quinta-feira, 23 de outubro de 2014

A QUEM INTERESSAR POSSA

Diário de Pernambuco

Sei que muitos me tomam por alienado. Danem-se. Já gostei muito de política. Hoje, não. Tenho motivos. Todo mundo os têm. Nunca deixei de votar. Nem deixarei. Ainda que eu seja radicalmente contra a legislação escrota, feita e mantida pelos escrotos de sempre, que me obrigam a votar. Os canalhas transformaram um direito de todos, mais que legítimo, em obrigação.

Tenho lado. Voto 45 para presidente, sem entusiasmo. Mas não me convidem para assinar manifestos, engrossar passeatas, cair no conto do vigário que só os outros são bandidos e incompetentes. A merda é geral, ainda que uns cheirem mais que outros. Que lástima!  

Prefiro cuidar de conversas de bar, bate-papo de ônibus, do cachorro que perdi, das contas a pagar, do pai doente, das coisas miúdas – das quais a vida é feita. A vida vale mais que uma opinião, um interesse partidário/pecuniário travestido de falsa paixão.


Abraço a todos. 

ATÉ SEMPRE, GUGA

ÉRAMOS SEIS...

Foto: BOA NOITE, GUGA.
BOA NOITE, JOHN BOY...  

Ontem à noite, olhei meu velho GUGA, futuro presidente emérito da República Canina do Brasil. Estava agasalhado, com duas roupinhas, mais cobertor, coberto do beijo dos filhos, na sua cama, à espera de guloseima. Um BIS, quem sabe? O frio estava bravo demais. Aos quinze anos, não vamos privar o cachorro de nada, certo? Muito menos do carinho recíproco. Que não se encerra.

Éramos seis: Sabiá, João Gabriel, André, Maria Luíza, Guga e eu.
Hoje, somos cinco, infelizmente.
Dói demais ser cinco.
Guga se foi.
Até sempre, compadre.
Obrigado pela alegria que você nos deu. 
Durante (quase) quinze anos.

(Texto publicado em 24/01/2014)


CLÓVIS CAMPÊLO

AS MÃOS DE LÁ E AS MÃOS DE CÁ


(POR CLÓVIS CAMPÊLO) Enquanto no Brasil Anísio Silva cantava “Quero beijar-te as mãos”, em Londres, no dia 17 de outubro de 1963, nos estúdios Abbey Road, os Beatles gravavam “I want to hold your hand”. Entre o bolero e o rock, muito mais do que o Oceano Atlântico.

Anísio Silva nasceu em Calculé, no interior da Bahia, em 1920. Iniciou a sua carreira tardiamente, no Rio de Janeiro, aos 32 anos de idade. Gravou o seu primeiro disco, “Sonhando contigo”, pelo selo Odeon, em 1957. Dois anos depois lançou o segundo LP, “Anísio Silva Canta Para Você”, onde se destacou a música “Quero beijar-te as mãos”, de Arsênio de Carvalho e Lourival Faissal. Segundo os estudiosos da MPB, ao longo da sua carreira vendeu mais de dez milhões de discos. Amigo do presidente Juscelino Kubitschek, Anísio Silva cantou na inauguração de Brasília, em 1960. Morreu no Rio de Janeiro, aos 68 anos, em 1989.

The Beatles, talvez ainda hoje o maior nome da indústria fonográfica e do show bussiness mundial, vendeu muito mais do que isso. Primeiro sucesso dos Beatles nos Estados Unidos, a música “I Want to Hold Your Hand”, foi por eles tocada no programa Ed Sullivan Show, em 1964, quando da primeira visita do quarteto ao país de Tio Sam. Com uma harmonia simples, a música fala sobre uma declaração de amor. Do mesmo modo que “Quero beijar-te as mãos”.

No entanto, diferenciam-se pela atitude do galanteador diante do objeto desejado. Enquanto Silva, fala de “um divinal querer”, “mundo de esplendor” e “maior enlevo”, os caipiras de Liverpool eram muito mais diretos e incisivos: “diga-me que você me deixará ser o seu homem”.



Enquanto a música de Carvalho e Faissal transfere para um futuro próximo a concretização do ato (“será um mundo de esplendor o nosso amor”), Lennon e McCartney já expressam no colóquio o sentimento do presente realizado (“E quando eu te toco me sinto feliz por dentro”).

Digamos que o romantismo expresso na música cantada por Anísio Silva, reflete um momento de indefinições na música popular brasileira anterior à Bossa Nova. Não só no que tange à forma (um bolero, ou uma guarânia como querem alguns) quanto ao conteúdo da mensagem: a divinização do amor e da mulher, com a necessidade do homem provar o seu mérito na conquista (“Se tu me quiseres tanto quanto eu que vivo para te adorar).

Os rapazes do pós-calipso vão direto ao assunto: “quando eu te disser aquelas coisas, eu quero segurar a tua mão”. Ou seja, eu te toco e eu te tenho. E as guitarras avisavam: aumenta que isso aí é rock'n'roll!

Mudava o mundo com a guerra fria, a corrida espacial e outros babados mais, e também mudavam as relações humanas, com uma nova visão da questão sexual e do direito às prerrogativas do prazer.

Tudo isso estava implícito nas letras e nas entrelinhas das canções.

Recife, outubro 2014

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

CONVERSA DE ÔNIBUS: UMA HISTÓRIA DE AMOR

ADELOTOP.BLOGSPOT.COM

Impossível não ouvir, que bom ouvir!

Quase duas horas de viagem, eles não paravam de conversar conversa deliciosa, nos bancos de trás. Eles comentavam a paisagem, as notícias do dia, falavam – lúcidos, serenos, apaixonados – sobre tudo. 

Tinham, salvo engano desse contador de boteco, 190 anos de amor.

Melhor tirar os óculos para perto, fechar o livro: hora de aprender.

Lá pelas tantas, ele disse:

-- Acordei duas e meia, pensei em chamar você, resolvi não incomodá-la.

E ela lhe disse, feliz da silva:

-- Bobagem. Você nunca incomoda.


AURELINO E MARILDA



Marilda estava impossível que só. Ela, que nunca bebeu, resolveu, naquela noite, fazer o balanço das horas finais. Aurelino – o cretino, segundo a família e adjacências – foi eleito por ela, Marilda, o Judas da madrugada.

Mas ele lhe deu o troco.

(Bêbados, por tolos, sempre se matam, sem achar os moinhos de vento que os perturbam. Presas fáceis.)

-- Aurelino: você já fez a conta do quanto bebeu nos últimos quinhentos anos? Do quanto fumou nesse meio (?) século que se foi, e eu economizando nas fraldas das crianças? Fosse mais comedido, teríamos um carrinho melhor e uma quitinete na praia.

-- Marilda, se você pintasse menos os cabelos...

-- Vem, não. Sei fazer contas.


-- Falo dos sustos que você me causa sempre que volta da turma que corta e pinta os seus cabelos. Nunca fiz a análise, me viro com a uca. 

RAPIDÍSSIMAS (XXVIII)

ojumentoatômico.com.br


MAKTUB
Tinha tudo para dar errado na vida. E deu.

PÉ QUENTE
Paulinho gabava-se de nunca ter perdido voto. Seus candidatos eram sempre eleitos. Pena que os eleitos se revelavam, quase sempre, o exato oposto dos candidatos.

GRANJEIROS
-- Filho: eu também tentei criar pintos. Fracassei. Você enveredou, anos depois, pelo mesmo caminho. Fracassou também. Agora, seu irmão caçula quer criar uma granja. Diga a ele, sem rodeios: “Pintos não são nossa praia”.

DNA
-- Querido: não se apoquente tanto assim, não se culpe além da conta. Você é o que é: uma lástima. Mas jamais degenerou, saiu aos seus.

DNA (II)
-- Vou ser franco, gosto de você, amo mesmo. Você não tem culpa de ser assim. Você é vítima do cruzamento de um jumento (seu pai) com uma vaca (sua mãe). É por isso que você não puxa carroça nem dá leite. Entendeu?

CRISE DOS 50
-- Jorginho: chega de tolice, você não jogou sua vida fora. Só pode fazer isso quem viveu.


COISAS DA VIDA


“SAPATEIRO, NÃO VÁS ALÉM DE TUAS SANDÁLIAS”




(POR VIOLANTE PIMENTEL) No serviço público, há sempre um ocupante de cargo em comissão, com nível superior, que nunca conseguiu aprovação em concurso público. Esse tipo quer saber mais do que os servidores concursados, e não perde oportunidade de querer interferir no trabalho de todos. Normalmente, é alguém apadrinhado, bajulador, e que está sempre à frente de alguma coordenadoria.

No serviço público estadual de um Estado do Nordeste, havia um servidor comissionado, que nunca fora aprovado no concurso para o cargo de Procurador. Talvez por isso, demonstrasse aversão gratuita aos Procuradores. Sua prepotência fazia com que ele quisesse opinar até em assuntos fora de suas atribuições.

Certa vez, uma Procuradora baixou um processo administrativo em diligência, a ser cumprida numa secretaria estadual. O processo foi parar na coordenadoria, onde esse servidor comissionado era o chefe. Ele, simplesmente, devolveu o processo, com um despacho de sua lavra, onde dizia “entender” ser desnecessária aquela diligência.

Indignada com o inoportuno e incabível despacho, a Procuradora repetiu o pedido de diligência, evocando, ironicamente, uma história que tem atravessado séculos, e que se aplicava ao caso, como uma luva. É uma passagem referente à vida de Apeles, célebre pintor da Grécia antiga (século IV A.C), que se destacava pelo grande senso de humor e presença de espírito. Segundo a História, partiu dele o célebre provérbio: “Sapateiro, não vás além de tuas sandálias!"

E a Procuradora inseriu no seu novo despacho:

“Após terminar a pintura de um belo quadro, Apeles, desejoso de conhecer a opinião do homem da rua sobre a sua obra, procurou um jeito de o expor em praça pública, procurando se ocultar atrás de uma árvore, para ouvir as opiniões.

Um sapateiro, que passava pelo local, fez, em voz alta, uma crítica ao salto da sandália de uma das personagens. Apeles saiu do esconderijo, agradeceu ao sapateiro a crítica que considerou construtiva, e reparou o seu erro, no próprio local onde o quadro estava exposto.

Violante Pimentel
Violante Pimentel é procuradora aposentada
 do Estado do Rio Grande do Norte
No dia seguinte, Apeles repetiu o gesto, expondo novamente o quadro à opinião popular. O mesmo sapateiro do dia anterior, passando novamente pelo local, e lisonjeado pelo sucesso do seu primeiro comentário, fez um segundo comentário, agora sobre a perna da personagem.

Dessa vez, Apeles ficou profundamente irritado, e gritou em alto e bom som:

 “SAPATEIRO, NÃO VÁS ALÉM DE TUAS SANDÁLIAS”!

Com essa narrativa da Procuradora, o servidor comissionado tomou “Semancol” e nunca mais tentou ensinar o “Padre-Nosso ao Vigário”.

O pedido de diligência foi atendido.



terça-feira, 21 de outubro de 2014

APESAR DOS PESARES...

ATÉ QUE HORAS DEVEREM OS CHORAR?
O COMBINADO NÃO É CARO

O mundo melhorou, como não? Minha mulher, por exemplo, me jurou que jamais vai se debruçar sobre meu caixão e uivar, como nos velhos tempos: “Pai, me leva junto com ele!” No começo, me choquei. Não nego. Vaidade é fogo. Mas, pensando bem, é atitude sábia, a dela. Por sincera. Se mais não fosse, carpideiras (jamais morrerão), flores e lenços custam os olhos da cara. Ninguém merece. Muito menos eu, que nada fiz por merecer tamanha burrice e gastança.

sábado, 18 de outubro de 2014

NÚBIA NONATO

OUTUBRO

Núbia Nonato
NÚBIA NONATO


Visito a menina que há em mim,
abro portas, escancaro janelas.
Busco na menina que há em mim
lembranças perdidas, escondidas
em pequenos baús sem lacres.
Procuro na menina que há em mim
aquele sorriso fácil, o olhar inocente
de quem não enxergava no outro
sombras distorcidas de uma alma
que já não sabia perdoar.
Corro para os braços da menina que
há em mim e espanto-lhe o banzo.
Brinco com seus cabelos cacheados
me perdendo em seu jeito moreno.
Suspiro comprido derramando
no tempo saudades de mim...



IMAGENS: CLÓVIS CAMPÊLO

ANTES DO VERÃO
Fotografia de Clóvis Campêlo
Recife, agosto 2013





 O URSO DE BEZERROS
Bezerros/PE, carnaval de 2009
Fotografia de Clóvis Campêlo