segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

HORA DA VITROLA: CARINHOSO

CARINHOSO

DE PIXINGUINHA E JOÃO DE BARRO
EM DOSE DUPLA

Na interpretação de Marisa Monte e Paulinhos da Viola



Na interpretação de Yamandú Costa



Meu coração, não sei por que
Bate feliz quando te vê
E os meus olhos ficam sorrindo
E pelas ruas vão te seguindo
Mas mesmo assim
Foges de mim

Ah se tu soubesses como sou tão carinhosa
E o muito, muito que te quero
E como é sincero o meu amor
Eu sei que tu não fugirias mais de mim

Vem, vem, vem, vem
Vem sentir o calor dos lábios meus a procura dos teus
Vem matar essa paixão que me devora o coração
E só assim então serei feliz
Bem feliz

Ah se tu soubesses como sou tão carinhosa
E o muito, muito que te quero
E como é sincero o meu amor
Eu sei que tu não fugirias mais de mim

Vem, vem, vem, vem
Vem sentir o calor dos lábios meus a procura dos teus
Vem matar essa paixão que me devora o coração
E só assim então serei feliz

Bem feliz

CHÁ DAS CINCO: RUI BARBOSA


paffaroartes.blogspot.com 



Não se deixem enganar pelos cabelos brancos, pois os canalhas também envelhecem.

***

As leis são um freio para os crimes públicos - a religião para os crimes secretos.

***

Política e politicalha não se confundem, não se parecem, não se relacionam. Antes, se negam, se repulsam mutuamente. A política é a higiene dos países moralmente sadios. A politicalha, a malária dos povos de moralidade estragada.

***

A liberdade não é um luxo dos tempos de bonança; é, sobretudo, o maior elemento de estabilidade das instituições.

***

De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.

educaja.com.br 

Justiça tardia nada mais é do que injustiça institucionalizada. 

***

Maior que a tristeza de não haver vencido é a vergonha de não ter lutado!

***

O Exército pode passar cem anos sem ser usado, mas não pode passar um minuto
sem estar preparado.

***

A palavra é o instrumento irresistível da conquista da liberdade.




domingo, 2 de fevereiro de 2014

NÃO ME PERGUNTEM POR QUÊ?

Nem a DITA sabe.
Ninguém sabe.
Preciso escrever alguma coisa, qualquer coisa, todo dia, agonia.
Nem que seja só pra dizer adeus.


sábado, 1 de fevereiro de 2014

REMORSO

Não adianta rogar, pedir para que ele não se levante sozinho, para que evite quedas, mais quedas, quedas brutais. Tudo é feito para que ele não caia. Mas ele faz de tudo para cair. Não adianta dizer ao pai: somos humanos também, cada queda sua é uma semana de tortura, de sobressalto. 

Não dá para esperar dois minutos? Vou ao banheiro. Não, não dá. Virou as costas... Ele levanta pra cair.

O esgotamento de tantos anos já não consegue distinguir o que os médicos, também eles, não conseguem distinguir: onde termina a demência, onde começa a teimosia.

A paciência, por esgotada, perde o prumo, dispara impropérios. E vai dormir cheia de culpa.



MINICRÔNICAS: TEMPO

VIDA BESTA


www.assessocor.com.br 


A vida corre ligeira, voa baixo, feito corredor queniano na São Silvestre.
Mas as horas insistem em não passar.

DE MAL A PIOR

No mais das vezes, ao contrário do que dizem por aí, o tempo agrava nossos defeitos e mina nossas poucas qualidades.

O TEMPO
(QUE O VENTO LEVOU)

Não deixe nada mais para o amanhã.
O amanhã não existe.
O amanhã passou por aqui agora, cheio de pressa.
Não disse até logo a seu ninguém, adeus nem pensar.
O amanhã passou por aqui neste instante, esbaforido, rumo ao nunca mais.
E riu da nossa tolice. Por tomá-lo como real.

br.freepik.com

O CONTADOR DE CARNEIROS

Era uma vez um homem que, desde menino, acostumara-se a ver a vida pela janela. Esperava sempre as condições ideais para fazer aquilo que sonhava fazer – a maneira mais objetiva de nunca fazer nada. Condições ideais não existem.

Como o tempo não para, ele também ficou velho, como ficam velhos todos, ou quase todos, os meninos. (Alguns morrem no meio do caminho.)

Ainda lhe restam forças para fechar a janela, tomar o elevador e, finalmente, caminhar. Mas de que lhe vale este fiapo de vigor, se ele não aprendeu a atravessar a rua?

Melhor cerrar a cortina. E contar carneiros. Como sempre fez.


CORRIDA INÚTIL

De uma hora para outra, dez anos depois, todo mundo saiu correndo.
Não precisava ser assim, esforço inútil.
Dez anos se foram.




CHÁ DAS CINCO: DRUMMOND

POEMA DA PURIFICAÇÃO

Carlos Drummond de Andrade



baptistão.zipnet.com

Depois de tantos combates
o anjo bom matou o anjo mau
e jogou seu corpo no rio.
As águas ficaram tintas
de um sangue que não descorava
e os peixes todos morreram.
Mas uma luz que ninguém soube
dizer de onde tinha vindo
apareceu para clarear o mundo,
e outro anjo pensou a ferida
do anjo batalhador.


MINICRÔNICAS: POLÍTICA

VÁ PRA LÁ, COMPANHEIRO!

Todo militante profissional é um chato incurável. E por duas razões, ao menos:

1ª – Não admite que ninguém tenha opinião diferente da sua, que, a bem da verdade, nem sua é. É de quem garante sua sobrevivência, em geral com dinheiro público.

2ª – Quer que os outros estejam permanentemente mobilizados contra isso ou a favor daquilo por amor à causa. Justamente o que ele não se digna a fazer. É uma mala, mas não é tolo. Sem uma verbinha, não vai à luta.


PERGUNTAR NÃO OFENDE

pt.dreamstime.com 

O repórter novato foi direto ao ponto, jamais voltava para a redação sem as respostas de que precisava:

- Deputado, se sua mãe nunca foi puta, com o senhor garante, a quem o senhor puxou?


EXCELÊNCIAS

Sua Excelência resolve interromper o líder do governo, que enaltecia o chefe do Executivo.
-- Vossa Excelência me daria um aparte? Serei breve.
-- Concedo-lhe o aparte com todo prazer. Tem Vossa Excelência a palavra.
-- Quando é que nós, do baixo clero, vamos receber nossa “parte”? Obrigado pelo aparte.


PACTO DE MEDIOCRIDADE



www.mdig.com.br 

Botem reparo. No final de cada semestre, às vésperas do recesso, as cenas se repetem nas casas legislativas. Parlamentares se apressam em aprovar projetos de sua autoria (em geral, um projeto de cada um deles) para dar, digamos assim, uma satisfação à sociedade, na linha do “estão vendo como a gente trabalha”. Não deveriam se sobrecarregar tanto. A maioria das propostas é de uma inutilidade acachapante, abaixo da pior suspeita.

Mas isso não ocorre por acaso. É fruto de um pacto de mediocridade firmado (mas não escrito) entre eles, segundo o qual ninguém vai colocar azeitona na empada de ninguém. Ou seja: o destino dos melhores projetos é o arquivo morto.






IMAGENS: PROPAGANDA (II)










RECLAMES ANTIGOS


historiadapublicidade.blogspot.com 




historiadapublicidade.blogspot.com 


clubedosentasitajai.blogspot.com -






www.bloggen.be 
www.ibahia.com 



bicicletamotorizada.net











OUTRAS LEITURAS: FLÁVIO GIKOVATE

“O CONSUMISMO DA ELITE É DESESPERO”

FONTE: revista Época Negócios
Por: POR PEDRO CARVALHO
EM: 29/01/2014

www.blogdobraulio.com 

O PSIQUIATRA FLÁVIO GIKOVATE FALA SOBRE AS ANGÚSTIAS DA ELITE QUE FREQUENTA SEU CONSULTÓRIO E O ESTRESSE DO MUNDO MODERNO


Flávio Gikovate não tem um divã. Quando um paciente chega ao consultório dele, num dos endereços mais caros de São Paulo (a Rua Estados Unidos, nos Jardins), encontra primeiro uma fachada de cimento queimado com portas altas de correr. Depois, pode tomar café na recepção térrea, entre um jardim interno envidraçado e telas coloridas de Claudio Tozzi. Na hora da consulta, sobe por uma escada sem paredes laterais até a sala do psiquiatra e se senta: ou num sofá, ou numa poltrona bem confortável de couro preto. Mas divã, como no nome de seu programa semanal na rádio CBN (No Divã do Gikovate), não tem. “Sempre trabalhei assim, prefiro olho no olho”, diz. Talvez seja o olho no olho, talvez seja o método da “psicoterapia breve” e a promessa de alta em seis meses – que faz com que ele atenda 200 pacientes por ano. Fato é que Gikovate se tornou o confidente de alguns dos empresários e executivos mais bem-sucedidos do país. Nesta conversa, ele fala sobre a gastança dos brasileiros ricos, a cabeça do bom líder e outros temas atuais, mas de um ponto de vista diferente. Ou você já tinha ouvido que a culpa do consumismo é da pílula anticoncepcional?

Dinheiro anda comprando mais felicidade ou infelicidade?
Esses dias uma moça me perguntou se era possível ser feliz sendo pobre. Estudos de Harvard mostram que se faltar dinheiro para o básico – saúde, comida – provavelmente o indivíduo não consegue ser feliz. Algum para o supérfluo também é importante. Agora, de um ponto para cima, ele pode atrapalhar bastante. O consumismo é muito mais fonte de infelicidade do que de felicidade. O prazer trazido é efêmero, uma bolha de sabão – e em seguida vem outro desejo. Ele gera vaidade, inveja, uma série de emoções que estão longe de qualquer tipo de felicidade. E tudo vira comparação. Outro estudo diz que um indivíduo que ganha US$ 40 mil numa comunidade em que a média é de US$ 30 mil é mais feliz do que se ganhar US$ 100 mil e a média for de US$ 120 mil.

A elite brasileira é consumista demais?
Comecei a trabalhar em 1967, vi a chegada da pílula [anticoncepcional] e a emancipação sexual dos anos 60. Na época, achava-se que essa liberdade iria ‘adoçar’ as pessoas. ‘Faça amor, não faça guerra.’ Mas sexo e amor são coisas diferentes. É triste ver que os ideólogos daquela revolução estavam totalmente errados, porque a emancipação sexual aumentou a rivalidade entre os homens e entre as mulheres, foi criado um clima de competição, atiçou tudo que tinha de ruim no ser humano. Foi um agravador terrível do consumismo. Em países de Terceiro Mundo – e, intelectualmente, aqui é quase Quarto Mundo –, a elite só piorou nesse tempo. É uma elite medíocre, ignorante, esnobe. Na Europa e nos EUA, o exibicionismo da riqueza é muito menor. Na Europa, as pessoas consomem qualidade, não quantidade. Elas têm uma bolsa cara, mas não mil bolsas, para fazer disputa. Aqui há um comportamento subdesenvolvido e medíocre. E totalmente competitivo. As festas de casamento e de 15 anos são patéticas. A próxima festa tem de ser maior. Isso é sem fim. É sofrimento, é infelicidade. A quantidade e o volume com que as pessoas correm atrás dessas coisas é desespero.

“O consumismo é muito mais fonte de infelicidade do que de felicidade. O prazer trazido é efêmero, uma bolha de sabão – e em seguida vem outro desejo. Ele gera vaidade, inveja, uma série de emoções que estão longe de qualquer tipo de felicidade. E tudo vira comparação.”

Então o sexo é culpado pelo consumismo?
Desde o início, o erótico está acoplado ao consumismo. Nos anos 20, foi preciso introduzir novos produtos que não tinham a ver com necessidades, como o xampu. A ideia que tiveram foi acoplar um desejo natural a um desejo que se queria criar. Então botavam uma mulher gostosa para vender xampu. O consumismo sempre esteve relacionado ao erótico, não ao romântico. O romântico é o anticonsumismo. As boas relações amorosas levam as pessoas a uma tendência brutal ao menor consumismo. A verdadeira revolução, se vier, vai estar mais ligada ao amor do que ao sexo.

Quais são outras fontes de angústia dessa elite que você atende?
Só para explicar: sempre fui bem [na carreira], faz pelo menos 30 anos que atendo algumas das pessoas mais bem-postas do país. Outro trabalho que sempre fiz foi por meio da mídia, em jornais, revistas e, há seis anos e meio, na CBN. É outra forma de ajudar as pessoas. Então tem dois mundos que eu atendo, o dos ricos e o do povo. E as diferenças são pequenas. São conflitos sentimentais, mais do que sexuais. Problema de família, briga de irmãos. Empresários têm muitos problemas de sucessão. O pai tem dificuldade de soltar a rédea e o filho tem a frustração de estar com 40 anos e não ter assumido os negócios. Outras vezes são problemas de ordem financeira, mesmo. O cara está indo mal, fica angustiado, tem os problemas familiares que derivam disso. Tem as tensões societárias... Empresa é complicado, quando vai bem tem problema, quando vai mal tem problema.

Por que trabalhar, no mundo moderno, é quase sempre tão estressante?
Estresse significa uma reação física para enfrentar situações de ameaça, portanto, quando o ser humano vivia na selva também tinha estresse. O estresse vem da ameaça, então numa empresa em que você é cobrado o tempo todo, vive com medo de ser demitido, você cria um clima muito mais grave de ameaça que o necessário. Estresse é ameaça. Sobrecarga cansa, mas não estressa.

“Aqui há um comportamento subdesenvolvido e medíocre. E totalmente competitivo. As festas de casamento e de 15 anos são patéticas. A próxima festa tem de ser maior. Isso é sem fim. É sofrimento, é infelicidade. A quantidade e o volume com que as pessoas correm atrás dessas coisas é desespero.”


Você às vezes se sente estressado?
Cansado. É diferente. Mas às vezes fico um pouco acelerado no pensamento, o que eu não gosto, porque empobrece a reflexão. Tenho a sensação de que o tempo ficou curto, de estar sempre devendo alguma coisa. Você se sente sempre em falta com um livro que não leu, um filme que não viu. Quando eu era moço, tinha cinco ou seis filmes importantes por ano para ver. Hoje, tem cinco filmes por mês. E bons!

Qual é uma boa válvula de escape desse mundo acelerado?
Um pouco mais de folga de horários, mais tempo para algum tipo de relaxamento. As prescrições passam por exercício físico, ioga e meditação – porque esvaziar a cabeça é certamente um grande redutor de ansiedade. Passam também pelo uso de medicação. Mas tudo isso são atenuadores. Se o trabalho fosse um pouco menos competitivo, seria possível abrir mão desses remédios.

Como um bom líder pode ajudar a reduzir as tensões no trabalho?
O bom líder é respeitado naturalmente, não por meio do medo. As pessoas reconhecem que ele está apto para o cargo e o exerce da forma mais democrática possível. Ou seja, antes de tomar uma decisão, consulta quem trabalha com ele, o que não significa terceirizar a decisão. O voto final é do líder, mas não sem ouvir todo mundo. A governança não pode se dar por atos irracionais, pelo humor do patrão. Deve se dar por normas que todo mundo conhece. Uma das maiores causas de estresse é ter um patrão cujo humor vai influir na forma como ele gere a empresa. Por isso a governança corporativa é importante, porque é um conjunto de normas que vai valer todo dia.

Você costuma ouvir: “meu chefe não me escuta”?
Todo mundo tem esse defeito [de não escutar]. O pai com o filho, o chefe com o subordinado... No caso do chefe, é mais comum porque chefe acha que sabe mais por definição, o que é uma grande bobagem. Um filósofo disse: humildade é a capacidade de aprender com quem sabe menos do que você. Ouvir alguém de verdade é estar disposto a abrir mão da sua ideia em favor da outra, se a outra for melhor que a sua. Boa ideia não tem dono. Toda boa ideia que eu ouço vira minha – e eu jogo fora minha velha ideia.

Que mudanças devemos ver daqui para a frente, em termos de comportamento?
As grandes transformações estão ligadas à mudança no papel da mulher. Na minha turma de faculdade, havia 78 homens e duas mulheres. Hoje, as faculdades têm em média 60% de mulheres. É porque os homens estão mais folgados e as mulheres, mais guerreiras. Mas isso vai dar numa série de desequilíbrios. Não sei se as mulheres vão gostar de sustentar os homens, nem se os homens vão gostar de ser sustentados. No ambiente de trabalho não tem problema nenhum, ao contrário, muitos empresários acham que as mulheres trabalham melhor. Mas em casa vai dar problema. Como faz para ter filho? Quem vai cuidar? Como vai terminar isso, ninguém sabe. A verificar. Mas não pense que é uma variável desprezível. A independência econômica da mulher desequilibra pra caramba o mundo.

Além do consultório, o senhor também foi bem-sucedido para vender livros?
Não tenho do que reclamar. Desde 1975, publiquei 32 livros e vendi mais de 1 milhão de cópias.

Qual o melhor?
Não sei. Minha mulher diz que é O Mal, o Bem e mais Além. É difícil falar. Gosto sempre dos mais recentes, mas no fundo são a reescritura daquilo que fiz nos anos 70 e 80.

E quando as pessoas muito ricas são felizes, o que costuma levar a isso? 
Os executivos que se sentem realizados são aqueles que gostam do que fazem. Às vezes, ficam até viciados. Mas a maior felicidade das pessoas ainda é quando conseguem estabelecer vínculos amorosos de qualidade. Tanto faz ser executivo ou não. É o que tem de mais importante. Gostar do que se faz e ter uma boa parceria sentimental talvez sejam as duas principais fontes de felicidade nesse nosso mundo.



CLÓVIS CAMPÊLO

O RECIFE COMO ELE SEMPRE FOI

Clóvis Campêlo

Nasci em plena Avenida Conde da Boa Vista, no centro do Recife, em um casarão que pertenceu a várias famílias tradicionais da cidade. Nele, posteriormente, por vários anos, funcionou uma clínica psiquiátrica suspeitíssima por manter em suas dependências como doentes mentais moradores de rua, para lá levados em um convênio macabro mantido durante décadas com a polícia estadual.

Sobre o casarão, aliás, consta também que, em uma reforma feita nos anos 50 do século passado, foi encontrado em suas paredes um esqueleto feminino. O acontecimento, lido por mim nos jornais da época, no Arquivo Público Jordão Emerenciano, suscitou-me a lembrança do romance “A Emparedada da Rua Nova”, do escritor pernambucano Carneiro Vilela. Talvez fosse um hábito social, nos séculos anteriores, sepultar em casa os restos mortais dos entes queridos.

Hoje, o imóvel é tombado e continua de pé, mesmo com a construção de dois espigões residenciais em seu terreno para abrigar os recifenses trazidos pela modernidade. Enfim, a cidade cresceu e evoluiu.

Talvez por isso, também, mantenho até hoje um carinho especial pelo bairro da Boa Vista. Lá, durante muitos anos, os meus ancestrais maternos fizeram morada. Por lá ainda vive uma tia minha octogenária, a última das moicanas a resistir à vida e ao tempo.

Nos anos 60, a minha avó materna foi morar na Ilha do Leite, que em nada se comparava ao que é hoje. Saía com meus primos a passear de bicicleta pelos sítios ainda existentes, repletos de árvores frutíferas e de alguns currais com vacas leiteiras. Fica difícil de imaginar isso por ali hoje em dia.



Mas para o menino que fui, interessava mesmo era o coração nervoso da cidade, na época, constituído pelas avenidas Guararapes e Conde da Boa Vista. Fico impressionado como essa parte da cidade estagnou do ponto de vista da construção de novos prédios e como decaiu do ponto de vista do interesse das administrações públicas e da iniciativa privada. Literalmente, essa parte da cidade foi abandonada e entregue à própria sorte. Numa evolução cruel e inexplicável, a cidade expandiu-se para outros lados, acabando com o glamour e o charme ali existentes.

Os que, como eu, já superaram a barreira da idade da razão, com certeza, lembram-se dos passeios nas calçadas à margem do rio Capibaribe, à noite, chamados romanticamente de “quem me quer”. Ou das vitrines fartamente iluminadas das ruas Nova e Imperatriz, hoje ocupadas por desocupados, moradores de rua, sem tetos e fumadores de craque. Tornaram-se ruas assustadoras e temerosas.

Mesmo sem a pretensão de alimentar saudosismos inúteis ou de querer negar a inevitabilidade do futuro, lembro com saudade daqueles tempos onde a cidade ainda nos parecia pequena e decente.


Recife, 2014


http://geleiageneral.blogspot.com.br/