha medo aos meninos, que procuravam se comportar bem, com medo dos castigos. Esses castigos iam desde a perda do recreio, até a permanência de joelhos, no fim da sala, até o término da aula. Havia ainda a suspensão, quando a falta era muito grave. Isso tudo implicava na baixa de pontos no comportamento, que manchava o boletim mensal. O professor era um verdadeiro terror, e os meninos tremiam diante dele, quando eram chamados à atenção.

Num certo dia, apareceu uma vidraça quebrada, no colégio.

O professor reuniu os alunos na sala de aula e ordenou que o culpado se apresentasse. Fez-se um silêncio absoluto. Ninguém se acusava. O professor repetiu a ordem, com energia. Foi então que o menor aluno da classe, o mais magrinho, o mais obediente, o mais comportado, o mais pobre, o mais triste, tomou a frente dos companheiros maiores do que ele, e, desconfiado, falou, olhando para o chão:

- Fui eu, professor!…Fui eu quem quebrou a vidraça!!!

O professor, surpreso, respondeu:

- Pois você, agora, ficará de castigo, ajoelhado até o final da aula, e não irá para o recreio durante três dias!!!

Em seguida, o mestre continuou a aula, e os alunos se fecharam no mais profundo silêncio. Só se ouvia a voz grave do professor e o ruído compassado do pêndulo do relógio da parede. A grande sala de aula refletia a tristeza dos alunos. Havia no rosto de todos uma mistura de medo e piedade.

De repente, um soluço abafado despertou a atenção da classe. O professor olhou para a carteira onde o aluno chorava e falou:

- Levante-se, Luciano! Por que está chorando? O que foi que houve?

E o aluno, soluçando, respondeu:

- Professor, fui eu quem quebrou o vidro da janela!!! Não foi o Marcos!!!

Violante Pimentel é procuradora aposentada
 do Estado do Rio Grande do Norte

O mestre fechou o livro que tinha sob os olhos, tirou os óculos e perguntou, com voz mais branda:

- Então, por que deixou seu colega ser repreendido e castigado? Ele está ali de joelhos e sem direito a ir para o recreio durante três dias!!!

Como o menino não desse logo a resposta, o professor virou-se para o outro, que estava de castigo, e disse em voz alta:

- Marcos, levante-se e venha aqui para a frente se explicar! Por que você se acusou de um ato que não cometeu? Por que aceitou ser castigado, sem ter praticado qualquer falta?!!!

Marcos, o menino mais pobre da classe, o menor da turma, o mais triste e o mais comportado, disfarçou, fingindo abotoar a camisa, e, gaguejando, respondeu:

- Eu venho pra escola sem comer… não tenho pai… Minha mãe trabalha na fábrica… ganha pouco… O pão não dá pra todos… não dá pra eu trazer merenda… Então, todos os dias, Luciano divide o lanche dele comigo… ele me dá pão com queijo… Eu sempre disse a ele que um dia eu haveria de pagar esse lanche, que mata a minha fome e faz passar a minha dor de cabeça… O dia que eu pude pagar esse favor foi hoje…

E o menino disparou num choro compulsivo. Ouvia-se na classe o choro alto dos dois alunos.

O austero professor, visivelmente comovido, suspendeu a aula. Com a voz embargada, disse para a classe que a lição daquele dia foi aquele belo exemplo de coleguismo e de gratidão. O velho mestre compreendeu perfeitamente o gesto dos dois alunos, e isso lhe trouxe lágrimas aos olhos.

Todos os alunos se emocionaram com a bondade de Luciano e com a gratidão de Marcos.




sexta-feira, 10 de abril de 2015

BRUNO NEGROMONTE

EMERSON LEAL - ENTREVISTA EXCLUSIVA
De talento congênito, Emerson Leal vem mostrando o porquê vem recebendo elogios de alguns dos mais conceituados nomes da música brasileira
Há quem afirme que a música brasileira ande em baixa. Esse tipo de afirmação talvez venha a ser dado por aqueles que não conseguem enxergar um palmo a frente do nariz, visto que o atual cenário musical brasileiro é detentor de talentos natos nas mais distintas regiões do país. Nomes como Emerson Leal e o consistente trabalho que vem apresentando é a prova documental disto. Natural de Salvador, mas radicado a um certo tempo no Rio de Janeiro, Leal vem conquistando o respeito não apenas do público, mas também de nomes como Chico Buarque, um dos seus grandes ídolos e fonte de inspiração para a arte que produz, como foi possível ORIGINAL E VERSÁTIL, EMERSON LEAL TRAZ EM CD HOMÔNIMO UM PROFÍCUO CAMINHO PARA O FUTURO DA MPB. Hoje seu nome volta a figurar em nosso espaço através desta entrevista exclusiva concedida gentilmente por este artista completo. Em fase de pré-produção do seu novo projeto, Emerson conta-nos como deram-se seus primeiros contatos com a música, o modo intuitivo como compõe, seu contato com nomes Tom Zé e Luiz Tatit e como chegou aos seus ouvidos o elogio do seu grande ídolo, Chico Buarque. Vale a pena conferir! Boa leitura!
Como a música entrou em sua vida? Há músicos em sua família?
EM - Desde que me entendo por gente o que mais me interessa é a música. Ou, mais especificamente, a canção. Todas as coisas que fossem relacionadas à canção sempre me interessavam muito. Eu sempre brinquei de cantar, de “inventar” canções, também. O meu pai tocava – toca – violão e canta muito bem, mas acabou não seguindo carreira profissional na música. Foi num antigo violão que ele tinha em casa que comecei a tocar, aos nove anos de idade. Minha mãe também cantava super afinado e vez ou outra compunha algumas cantigas. Além disso, os irmãos do meu pai também gostam de tocar violão; os tios da minha mãe, em tempos idos, também tocavam e faziam sambas e serestas nos quintais de suas casas, etc. Enfim, esse costume é um traço forte da nossa microcultura familiar.
Você tem demostrado ser um grande instrumentista e melodista. Você teve a oportunidade de desenvolver essa sua habilidade teoricamente ou tudo se deu apenas a partir de sua vivência com o instrumento?
EM -  A criação de melodias e harmonias (e até arranjos) é, no meu caso, bastante intuitiva. É um trabalho do inconsciente. E é sempre baseada em tudo o que eu já ouvi, claro, no que eu sinto, no que me toca mais. No mais, tudo o que sei, comecei a aprender ouvindo e tentando reproduzir no instrumento; isso foi sempre o principal desafio, um grande barato. E fui me desenvolvendo na prática, mesmo. Tanto que nunca me interessei em tomar aulas de música ou de violão. Só fui aprender o básico da notação musical na adolescência, quando um amigo me emprestou uma revista que tratava desse assunto. Hoje escrevo bem uma partitura mas, por exemplo, se for para aprender a tocar uma canção ou peça qualquer, prefiro ouvi-la do que lê-la. Aprendo bem mais rapidamente assim. Não tenho nenhuma prática de leitura à primeira vista, por exemplo. 
O período em que você esteve em Salvador você esteve à frente da banda Oda Mae Brown, na qual além de ser um dos fundadores, tocava guitarra, cantava e compunha. Qual foi a hora em que você percebeu que já estava na hora de estender seus horizontes e resolveu partir para o Rio de Janeiro?
EM -  A Oda Mae Brown era na verdade a nossa grande farra, que durou de 2002 a 2006. Apesar de minha formação musical estar mais ligada à canção brasileira, nós fazíamos blues. Claro que fazíamos o nossoblues, com nossas letras-comédias, em Português – e com harmonias diferenciadas, também. Quando estávamos ficando mais conhecidos e já próximos da gravação do primeiro disco, os membros acabaram saindo por motivos diversos e o sentido daquilo tudo foi deixando de existir. E nesse meio tempo eu conheci o Rio e me apaixonei pela cidade. Senti que havia um clima musical mais consistente, mais vigoroso por aqui naquele momento e decidi que um dia teria que vir para cá. Seria também uma guinada na minha própria vida, algo fundamental (hoje eu sei) para um artista. Em 2008 fiz as malas e vim.
Como foi a receptividade ao seu trabalho no Rio de Janeiro logo após sua chegada? Quais as maiores adversidades existentes até você se firmar como cantor e compositor?
EM - Bela pergunta. Bom, um grande adversário na minha vida sempre fui eu mesmo: eu e a minha autocrítica impiedosa, eu e as minhas dúvidas quanto à relevância do que eu fazia, eu e a minha timidez crônica, enfim. Na medida em que eu avanço um pouco mais na luta contra tudo isso, as coisas se clareiam. Hoje, olhando para trás, vejo que o meu trabalho sempre foi bem recebido, afinal de contas. Fora isso, as adversidades são as mesmas que qualquer artista de música brasileira independente que deu o pontapé inicial nesse início dos anos 10 e que vive nas capitais enfrenta: a impossibilidade de se fazer realmente visível sem grandes e caras promoções publicitárias; a escassez de produtores culturais e, atualmente, a situação econômica da classe média consumidora de cultura no país: quem passa subitamente a gastar muito para “apenas” morar, vai consumir menos cultura, claro. Além disso, há um problema grave que é a inferiorização do Brasil e da sua cultura pelo próprio brasileiro e, ao lado disso, um desinteresse de boa parte do público por coisas novas. 
Como você recebeu a notícia sobre o comentário do Chico Buarque e que impacto essa declaração causou em sua carreira?
EM -  Foi uma surpresa incrível. Jamais imaginei que ele estivesse vendo aqueles meus vídeos caseiros. E ele falar o que falou daquela forma, tão abertamente e sinceramente, foi sensacional, mesmo. E o detalhe é que não vi ao vivo, só recebi dezenas de e-mails ao mesmo tempo, mensagens, telefonemas: “Você viu? Você viu? O Chico falou de você! (risos)”. Nessa época, meados de 2011, eu estava começando a gravar o disco, mas estava bem “travado”, mesmo. Muitas pessoas que viam esses vídeos falavam “toca suas músicas”, ou “você tem CD?” e isso me estimulava. Daí rolou esse episódio do Chico e eu pensei “bom, se não for agora, não é nunca mais”.
Você é um dos responsáveis pelo Book Song do Tom Zé não é? Como surgiu a ideia e a possibilidade de executar esse projeto? A sua parceria com ele surgiu a partir dessa oportunidade?
EM -  Eu mergulhei pra valer na obra de Tom Zé em 2008, logo depois que cheguei no Rio. Conheci praticamente tudo, aprendi a tocar muita coisa. Num determinado momento, me toquei que poderia fazer algo com esse conhecimento; contribuir de alguma forma por ter essa bagagem. Nós já trocávamos algumas ideias através do seu blog (tomze.blog.uol.com.br), e num determinado momento lhe mandei um e-mail dizendo que eu tinha interesse em produzir um songbook seu, já que não havia uma publicação como esta sobre a sua obra. E seria um songbook diferente; com um trabalho gráfico interessante, com comentários do próprio autor sobre as canções, entre outras novidades. Ele topou e comecei a trabalhar. Convidei a Vânia Medeiros para cuidar do design gráfico, que ficou primoroso e super original; convidei a Tatiana Lima, jornalista soteropolitana, biógrafa de Tom Zé e nossa amiga em comum para escrever o texto biográfico – e convidei o Luiz Tatit, esse outro grande gênio brasileiro, para escrever o prefácio. A edição é da Multifoco, editora aqui do Rio, que lançou o livro no segundo semestre do ano passado. Então, o contato passou a existir, tanto com o Tom Zé quanto com o Luiz Tatit, por causa deste trabalho. Quando eu decidi finalmente fazer o CD, em meio a isso tudo, naturalmente os convidei para selarmos nossas parcerias de composição, também. E isso foi um mais presente incrível; os dois são patrimônio desse país. São gênios, ídolos.
Seu álbum conta com duas participações especiais. Uma é da cantora Ariella e a outra de Verônica Ferriani. Desde a concepção do projeto já havia a ideia dessas participações desses nomes ou eles vieram posteriormente? Como se deram os convites?
EM - “Me love me”, a canção que traz a participação da Verônica Ferriani, é música minha construída a partir de uma letra do Fernando Salem, esse outro compositor fera de São Paulo. Enquanto eu estava trabalhando no arranjo da canção, achei que ela diria bem mais se eu unisse uma voz feminina à minha. A Verônica é uma das grandes cantoras do Brasil entre tantas surgidas nos últimos anos e que agora, com seu segundo disco, acaba de se revelar uma excelente compositora. Ela, o Salem e eu havíamos trabalhado juntos em algumas oportunidades em São Paulo. Então, como já existia essa sinergia, não deu outra: a canção na verdade estava esperando pela Verônica, eu apenas a comuniquei disso (risos)! E em “No Japão”, a decisão foi mais ou menos parecida, só que veio depois. Também quis uma outra voz, feminina, pra dialogar comigo, pois a melodia se repete bastante e a letra do Oto Paim é uma obra-prima; também merecia ser sublinhada por mais uma voz poderosa. Convidei a Ariella porque fiquei impressionado com ela. Nunca tínhamos trabalhado juntos, somente feito um som sem compromisso; eu, ela e a turma dos Ilhonas, de Taubaté. Achei que ela entraria muito bem nessa canção e confirmei essa impressão. Acredito muito na Ariella, que está gravando seu primeiro CD solo neste momento, para o qual, especialmente, compus uma música nova. Ela tem muita força.
Essa sua participação nas diversas etapas da concepção do álbum permite que você o molde da maneira como você de fato deseja, no entanto isso gera uma demanda de responsabilidade aquém do habitual. Apesar de todo o trabalho que deduzo ter havido o resultado saiu conforme o que você desejava?
EM - De fato é um trabalho intenso, contínuo, vocêc dorme e acorda pensando só nas coisas que estão dentro desse processo: em acordes e versos, em timbres e texturas, em plugins e equipamentos, em autorizações e cartórios, em divulgação e formação de público. Tudo ao mesmo tempo. Aprendi a fazer várias dessas coisas só na hora de fazer (ainda estou aprendendo). No final das contas, o disco ficou realmente melhor do que eu esperava, quando comecei. E depois, com a boa recepção que ele tem tido, só tenho o que comemorar.
Você tem pretensões para lançar este ano seu novo projeto não é isso? O que você poderia nos adiantar a respeito?
EM - Está bem informado (risos)! A gente começou a pré-produção agora em fevereiro; começamos a trabalhar nas primeiras músicas justamente agora. Sairá ainda ao longo deste ano de 2015. O que posso adiantar é que dessa vez vou ter a alegria de trazer um grande time comigo, trabalhando nos arranjos, nos instrumentos. Não vou mais sair tocando tudo, como da outra vez. Os meninos da banda que me acompanha estarão presentes, além de outros craques da nova geração de músicos cariocas, também. O que posso dizer é que vem mais coisa bonita por aí. Aguardem!

DALINHA

SUA REDE NÃO É A MINHA

Dalinha Catunda



A rede armada no alpendre
Enquanto você navega
Na tal rede virtual
E o real amor renega
Vejo você navegando
Eu adormeço sonhando
Com tudo que você nega.

Cada toque do seu dedo
No teclado é um insulto
E cada expressão no rosto
Sugere um enredo oculto
Tento manter a decência
Encho-me de paciência
Concedo-lhe novo Indulto.

Enquanto na tela fria
Você aquece a ilusão
Aqui na rede eu fico
Pensando em nosso colchão
Que vive desaquecido
Após ter aparecido
A nova navegação.

Você se distrai na rede
Dia e noite é assim
Em outra rede matuto
Sem você perto de mim
Viver assim não aceito
Ou você vai tomar jeito
Ou decreto nosso fim.




quinta-feira, 9 de abril de 2015

NÚBIA NONATO

AMIGOS


Liza, Magrela, Branca
Tucão!
Fredy, Chiquinha, Manuel,
Sabão!
Mais eu diria se a memória
me favorecesse, mas anjos
de quatro de patas também
se vão, se misturam às areias
do tempo e viram lembranças.
Au! Saudades...Au! saudades...
Levam mais do um pedaço de
nosso coração, levam unhas
levam lágrimas e uma sensação
de que o amor sempre vem
acompanhado de um rosnado...
Putz...saudades...



COISAS DA VIDA

"NESTA RUA SÓ TEM CANALHA…”


(Por Violante Pimentel) Na rua em que eu morava, em Nova-Cruz, morava também  uma família muito numerosa. O casal, Seu Gonzaga e Dona Efigênia, tinha uma prole constituída de oito filhos, sendo três homens e cinco mulheres, ainda crianças. O dono da casa era ferroviário, muito calmo, e dedicava sua vida mais ao trabalho do que à família. Sua esposa, muito enérgica, era quem mandava em tudo, inclusive no marido. Semianalfabeta, dona Efigênia falava errado, era gasguita e briguenta. Irreverente, ralhava com os filhos a toda hora, e reclamava das vizinhas, que, segundo ela, colocavam lixo em sua calçada. Por ser confusionista, a vizinhança evitava aproximação com ela. 

Às vezes, Dona Efigênia amanhecia o dia dando coice no vento, ou seja, procurando briga, pra descarregar suas frustrações. A mulher só se calava quando o marido chegava do trabalho. Seu Gonzaga detestava gritaria e, por diversas vezes, havia ameaçado abandonar a casa, e ir pra bem longe, caso a esposa não procurasse controlar o gênio e segurar a língua. 
Para padrinhos de uma de suas filhas, Dona Efigênia havia convidado um ilustre casal de Nova-Cruz, comerciante Francisco Bezerra e Lia Pimentel Bezerra, professora de Inglês.

Violante Pimentel é procuradora aposentada
 do Estado do Rio Grande do Norte

Dona Efigênia amanhecia o dia varrendo a calçada e xingando a pessoa que, segundo ela, colocava o lixo em frente à sua casa. Jurava que ainda iria descobrir quem era essa cachorra, "sem- vergonha", que fazia isso, e, com certeza, essa pessoa iria receber o troco que merecia.

Um belo dia, o seu sonho foi realizado, pois pegou em flagrante a autora de tão famigerado ato.  Pela manhã, Dona Efigênia abriu a porta da sua casa, para ir varrer a calçada, no exato momento em que a tal mulher colocava um saco de lixo na sua calçada. Vermelha de raiva, a jararaca armou um verdadeiro escândalo, xingando a “infratora” com muitos palavrões.

A vizinha reagiu, devolvendo-lhe os desaforos. Nessa hora, houve o ápice da briga, pois Dona Efigênia, completamente possessa, pegou a vassoura e atirou-a, bruscamente, em direção à vizinha. Ela, porém, conseguiu se esquivar, correndo em direção à sua própria casa. A vassourada, entretanto, por um triz, não atingiu a sua comadre Lia Pimentel, que, naquele momento, passava pela calçada, elegantemente vestida, dirigindo-se ao Ginásio Nossa Senhora do Carmo, onde lecionava. Dona Efigênia, quando a viu, quis justificar sua ira e sua agressividade, dizendo:

 - Olhe, comadre Lia, peguei em cheio aquela cachorra, "sem-vergonha", botando lixo aqui em frente à minha casa! E gritou pra toda a rua ouvir:



- Todo dia eu digo pra Gonzaga, que nesta rua aqui só tem  canalha!!! Só "escapa" mesmo comadre Lia, compadre Francisquinho e NÓS!!!" 

sábado, 4 de abril de 2015

JÁ VAI TARDE, GEROLINA

unidas2.wordpressa.com.br

Foram anos e mais meses, semanas, dias e horas de discórdia e ingratidão. Você ameaçando ir embora com esse, com aquele, com o primeiro que lhe galopasse. Ameaçando ir embora sem os filhos no colo. Eu com as crianças no chão. Só. 

Bota angústia nisso.

Foram anos, Gerô. Foram anos.

Aflito, coração nos pés, sofri, por décadas, a dor da separação que não vinha. 
Só ameaças, maledicências. Sofrimento inútil.  

E por que, Gerô, a separação?

Por conveniência sua:

O mundo lá fora é difícil, custa caro, só tem valor quem tem dinheiro, não importa de onde o dinheiro venha. Pude lhe dar pouco. Sei de suas mágoas, peitos pequenos e murchos, mas quem pode pagar enxerto, internação e tudo mais, ganhando o que ganho? Ainda que não tivesse bebido a vida toda, não tivesse botado um puto de um cigarro na boca, não teria dinheiro para lhe comprar um “bico” importado.

 Por safadeza sua:

Não se faz isso, faz não, Gerô, com um homem frágil, inseguro, mas honesto e trabalhador, e que tanto te amou.

Hoje, sei que você vai amanhã.

Vi a mala pronta e bilhete do ônibus na caixinha onde você guarda suas bijuterias e santinhos.

Vá com Deus, mas vá mesmo. Obrigado por me ensinar a não sofrer mais.

Não precisa levar os santinhos, reze.

Ascenso



CLÓVIS CAMPÊLO

SOLANO TRINDADE

O poeta Solano Trindade nasceu no Recife, no bairro do São José, no dia 24 de julho de 1908. Filho de um sapateiro, mudou-se para o Sudeste do país, no início dos anos 40, vivendo em Belo Horizonte e Pelotas. Depois de um breve retorno ao Recife, muda-se para o Rio de Janeiro, onde funda o Comitê Democrático Afro-Brasileiro. Vai depois para São Paulo, onde funda o Teatro Popular Brasileiro, fez parte do grupo de artistas plásticos Sakai de Embu. Também participou do filme A hora e a vez de Augusto Matraga. Faleceu no Rio de Janeiro, em 19 de fevereiro de 1974.

Antes de emigrar, porém e se transformar em mais um nordestinado no sudeste brasileiro, idealizou no Recife, em 1934, o I Congresso Afro-Brasileiro. Dois anos depois, em 1936, participou em Salvador do II Congresso Afro-Brasileiro. Em 1936, também, ainda no Recife, fundou a Frente Negra Pernambucana e o Centro de Cultura Afro-brasileira, para divulgar o trabalho de artistas e intelectuais negros.
FOTO DE CLÓVIS CAMPÊLO


O site Causa Operária, em texto publicado quando das comemorações dos 35 anos do falecimento do poeta e militante, disse o seguinte: “Dos escritores negros que deixaram sua marca na literatura brasileira, Solano Trindade foi um dos mais significativos. Isso porque foi o primeiro, e talvez o mais contundente a se dirigir, não impessoalmente a toda a população, mas também, particularmente à população negra, descrevendo os mais graves problemas sociais vividos pelos negros brasileiros, e dos quais se tornou um dos mais ilustres artistas”.

Ainda segundo o site acima citado: “No início de sua vida artística, estudou um ano no Liceu de Artes e Ofícios, mas abandonou um estudo mais aprofundado em artes plásticas para se dedicar principalmente à poesia, onde iria se tornar um dos mais expressivos símbolos nacionais da resistência negra ao racismo e à opressão social. Sua fase literária mais importante inicia-se na década de 1930, quando escreve seus primeiros poemas retratando as dificuldades vividas pelos negros então no país”.

Segundo o Diario de Pernambuco, em matéria publicada no dia 11/5/2014, quando do 40º aniversário da sua morte, Solano Trindade nasceu vinte anos após a abolição da escravatura, em 1908, filho de sapateiro mulato e de doméstica cafuza. E mais: “A despeito do sangue branco e indígena nas veias, não houve confusão a respeito da raça do menino. Cresceu ouvindo a zombaria:"Oh, meu Deus, matai o Solano. Este negro feio, de beiço grande". Era pobre e vivia em uma época difícil para os seus, mas foi capaz de contrariar o determinismo social e econômico para se revelar um ícone da cultura brasileira”.

CLÓVIS CAMPÊLO

“As poesias de Solano estão repletas de referências aos ritmos, costumes, religiões africanas, além de mitos e lendas do povo negro. Ele foi pioneiro ao "ressignificar o ranger dos grilhões, gemidos, murmúrios e silêncios da senzala", acrescenta a doutora em teoria literária Silvana Maria Pantoja”, ainda na matéria do DP.

A escultura do poeta está no Pátio de São Pedro, na esquina com o Beco do Veado Branco, cenário de um dos mais importantes polos de animação e de manifestação da cultura negra no Recife.

No dia em que fizemos a fotografia acima, a escultura estava com a cabeça coberta por um chapéu de palha, numa interferência popular bem humorada. Acho que o poeta deve ter gostado daquilo.
Recife, abril 2015


sexta-feira, 3 de abril de 2015

CHÁ DAS CINCO: FERREIRA GULLAR (5/5)

www.universidadefm.ufma.br
CANTIGA PARA NÃO MORRER

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.


 MADRUGADA

Do fundo de meu quarto, do fundo
de meu corpo
clandestino
ouço (não vejo) ouço
crescer no osso e no músculo da noite
a noite

a noite ocidental obscenamente acesa
sobre meu país dividido em classes



OBRAS DE FERREIRA GULLAR

Um Pouco Acima do Chão, poesia, 1949
A Luta Corporal, poesia, 1954
Teoria do Não-Objeto, ensaio, 1959
João Boa-Morte, Cabra Marcado pra Morrer, poesia, 1962
Quem Matou Aparecida?, poesia, 1962
Cultura Posta em Questão, ensaio, 1964
Se Corre o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come, teatro, 1966
A Saída? Onde Fica a Saída?, teatro, 1967
Dr. Getúlio, Sua Vida e Sua Glória, teatro, 1968
Por Você, Por Mim, poesia, 1968
Vanguarda e Subdesenvolvimento, ensaio, 1969
Dentro da Noite Veloz, poesia, 1975
A Luta Corporal e Novos Poemas, poesia, 1976
Poema Sujo, poesia, 1976
Antologia Poética, poesia, 1977
Augusto dos Anjos ou Vida e Morte Nordestina, ensaio, 1977
A Vertigem do Dia, poesia, 1980
Sobre Arte, ensaio, 1983
Barulhos, poesia, 1987
Poemas Escolhidos, 1989
Indagação de Hoje, ensaio, 1989
O Formigueiro, poesia, 1991
Argumentação Contra a Morte da Arte, ensaio, 1993
Rabo de Foguete-Os Anos no Exílio, memórias, 1998
Muitas Vozes, poesia, 1999
Rembrandt, ensaio, 2002
Relâmpagos, ensaio, 2003
Um Gato Chamado Gatinho, poesia, 2005
Resmungos, poesia, 2007
Em Alguma Parte Alguma, poesia, 2010


(Fonte: e-biografia)