terça-feira, 26 de agosto de 2014

CLÓVIS CAMPÊLO

INSÔNIA



A primeira lembrança que esse título me traz à mente é o livro homônimo de Graciliano Ramos lançado em 1947 pela Editora José Olympio. Seu Clóvis, meu genitor, tinha na estante de casa toda a coleção do escritor alagoano, que tive a sorte de ler ainda na adolescência.

Meu pai não era um intelectual no sentido estrito do termo, mas tinha uma pequena e eclética biblioteca caseira onde desfilavam alguns grandes autores: Graciliano Ramos, Albert Camus, Vladimir Nabokov, entre outros. Mas tinha também na estante autores populares, como Marcial Lafuente Estefanía, um espanhol que gostava de escrever sobre o velho oeste, e heróis da literatura de massa americana, como Irving Le Roy, detetive de cabelos prateados, e Shell Scott, um ex-fuzileiro naval americano que lutou na Guerra do Pacífico e que criava peixinhos dourados no seu escritório. Diante deles, costumava decifrar as mais incríveis incógnitas policialescas.

Entre as heroínas, lembro-me de Giselle, a espiã nua que abalou Paris. Integrante da Resistência Francesa na II Guerra Mundial, usava a sua beleza e formosura para arrancar informações dos oficiais nazistas. Descoberta e fuzilada pelos alemães, Giselle deixaria uma filha, Brigitte Montfort, que transformada em agente super espiã da CIA, ajudaria Tio Sam na Guerra Fria contra a expansão ideológica da então União Soviética. Cercados por tantos e fabulosos heróis, estávamos à salvo do perigo vermelho no Pina dos anos 60.

Contudo, amigos, não era minha intenção ir tão longe nessa abordagem memorialista da pequena biblioteca do meu pai. Queria apenas fazer referência ao livro de Graciliano Ramos, tomando-o como leitmotiv para falar da insônia que hoje de vez em quando me atormenta.

CLÓVIS CAMPÊLO

De início, também lembrei-me da falta de sono que atormentava Michael Jackson e que terminou por fugir do seu controle e levá-lo à morte. O astro pop ficava várias noites sem dormir e tentava explicar isso como resultante da adrenalina que lhe deixava excitado após cada show. Afirmava que perdia, em média, quatro quilos por apresentação e de madrugada, na solidão dos quartos de hotel, não conseguia conciliar o sono. Diariamente, necessitava de um coquetel de sedativos e soníferos para desfrutar de algumas horas de descanso. Embora não nutrisse por ele grandes admirações, não deixei de me comover com o seu drama pessoal.

De Graciliano Ramos a Michael Jackson, muita águas rolaram na minha vida e no mundo. Hoje, ambos estão mortos, muito embora ainda sejam respeitados e admirados nas suas respectivas áreas.

Quanto a mim, utilizo a minha insônia como motivo para mais uma crônica. Nas madrugadas barulhentas do bairro da Madalena, onde hoje moro, faço da varanda do meu apartamento um mirante privilegiado onde procuro observar a lua e as estrelas no céu, à noite, e o movimento incensante dos automóveis pela madrugada.

Tudo ao som de Moonlight Serenade, de Glenn Miller.

Recife, julho 2014


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