domingo, 13 de agosto de 2017

NAQUELA MESA. ESSA É PARA VOCÊ, PAI


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IMAGEM: DEPOSITPHOTOS


NAQUELA MESA

De Sérgio Bittencourt (*)
Com NELSON GONÇALVES E RAPHAEL RABELLO


Naquela mesa ele sentava sempre
E me dizia sempre, o que é viver melhor.
Naquela mesa ele contava histórias,
Que hoje na memória eu guardo e sei de cor.

Naquela mesa ele juntava gente
E contava contente o que fez de manhã.
E nos seus olhos era tanto brilho,
Que mais que seu filho, eu fiquei seu fã.

Eu não sabia que doía tanto
Uma mesa no canto, uma casa e um jardim.
Se eu soubesse o quanto doi a vida,
Essa dor tão doída não doía assim.

Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguem mais fala no seu bandolim.
Naquela mesa tá faltando ele

E a saudade dele tá doendo em mim.



(*) Sérgio Bittencourt (1941/1979) foi jornalista e compositor, filho de Jacob do Bandolim - o  maior bandolinista brasileiro.

PAI. O CARA

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IMAGEM: ARQUIVO GOOGLE

Homem incapaz de degenerar, o pai. Gostava de de ditar uma regra ou outra, mas sempre em busca da alegria alheia. O pai foi exuberante na simplicidade. Santo, segundo minha avó, mãe dele. Nada disso, segundo o próprio. Grande sujeito, o pai. Queria comprar livros. E mais livros. Para ler, distribuir, orientar. Mãe contrariada, claro. Embirrações. Salário pequeno, gastança besta. O pai os comprou – os livros –, os recomendou e os emprestou a quem lhe parecia necessitado. Poucos – quase ninguém – lhe devolveram os livros. Quem toma livro alheio se mete à besta e não devolve o que não lhe pertence. Nem lê o adjutório. O pai sabia disso. O pai dava de ombros, o pai não ligava, o pai dizia não assim, quase assim: “Se leu o título ao menos, valeu: está menos besta”. Não sei se o pai salvou alma, mas tentou bom bocado. (OS – março 2017)

***

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Está esperando o que, cidadão? Tire a bunda da cadeira, vá beijar o velho. (OS)
https://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/2017/08/santa-chatice-ou-so-os-defuntos-sao.html#comment-form



sábado, 12 de agosto de 2017

FOTOGRAFIAS: MARC RIBOUD




Hollande, 1994. Etranges réflexions au bord d'un canal.
HOLANDA - 1994


Afghanistan, 1956. Quand je suis passé par Khyber Pass j'ai hésité. Comme je voyage lentement, je crois avoir suivi la flèche de droite.
AFEGANISTÃO - 1956


Afrique du Sud, 1998. Nous ne sommes pas sur la Lune, mais entre Johannesburg et Le Cap, dans un désert rocheux.
ÁFRICA DO SUL - 1998


Kenya, 1961.
QUÊNIA - 1961


Moscou, 1960. Dans le parc Gorki, le froid de l'hiver russe n'empêche ni le jeu d'échecs ni la lecture en plein air.
MOSCOU - 1960


Chine, 2002. Dans le quartier de Pudong à Shanghai, une vraie mouette vient voler devant une salle de spectacle en forme de mouette géante.
CHINA - 2002


Turquie, 1955. Chantier de construction de la centrale hydroélectrique du barrage de Seyhan.
TURQUIA - 1955




O fotógrafo francês Marc Riboud, conhecido por imagens como a da jovem com uma flor diante de fuzis em Washington, ou a do pintor da Torre Eiffel, morreu em agosto de 2016, aos 93 anos de idade. A morte foi anunciada no site oficial de Riboud, com uma imagem do fotógrafo com uma câmera fotográfica na mão e a frase de um papa da Idade Média: “Ver é o paraíso da alma”.

Alain Genestar, diretor da revista Polka Magazine, o qualificou de “fotógrafo transeunte”. Em entrevista, Genestar explicou que a fotografia do pintor da Torre Eiffel, de 1953, que tornou Riboud internacionalmente conhecido, foi feita em um dia em que ele havia levado consigo apenas um carretel de uma dúzia de fotos. O outro ícone de sua obra, a foto da garota com uma flor diante de baionetas, foi clicada em 1967, em Washington (EUA), durante uma manifestação contra a Guerra do Vietnã.

Riboud nasceu em Lyon, em 1923, e tirou suas primeiras fotografias na Exposição Universal de Paris de 1937 com uma câmera Vest-Pocket, presente do seu pai quando completou 14 anos.

Em 1944, ele participou das lutas da resistência francesa contra a ocupação do país pela Alemanha nazista e no ano seguinte começou a estudar engenharia, carreira que abandonou no início dos anos 1950 para se dedicar à fotografia. Foi quando entrou na agência Magnum — da qual chegou a ser presidente — pelas mãos de Henri Cartier-Bresson e de Robert Capa, que em sua primeira missão o enviou para Londres.

Nos anos seguintes, passou longos períodos na Ásia: foi de carro para a Índia em 1955, passando pelo Oriente Médio e pelo Afeganistão, e chegando na China dois anos depois. Após uma estadia de três meses na União Soviética, em 1960, cobriu as independências da Argélia e de muitos países do África negra, e no final desse ano foi um dos poucos fotógrafos ocidentais que conseguiram entrar no norte do Vietnã em pleno conflito.

Desde os anos 1980, são organizadas exposições de sua obra em cidades como Paris, Londres, Nova York, Pequim, Hong Kong, entre outras.

Fonte: Veja.com e agência EFE

SANTA CHATICE. OU: SÓ OS DEFUNTOS SÃO SÁBIOS


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ILUSTRAÇÃO: RENATO STEGUN

Todo pai é chato. Se não for chato, não é pai.

Pai é aquela água. Quer que os filhos estudem, sejam respeitadores... 

Sou do tempo em que a gente beijava a mão de tios, tias e de todo mundo com alguma idade. Devo ter beijado a mão de quem não precisava beijar. Coisa de pai, coisa de mãe. Nem o lampião de gás (que não conheci) me traz tanta saudade como a que sinto deles: de minha mãe, de meu pai.

Todo pai é chato. Se não for chato, não é pai.

Meu pai não fugiu à regra: foi chato, muito chato, sonhou demais para minha irmã e eu, demos o que deu para ser. Mas dele sinto, todas as horas, todos os dias, falta danada.  

E você aí, basbaque, está esperando o quê? Teu velho morrer, para lhe dizer “eu te amo”, “obrigado”, “você é o cara”?

Defuntos, por defuntos, dispensam arrependimentos, choros, velas e flores.

Defuntos são sábios.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

CRÔNICA: CARLOS HEITOR CONY

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ILUSTRAÇÃO: ISTOCK

A BANALIZAÇÃO DO ERRO

Por Carlos Heitor Cony
Pensata – UOL
24/01/2006

Não estou por dentro do assunto, mas leio nos jornais que há algum embaraço entre autoridades norte-americanas e o Google, questões não sei se técnicas, legais ou morais, mas há algum desconforto entre o quebra-galho eletrônico mais utilizado pelos internautas e os responsáveis pelo setor nos Estados Unidos.

Não tenho elementos --nem me interessa tê-los-- para dar opinião a respeito. Como qualquer usuário, recorro ao Google em determinados casos, mas confesso que com receio, mais do que receio, com remorso. Sei como é falho em suas informações, misturando nomes, datas, situações, fatos. Outro dia fiz uma consulta sobre mim mesmo, digitei meu nome por completo e recebi, entre várias informações corretas, uma centena de Carlos Heitor que nada tinham a ver comigo, inclusive um pai-de-santo no Maranhão e um dono de laboratrório acho que aqui mesmo no Rio.

Se me atrevo a dar uma opinião sobre o Google, diria que, tal como nas boas enciclopédias, cada texto (ou verbete) deveria trazer o nome do autor que o escreveu, abonadas com a citação das fontes. Do jeito que está, simplesmente veiculado por uma sigla (Google), deixa de ser confiável. Torna-se até leviano.

Um colégio aqui do Rio fez uma espécie de concurso sobre os escritores cariocas e meu nome apareceu em diversos deles. Noventa e oito por cento dos alunos consultaram o Google e sem darem crédito à fonte, repetiram o mesmo erro que consta de uma de suas as páginas: atribuíram-me um livro de estréia que nunca publiquei nem escrevi.

A massificação das informações facilita este tipo de trabalho escolar, mas os erros são tantos e tamanhos que prejudica o aluno e a verdade.

AS CHARGES DO DIA


Charge do dia 11/08/2017
THIAGO - JORNAL DO COMMERCIO (PE)


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SPONHOLZ


Charge (Foto: Amarildo)
AMARILDO - A GAZETA (ES)


LUSCAR - A CHARGE ON-LINE




Charge (Foto: Chico Caruso)
CHICO CARUSO - O GLOBO



Charge (Foto: Antonio Lucena)
ANTÔNIO LUCENA - BLOG DO NOBLAT


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SPONHOLZ


NINGUÉM MERECE...

... NEM A "DÓCIL" E TOLA
 GENTE BRASILEIRA


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JOSÉ SARNEY


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FERNANDO COLLOR DE MELLO


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LULA


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DILMA

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TEMER

QUEM SERÁ A PRÓXIMA REENCARNAÇÃO DA TRAGÉDIA? (os)

POLÍTICA/OPINIÃO: RICARDO NOBLAT

Temer, pato manco (Foto: Arte: Antonio Lucena)
POR ANTÔNIO LUCENA

TEMER,

SEM VOTOS PARA GOVERNAR

o governo Temer parece condenado a só cumprir tabela. O que precisar
de larga maioria de votos no Congresso acabará ficando
para o próximo governo. Subirá o preço do ralo apoio oferecido

Por Ricardo Noblat
noblat.oglobo.globo.com
11/08/2017 - 04h32

Ao negar licença para que o presidente da República pudesse ou não ser julgado pelo Supremo Tribunal Federal por crime de corrupção passiva, a Câmara dos Deputados garantiu a Michel Temer o direito de cumprir seu mandato até o fim. Mas foi só. Não lhe garantiu os votos necessários para que governe ativamente.

A joia da coroa da curta e tumultuada Era Temer, a reforma da Previdência, por exemplo, não passará pelo Congresso por falta de votos na Câmara e no Senado. Foi o que mostrou ao presidente e aos seus acólitos o mais recente levantamento feito por líderes dos partidos que dizem apoiá-lo.

Cristalizou-se cá fora a percepção de que a reforma prejudicará a maioria dos brasileiros, principalmente os de baixa renda. E dentro do Congresso, a certeza de que o voto a favor da reforma custará muitos votos nas eleições do próximo ano. O governo não soube vender a reforma ao distinto público. Agora é tarde.

Caso sobreviva às novas denúncias que estão por vir, seja por meio da Procuradoria Geral da República ou de delações à Lava Jato, o governo Temer parece condenado a só cumprir tabela. O que precisar de larga maioria de votos no Congresso acabará ficando para o próximo governo. Subirá o preço do ralo apoio oferecido.

Caberá a Temer cumprir o rito de transferência do poder ao seu sucessor. O que está longe de significar que ele terá se tornado um presidente decorativo. A caneta que detém ainda está carregada de tinta. Mesmo que fraco, um presidente ainda pode muito, mais ainda a 15 meses de eleições.

Temer cobrará alto pela adesão do PMDB a candidatos à sua vaga. E é por isso que o PSDB finge descolar-se do governo para acabar permanecendo nele. A digital do governador Geraldo Alckmin foi identificada nos votos do seu partido favoráveis na Câmara ao pedido de licença para processar Temer.

Bastou que Temer declarasse abertas as portas do PMDB à candidatura do prefeito João Dória a presidente da República para que Alckmin voasse à Brasília à cata de melhores informações. E lá, depois de visitar o senador Aécio Neves (MG), aliado de Temer, se convertesse à ideia de que o PSDB não precisa deixar o governo.

Em 1989, o então presidente José Sarney pouco pode influir no destino de sua sucessão. Temer não quer ser um novo Sarney.

POLÍTICA/OPINIÃO: JOSIAS DE SOUZA

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CADÊ TEMER, O MAQUINISTA?
(YOUTUBE)

GESTÃO TEMER OPERA
EM RITMO DE TREM FANTASMA

Por Josias de Souza
UOL – 11/08/2017 | 04:29

''A mensagem importante é que essa recessão já terminou'', alardeou o ministro Henrique Meirelles em fevereiro. Michel Temer repete desde então, com a regularidade de um mantra, que seu governo “colocou o país nos trilhos”. Muitos brasileiros, ao ouvir o presidente falando, acalentam o sonho de viver no Brasil que Sua Excelência descreve, seja ele onde for. Entretanto, o que se vê sobre os trilhos é um governo com aparência de trem fantasma.

Ao assumir, Temer prometeu pacificar o país e tirar as contas do vermelho. Hoje, com 5% de aprovação, arrisca-se a tomar vaia sempre que leva os sapatos para fora dos palácios brasilienses. E anuncia para a próxima semana a reaparição de uma velha alma penada sobre os trilhos: o descumprimento de uma meta fiscal. O rombo de R$ 139 bilhões que Meirelles dizia ser ''exequível'' para 2017 vai virar uma cratera de R$ 159 bilhões, que se repetirá em 2018.

Caótico e com os cofres no osso, o governo planeja enviar ao freezer os reajustes salariais que concedeu aos servidores públicos no ano passado. Dizia-se na época que os aumentos — coisa de R$ 58 bilhões até 2019 — já estavam computados na meta de déficit. A farra foi aprovada na Câmara numa madrugada de junho de 2016, sob aplausos de Temer. De uma tacada, passaram 14 projetos de lei. Continham bondades destinadas a 38 carreiras do Estado.

O então deputado Nelson Marchezan Júnior (PSDB-RS), hoje prefeito de Porto Alegre, subiu à tribuna para pronunciar um discurso premonitório. Foi registrado aqui. Vale a pena recordar:

“Estamos estendendo gratificações de desempenho para servidores inativos”, disse Marchezan naquela madrugada. “Incorporamos aos quadros da Defensoria Pública servidores cedidos que vão entrar numa nova carreira, sem concurso, ganhando até 400% a mais. Isso é inconstitucional. Criamos mais de 11,5 mil empregos. E o presidente Michel Temer havia prometido fechar 4 mil cargos comissionados.”

O deputado acrescentou: “Dizem aqui que não posso ser mais realista que o rei. Se o governo encaminha tudo isso, devemos votar a favor. Quero lembrar que acabamos de depor uma rainha porque ela administrou as contas públicas contrariamente ao interesse popular. Tiramos na expectativa de que o novo governo administraria para o interesse popular. Espero que esse novo rei mude sua forma de reinar, para que ele não siga no mesmo caminho da rainha deposta. Espero também que as operações da Lava Jato anunciadas para os próximos dias não tenham nenhuma relação com esse açodamento de votar esse rombo de algumas centenas de bilhões de reais.”

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QUE ÁGUA ESSE SENHOR BEBE?

Temer costuma dizer que se dará por satisfeito se chegar ao final do seu mandato como um presidente reformista. Não deseja senão entregar ao sucessor “um país nos trilhos”. Mas o autogrampo do delator Joesley Batista tornou impossível o que era difícil. Para salvar o mandato, Temer ampliou o balcão e entregou cargos, cofres e a alma ao centrão. Recolocou nos trilhos o grupo fantasmagórico idealizado pelo presidiário Eduardo Cunha.

Junto com a denúncia que o acusa de corrupção, Temer enterrou no plenário da Câmara o futuro do resto do seu governo, que será ruim enquanto dure. Tratada como a mãe de todas as reformas, a mexida na Previdência, tal qual o governo a concebera, foi para o beleléu. Médico e líder do PSD, o deputado Marcos Montes (MG), proferiu o diagnóstico:  ''O governo saiu da UTI. Está no quarto. A data da votação [da emenda constitucional da Previdência] vai depender da recuperação do paciente. Pode ser no final do ano, pode ser em 2019'', no próximo governo.

Sem o ajuste na Previdência, Temer sucederá Dilma também no posto de presidente do rombo insanável. A hipótese de o governo entregar o que prometeu é nula. Acenara-se com um crescimento econômico de até 2% neste ano. Se chegar a 0,2% será um milagre.

O brasileiro percorre o trajeto do trem fantasma rezando para não dar de cara com um aumento de impostos. Nessa matéria, o governo desmente à noite o que admitira pela manhã. E a plateia não acredita nele durante todas as horas do dia.

Nesta quinta-feira, após discutir com ministros e congressistas a revisão para o alto da meta de rombo fiscal, a ser anunciada na semana que vem, Temer deixou no ar a hipótese de adotar “medidas rigorosas”. Emendou: ''[…] O governo não mente para o povo brasileiro. Muitas vezes toma medidas rigorosas, mas indispensáveis para a higidez das finanças públicas do nosso país.”

Que língua extraordinária é o português! Higidez virou um outro vocábulo para esculhambação. Há no percurso do trem fantasma 14 milhões de desempregados. A saúde pública continua sendo uma calamidade. O ensino público, um acinte. O fisiologismo ri da Lava Jato. Mas o Brasil da fábula de Temer está “nos trilhos”.

Todo brasileiro tem o direito de reivindicar um gole do que Michel Temer anda bebendo.


quinta-feira, 10 de agosto de 2017

CRÔNICA: WALCYR CARRASCO

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EREMILDO, O IDIOTA, FEZ ESCOLA

OS TIPOS DO INSTAGRAM

Tenho simpatia especial pelos escritores da internet.
Toda noite, escrevo um microconto

Por Walcyr Carrasco
Época Digital
08/08/2017 - 08h00

Há um vasto painel de tipos humanos espalhado pelo Instagram. Amores, emoções íntimas, viagens, tudo isso é exposto na internet. Ter um número elevado de seguidores ou de likes é uma vitória. Não sei exatamente de que tipo, mas é assim que as pessoas se sentem: vitoriosas. Ao contrário do que todos pensam, o Instagram não revela a vida como ela é. Como diria @paulocoelho, cada um trata de exacerbar o que seria sua lenda pessoal. Melhor dizendo: a ficção que construiu sobre a própria vida. Atores e atrizes, por exemplo, colocam fotos glamourosas, com fundos lindíssimos. Ninguém bota foto espirrando, com cara de gripe. Mas famoso não espirra?

Boa parte são fotos patrocinadas. Sutilmente, mostra-se algum produto. É um post pago. Trabalho. Manter um número crescente de fãs significa aumentar o saldo bancário. Dá-lhe glamour!

Numa categoria imediatamente abaixo estão os musculosos. Famosos somente no Instagram. Postam fotos na academia, fazendo musculação. Tirando a camiseta na praia. Imagens de sucesso, embora boa parte esteja matando cachorro a grito. Usam os posts para conseguir academia e suplementos gratuitos. Muitos, no Rio de Janeiro e em cidades praianas, vêm da periferia, de ônibus. Basta uma sunga para abrirem a cauda de pavão. E têm seguidores, alguns na casa do milhão! Opa! Mulheres também, mas são mais ousadas. Embora o Instagram não permita, muitas conseguem exercer a mais antiga profissão do mundo. E têm ajuda tecnológica: recentemente, o perfil do meu sobrinho de 18 anos foi invadido por hackers. Uma multidão de prostitutas russas, falando em russo, começou a se oferecer por ali. Pode!? Recuperar o domínio foi difícil...

Alguns perfis demonstram uma vocação incrível para guias turísticos. Bastou fazer a mala, antes de viajar, já publicam foto. Um está no Central Park em Nova York e precisa anunciar isso para a humanidade. No Google há fotos muito melhores do Central Park, claro. Ou do David de Michelangelo. Qual compulsão leva alguém a fotografar o David sem nem posar na frente? Ou um pedaço de torta que comeu na França? Ou se mostrar numa lancha? O mais divertido é que os viajantes voltam a sua cidade, mas continuam postando os cliques da viagem o resto do ano, como se ainda estivessem em algum outro lugar do mundo.

Qual é o mistério de @selenafox? É uma celebridade do mundo alternativo. Pratica a wicca, que procura reviver com louvor o mundo da magia celta. São fotos com a natureza, rituais. Muitos likes. Como ela, outros mostram suas crenças. Ou arte. Há muitos que mostram desenhos apocalípticos, de que gosto muito. Mais radicais, outros exibem tatuagens, as mais inventivas, e provavelmente dolorosas – mas esse grupo não está de certa forma associado aos que exibem a musculatura? Tudo é exibição, afinal. Ou as patricinhas que se clicam com as roupas da moda. As mais sofisticadas. Ganham um dinheirão postando bolsas, sapatos. Nas últimas semanas de moda tiveram tratamento de primeiras-damas fashion. Outros, como @gabrielapugliesi e @erasmomtb, provam que a vida é um deleite. Muitos hotéis paradisíacos. Uma dieta para manter seus belos corpos. São ícones dos que se dedicam a estilo de vida. Não necessariamente o que podem ter, mas aquele que desejam.

Tenho simpatia especial pelos escritores da internet como @neologismos, @zackmagiezzi, @homemquesente, @brunorazzec, @quintaldasestrelas. Mas há muitos mais. Postam frases, poesias. Revivem autores como Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu. Publicam seus próprios textos. Uma vitória contra o mundo editorial, que hesita em investir nos novos autores. No meio deles há os que adoram uma autoajuda, como @osegredooficial.

Ninguém vence a compulsão por postar selfies. Não entendo. Por que querem mostrar que estiveram ao lado de uma pessoa famosa? Ou que têm mãe, exibindo a pobre velha com uma faca na mão quando corta cebola? Ou desconhecidos numa festinha de aniversário?

Eu me apaixonei pelo Instagram. Inevitável que poste muito sobre novelas. Todas as noites, escrevo um microconto. Adoro. São contos mínimos, com palavras milimetradas. Garanto, aprendi a centrar a ação em poucas frases, contando uma história inteira.

Não me engano. O Instagram é um bom local para expressar pensamentos, fazer amigos. Mas não é minha vida.

E me assusto. Há quem seja capaz de postar foto quase sem roupa. Quando vem uma reação, diz que era sua vida privada. Instagram é público. Muita gente pensa que não.

***

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PERDOAR? PERDOEI 
Mas não me peça para ser hipócrita. 
Toda vez que relembro (ainda que não queira) 
dói uma enormidade.