terça-feira, 12 de setembro de 2017

CULTURA/OPINIÃO: NELSON MOTTA

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 TECNOLOGIA DO DESAPEGO

Passo adiante os livros que leio e gosto para quem gosto
e que goste de ler: a acumulação virou circulação

Por Nelson Motta
O GLOBO
08/09/2017 0:00

Dei todos os meus livros. Ou quase. De uns quatro mil, fiquei com uns 200, muitos com dedicatórias preciosas, alguns que ainda pretendo ler ou reler, mas o resto foi entregue a um livreiro alternativo, que os distribui em presídios, escolas e comunidades carentes, em sebos onde são vendidos a R$ 1, onde podem ser muito mais úteis do que enchendo minha estante. Sim, uma estante cheia, como as várias que eu tinha, é bonito, aconchegante, uma bela decoração, símbolo de status cultural, mostra a sua história através do que você leu — e do que não leu. Mas muita gente ainda pode lê-los e se divertir, se emocionar e aprender com eles, como eu.

Há três anos, com as estantes de dois quartos lotadas, comecei a passar adiante os livros que lia e gostava para quem gosto e que goste de ler, parei a acumulação e comecei a circulação. E fiz o mesmo com os CDs, depois de gravar no meu laptop o que gosto e saber que tudo está disponível no Spotify, no YouTube, no Vimeo...

Depois, doei ao Museu da Imagem e do Som (MIS) uns 700 livros sobre música e cinema brasileiros que vinha acumulando nos últimos 50 anos, quase todos já lidos. Aproveitei e doei todos os meus CDs e LPs de música brasileira, fiquei só com uns poucos autografados ou de valor afetivo. No MIS poderão ser muito mais úteis do que em minha casa. E se precisar de algum livro para um trabalho, peço emprestado ao MIS. Olhando o espaço vazio nas estantes, pensei: e por que não dar todos os outros livros, romances, ensaios, biografias, história, poesia, bons e ruins, que li e que não li, que ganhei, que nunca vou ler?

Pois é, não estão fazendo a menor falta. Pelo contrário, a casa ficou mais leve e espaçosa e fico mais feliz sabendo que eles vão ser lidos e ouvidos por muita gente que não poderia desfrutá-los.

Não se trata de “desprendimento” ou “generosidade”. É apenas um exercício de desapego, em meu próprio benefício, para meu bem-estar. Não perdi nada, ganhei dois quartos em minha casa para melhor uso. Pense nisso, é uma prova de amor pelos livros e discos. E pela tecnologia.

Mas novos livros e CDs não param de chegar.
  

IMAGENS: EDMUND CHARLES TARBELL


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Edmund Charles Tarbell (1862-1938) destacou-se entre
 os pintores impressionistas de Boston (EUA)

FOTOGRAFIAS: DAVID SEYMOUR


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David Seymour (20 de novembro de 1911 – 10 de novembro de 1956), também conhecido pelo pseudônimo de Chim, foi um fotojornalista polonês radicado nos Estados Unidos. Passou a interessar-se pela fotografia quando estudava em Paris. Começou a trabalhar como jornalista free-lancer em 1933. Sua cobertura da Guerra Civil Espanhola, Checoslováquia e outros eventos europeus estabeleceu a sua reputação. Ele ficou particularmente conhecido pelo trato intenso que dava às pessoas retratadas em suas fotos, especialmente às crianças. Em 1947, Chim co-fundou a Agência Magnum de fotografia, juntamente com Robert Capa e Henri Cartier-Bresson, amigos que ele havia conhecido em Paris nos anos 1930. 

AS CHARGES DO DIA



Charge (Foto: Chico Caruso)
CHICO CARUSO - O GLOBO



Charge do dia 12/09/2017
MIGUEL - JORNAL DO COMMERCIO (PE)


Charge (Foto: Arte: Antonio Lucena)
ANTONIO LUCENA (BLOG DO NOBLAT)



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ALPINO - YAHOO NOTÍCIAS



AMARILDO - A GAZETA (ES)


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SPONHOLZ


Charge (Foto: Amarildo)
AMARILDO - A GAZETA (ES)

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SPONHOLZ

POLÍTICA/OPINIÃO: RICARDO NOBLAT

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 ALERTA NO GOVERNO

Quem sabe o que virá está desinformado

Por Ricardo Noblat
noblat.oglobo.globo.com
12/09/2017 – 5h52

O presidente Michel Temer e seus auxiliares fingem estar tranquilos às vésperas da nova flechada a ser disparada contra eles pelo procurador Rodrigo Janot. É tudo que não estão.

A luz amarela acendeu no Palácio do Planalto depois que a Polícia Federal apreendeu R$ 51 milhões em oito malas e seis caixas estocadas em um apartamento de Salvador.

Ganhou mais intensidade com a prisão do dono das malas e das caixas, o ex-ministro Geddel Vieira Lima, agora recolhido a uma cela da Penitenciária da Papuda, em Brasília.

E passou a piscar intermitentemente desde que a Polícia Federal encaminhou ao Supremo Tribunal Federal o relatório do inquérito que investigou o chamado “quadrilhão” do PMDB na Câmara.

O relatório diz que Temer recebeu R$ 31,5 milhões de vantagens por participar da organização criminosa que atuou na Petrobras e na administração federal. E acusa políticos e ministros do governo.

De amarela, a luz se tornará vermelha caso Geddel ceda às pressões da família e de amigos e resolva delatar. No momento, não há sinais de que ele abrirá o bico. Mas por quanto tempo aguentará calado?

A flechada que marcará o fim do mandato de Janot como procurador-geral da República tem tudo para esbarrar no escudo que protege Temer na Câmara dos Deputados.


Mas necessariamente provocará estragos na já combalida imagem pública dele. E afetará a aprovação pelo Congresso de projetos do governo. Quem sabe o que virá está desinformado.

POLÍTICA/OPINIÃO: ZUENIR VENTURA

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"O Grito", de Edvard Munch (Imagem: arquivo Google)

O QUE AINDA CAUSA ESPANTO?

Depoimento de Palocci produziu um estrago definitivo na imagem
que é oferecida aos eleitores,
a de um partido impoluto e um líder incorruptível

Por Zuenir Ventura
O Globo
09/09/2017

Foi uma semana para desafiar quem achava que já vira de tudo, e para confirmar a tese de que no Brasil não houve surrealismo nem realismo fantástico como movimentos literários porque eles existem na vida real.

Apenas alguns exemplos. Teve o inacreditável vídeo dos R$ 51 milhões contados por máquinas como numa cena na Casa da Moeda. O dinheiro continha as impressões digitais de Geddel Vieira, aquele que há dois anos se indignava na televisão: “Chega. Ninguém aguenta mais. Isso já deixou de ser corrupção, é roubo”.

O candidato ao Prêmio Cara de Pau tinha razão. Como classificou um procurador, ele é “um criminoso em série”.

Teve também o áudio em que o indecoroso Joesley, não satisfeito em fazer intrigas e levantar suspeitas, alegando depois, como defesa, ter sido uma “conversa de bêbados” com Ricardo Saud, também delator, assassina a gramática: “nóis só vai entregar o Judiciário e o Executivo”.

A gravação serviu pelo menos para que o procurador-geral decidisse consertar o inexplicável erro que cometeu no acordo que concedeu tantas regalias indevidas, como imunidade penal, aos delatores da J&F.

A revogação dos benefícios seria feita ontem à tarde, junto com um provável pedido de prisão ao ministro Edson Fachin, relator do caso no STF

Em outro capítulo, igualmente inédito, teve o ministro Marco Aurélio Mello, do STF, confessando sua “inimizade capital” pelo colega Gilmar Mendes, que, por sua vez, xingou o procurador-geral de “delinquente” (Mello acrescentou que, se estivessem no século XVIII, os dois partiriam para um duelo de vida ou morte).

Porém, o que mais causou espanto foi o depoimento de Antonio Palocci ao juiz Sergio Moro, em especial o trecho que ele classificou de “pacto de sangue” entre Lula e Emílio Odebrecht, envolvendo um presente pessoal — um sítio (em Atibaia) — palestras a R$ 200 mil, fora impostos, e uma reserva de R$ 300 milhões para atividades políticas nos anos seguintes ao fim do mandato.

Sendo de quem foi, de um ex-homem de confiança dos governos Lula e Dilma, o explosivo depoimento (cuja íntegra não cabe neste espaço) produziu um estrago definitivo na imagem que é oferecida aos eleitores, a de um partido impoluto e um líder incorruptível. Lula se disse decepcionado, e pode-se imaginar o quanto, lembrando o que ele declarou não faz muito tempo: “Palocci é meu amigo, uma das maiores inteligências políticas do país. Ele tá trancafiado e se resolver falar tudo o que sabe pode, sim, prejudicar muita gente. Mas não a mim. Não tenho nenhuma preocupação com delação dele”..

Desta vez não deu para atribuir as denúncias à perseguição política ou à vingança dos “golpistas”. A flecha partiu de dentro, de onde ele menos esperava.



POLÍTICA/OPINIÃO: JOSIAS DE SOUZA

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Ilustração: Paffaro

TEMER ATINGE VÁCUO MORAL
AO DAR O CADE AO PP

Uma delação mal negociada não torna a ferramenta algo maldito. Ao contrário. É preciso punir os delatores de fancaria para preservar um mecanismo que vem se revelando vital no combate à corrupção

Por Josias de Souza
UOL – 12/09/2017


O governo de Michel Temer revela-se intelectualmente lento e moralmente ligeiro. E essas duas velocidades são insultuosas. A lentidão intelectual impede o presidente e seus operadores de notar que há uma fome de limpeza no ar. A ligeireza moral leva-os a governar como crianças que brincam no barro depois do banho. Em sua penúltima temeridade, o Planalto acomodou Alexandre Cordeiro Macedo na poltrona de superintendente-geral do Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o Cade.

Conselheiro do Cade há dois anos, Alexandre traz na testa a marca do Zorro da indicação política. É apadrinhado do Partido Progressista, campeão no ranking de encrencados no petrolão. Conta com o aval do deputado Aguinaldo Ribeiro (PB), um investigado a quem Temer confiou a liderança do governo na Câmara. Dispõe também do apoio de Ciro Nogueira, presidente do PP, outro investigado da Lava Jato que acaba de ser jogado no ventilador da JBS como suposto beneficiário de uma joeslyana de R$ 500 mil.

Alega-se no Planalto e no PP que Alexandre Cordeiro é tecnicamente preparado. Ainda que fosse, o problema é outro. Temer já havia confiado a presidência da Caixa Econômica Federal ao PP. Admita-se que Temer pode conviver com o PP por obrigação protocolar. Qualquer imbecil entenderia isso. Mas ir atrás do PP, cortejar o PP, entregar o Cade ao PP depois de já ter sacrificado a Caixa… Parece demasiado.

Temer ainda não se deu conta. Mas seu governo já tocou o vácuo moral. Nesse estágio, todas as decisões tendem a se converter em matreirice política rasteira, sem qualquer compromisso com o interesse público. A impopularidade do governo é um tributo à sua mediocridade.


JBS VOLTA A SER ALVO DE QUATRO
INVESTIGAÇÕES CRIMINAIS

Joesley, por Mariano Julio

Os delatores da JBS desceram do céu, onde desfrutavam de imunidade penal, para o inferno, onde estão cercados por pelo menos quatro investigações criminais de nomes esquisitos: Operação Sépsis, Operação Greenfield, Operação Cui Bono, e Operação Bullish. Investigam-se desde fraudes na Caixa Econômica até empréstimos companheiros no BNDES. Sem imunidade, a turma da JBS talvez tenha que se contentar com reduções de penas.

No autogrampo que provocou a reviravolta na colaboração judicial da JBS, o clepto-empresário Joesley Batista contou vantagem para seu empregado Ricardo Saud. Expressando-se num idioma muito parecido com o português, ele disse: “Nóis num vai ser preso”. Joesley e Saud foram passados na tranca no domingo. Não havia outra coisa a fazer.


Aproveitando-se da erosão do acordo com a JBS, denunciados e investigados criticam o instituto da delação. Michel Temer e seus aliados puxam o coro. Convém rebater o coro. Uma delação mal negociada não torna a ferramenta algo maldito. Ao contrário. É preciso punir os delatores de fancaria para preservar um mecanismo que vem se revelando vital no combate à corrupção. Temer se apavora porque acaba de ser preso na Papuda Geddel ’51 Milhões’ Vieira Lima. Trata-se de uma nova delação esperando para acontecer.



POLÍTICA/OPINIÃO: LUIZ FLÁVIO GOMES

Charge (Foto: Amarildo)
CHARGE: AMARILDO

“NÓIS NÃO VAI SER PRESO”

Muita arrogância, muita soberba. Voou alto demais e se danou.
O rei da carne está virando picadinho

Por Luiz Flávio Gomes
Blog do autor
11/09/2017

Joesley assassinou a língua portuguesa (“nós não vai”) e se mostrou ruim em previsões. Já está na cadeia (em prisão temporária, de cinco dias, por ora). Ele e o executivo Saud. Por enquanto não há prisão contra o ex-procurador da República Marcello Miller.

A controvertida delação de Joesley deixou de ser um enigmático jogo de xadrez. Na verdade, é o xadrez que entrou no jogo, testemunhando o choro de Joesley.

Nas cleptocracias parasitárias as elites dirigentes que governam a nação (empresariais, financeiras e políticas) praticam o abominável capitalismo bandido (de compadres, de laços, de amigos). Nesse tipo de capitalismo, o deplorável poder do dinheiro (frequentemente) corrompe o humano. A corrupção, em seguida, corrompe seu cérebro (aniquilando as antenas éticas das amigdalas cerebrais).

Joesley voou muito alto. Esqueceu-se da advertência de Dédalo, pai de Ícaro. Se sentiu o dono absoluto da cleptocracia brasileira. Achou que nunca seria preso. Comprou o Executivo e o Legislativo (deu propinas para mais de 1800 políticos eleitos).

Grampeou Temer e Aécio Neves, colocando em cena safadagens e delitos que normalmente ficariam “ob scenum” (fora de cena).

Conseguiu de Janot sua imunidade penal, zarpou para Nova York como vencedor e achou que um dia poderia chantagear inclusive os ministros do STF (via ex-ministro da Justiça). Muita arrogância, muita soberba. Voou alto demais e se danou. O rei da carne está virando picadinho.

Sua delação será profundamente revisada. É provável (e desejável) que passe um bom tempo na cadeia (espera-se). Mas as provas validamente colhidas serão aproveitadas, incluindo os áudios escabrosos de Temer e Aécio (que estão dentro da jurisprudência do STF).

Ícaro e seu pai Dédalo (que era arquiteto) estavam refugiados em Creta, junto ao rei Minos. Depois do nascimento do seu filho Minotauro (corpo de homem e cabeça de touro), foi construído um labirinto para aprisioná-lo. Ele acabou sendo morto por Teseu (veja Wikipedia); Ícaro e Dédalo ficaram presos no labirinto. Este, para reconquistar a liberdade, construiu asas artificiais, usando cera do mel de abelhas e penas de gaivotas. Antes da fuga, o pai alertou o filho de que não podia voar perto do Sol, porque ele derreteria a cera das asas coladas ao seu corpo; nem muito perto do mar porque, se tocasse suas águas, suas asas ficariam muito pesadas. Ícaro não ouviu os conselhos do pai e, tomado pelo desejo de voar próximo ao Sol; o calor fez com que perdesse as asas e despencasse no mar Egeu, enquanto seu pai, aos prantos, voava para a costa. Moral da história mitológica: Ícaro pode voar alto, talvez até consiga atingir alturas impensáveis, mas não pode atingir o cume, o topo, ou seja, o Sol.

Joesley atingiu o Sol chamado STF, que em matéria de corrupção lenientemente mais atende os interesses das oligarquias dominantes que os da cidadania. O retorno de Aécio ao Senado foi uma vergonha absurda. A manutenção de Renan Calheiros na presidência do Senado (7/12/16) não deixou nada a dever.

Mas desde a prisão de Delcídio foi criado o precedente: o risco é muito grande quando a bandidagem faz bravatas ou insinuações com os ministros do STF.

Fachim foi pressionado por alguns colegas. Fux chegou a falar em “exílio na Papuda”. Abominável antecipação de voto, conforme a escolinha do Gilmar. Cármen Lúcia reprovou a tentativa de chantagem da Corte. O STF é um tribunal reativo. Quando alguém mexe com seus brios, lá vem prisão. Fora disso, o gigante dorme em berço esplêndido. Desde 1/8/17 o pedido de prisão de Aécio Neves está parado. E o homem diz que vai se candidatar para o Senado, novamente. Só numa cleptocracia degenerada isso acontece.

“O mundo é um lugar perigoso para se viver, não [só] por causa daqueles que fazem o mal, mas por causa daqueles que observam e deixam o mal acontecer” (Albert Einstein).

Joesley foi encarcerado. Preponderou o império da lei. Isso, num país de costumes frouxos, é ponto fora da curva. Resta ainda recuperar o dinheiro roubado da população.


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Luiz Flávio Gomes (Portal FGV)

(*) Luiz Flávio Gomes é Doutor em Direito Penal pela Faculdade de Direito da Universidade Complutense de Madri (2001) e Mestre em Direito Penal pela Faculdade de Direito da USP (1989). Criador do movimento “Quero um Brasil Ético”. Jurista e professor em vários cursos de pós-graduação nacionais e internacionais, entre eles a Facultad de Derecho de la Universidad Austral, Buenos Aires (Argentina), já tendo publicado mais de 57 livros na área jurídica. É também membro da Comissão de Reforma do CP e Professor Honorário da Faculdade de Direito da Universidad Católica de Santa María (Arequipa/Peru). Atuou como Promotor de Justiça em São Paulo, de 1980 a 1983; Juiz de Direito, de 1983 a 1998; e Advogado, de 1999 a 2001. (http://luizflaviogomes.com/)

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

POLÍTICA/OPINIÃO: RICARDO NOBLAT

Cartão vermelho Lula (Foto: Arte: Antonio Lucena)
Antônio Lucena - Blog do Noblat

FIM DE JOGO!

O que Palocci disse a Moro já é suficiente para que ele seja apontado
no futuro como o maior algoz de Lula, aquele que desrespeitou o pacto
de silêncio dos líderes do PT empenhados em preservar a imagem
do demiurgo da esquerda. Algoz de Lula, mas também de Dilma,
cuja fantasia de vestal Palocci rasgou

Por Ricardo Noblat
07/09/2017 - 03h13

O dia 6 de setembro de 2017 tem tudo para passar à História como o que selou o destino do mais popular e carismático líder político brasileiro desde Getúlio Vargas, o presidente da República que em agosto de 1954 matou-se com um tiro no peito para não ser derrubado por um golpe militar.

Em menos de duas horas, ficou-se sabendo que o ministro da Fazenda e da Casa Civil dos governos do PT, Antonio Palocci, “o Italiano”, detonou o “pacto de sangue” firmado por Lula com a construtora Odebrecht. E que Lula e Dilma foram denunciados outra vez, desta vez por obstrução de Justiça.

A Lula, segundo Palocci, a Odebrecht pagou propinas num valor de R$ 300 milhões – parte para financiar suas atividades, parte para a compra de uma nova sede do Instituto Lula, e o resto para satisfazer qualquer outro desejo dele. Como o de concluir um museu em sua homenagem. O pacote incluía o pagamento de R$ 200 mil por palestra.

Depois de disparar uma flecha no próprio pé com o caso da polêmica delação do Grupo JBS, Rodrigo Janot, Procurador Geral da República, disparou outra em Lula e Dilma – essa por conta da manobra esperta de 2015 que tornaria Lula ministro-chefe da Casa Civil do segundo governo Dilma.

A manobra tinha como objetivo proteger Lula, que corria o risco de ser preso a qualquer momento por ordem do juiz Sérgio Moro. Como ministro de Estado, Lula só poderia ser processado pelo Supremo Tribunal Federal. Escaparia assim da órbita de Curitiba, eterno pavor dos acusados por corrupção.

Preso há um ano, condenado uma vez, Palocci finalmente cedeu às pressões dos seus advogados e contou o que sabe em depoimento a Moro. Se não contou tudo, contou o suficiente para enterrar Lula que em breve deverá ser condenado pela segunda vez. É réu em pelo menos mais quatro ações penais.

Revelou, por exemplo, que Lula acompanhou cada passo do andamento das operações de repasses ilícitos da Odebrecht. E que na véspera de deixar o governo no final de 2010, apresentou Dilma a Emílio Odebrech para comprometê-la com o acerto que ele tinha com a construtora.

Quanto ao sítio de Atibaia, em São Paulo, onde a familia Lula da Silva desfrutou dos fins de semana, sim, foi mais um "agrado" da Odebrecht feito a Lula, afirmou Palocci. Como foi também o apartamento defronte ao que Lula mora em São Bernardo do Campo, usado por ele Por vários anos, a Odebrecht tapou buracos financeiros do Instituto Lula.

O depoimento de Palocci a Moro não fez parte de nenhuma delação premiada, porque delação ainda não há. Certamente Palocci guardou revelações inéditas para oferecer mais tarde em troca de melhor prêmio por delatar. Está ansioso por isso. Moro ouvirá Lula na próxima semana.

O que Palocci disse a Moro já é suficiente para que ele seja apontado no futuro como o maior algoz de Lula, aquele que desrespeitou o pacto de silêncio dos líderes do PT empenhados em preservar a imagem do demiurgo da esquerda. Algoz de Lula, mas também de Dilma, cuja fantasia de vestal Palocci rasgou.

A Lula e aos seus advogados só resta esgrimir com o surrado argumento de que Palocci mentiu para livrar-se da cadeia, o que desqualificaria a princípio toda e qualquer delação. Ao PT, resta procurar outro candidato para disputar a vaga de Temer, algo que ao fim e ao cabo não fará, refém que é de Lula.

Game over. Fim de jogo.