quarta-feira, 29 de abril de 2015

SANTA FOSSA

Atire a primeira pedra, ai, ai, ai
Aquele que não sofreu por amor


(Mario Lago)

NEGUE

De Adelino Moreira e Enzo de Almeida Passos
Interpretação: Maria Bethânia




Negue seu amor, o seu carinho
Diga que você já me esqueceu
Pise, machucando com jeitinho
Este coração que ainda é seu

Diga que meu pranto é covardia
Mas não se esqueça
Que você foi meu um dia

Diga que já não me quer
Negue que me pertenceu
Que eu mostro a boca molhada
Ainda marcada pelo beijo seu


MATRIZ OU FILIAL

De Lúcio Cardim
Interpretação: Simone




Quem sou eu pra ter direitos exclusivos sobre ela
Se eu não posso sustentar os sonhos dela
Se nada tenho e cada um vale o que tem
Quem sou eu pra sufocar a solidão da sua boca
Que hoje diz que é matriz e quase louca
Quando brigamos diz que é a filial

Afinal se amar demais passou a ser o meu defeito
É bem possível que eu não tenha mais direito
De ser matriz por ter somente amor pra dar

Afinal o que ela pensa em conseguir me desprezando
Se sua sina sempre é voltar chorando,
Arrependida, me pedindo pra ficar



 ATRÁS DA PORTA

De Chico Buarque e Francis Hime
Interpretação: Elis Regina



Quando olhaste bem nos olhos meus,
E o teu olhar era de adeus.
Juro que não acreditei.

Eu te estranhei, me debrucei, sobre teu corpo,
E duvidei, e me arrastei, e te arranhei,
E me agarrei nos teus cabelos, nos teus pelos,
Teu pijama, nos teus pés, ao pé da cama,
Sem carinho, sem coberta,
No tapete atrás da porta,
Reclamei baixinho.

Dei pra maldizer o nosso lar,
Pra sujar teu nome, te humilhar,
E me vingar a qualquer preço.
Te adorando pelo avesso.
Só pra mostrar qu'inda sou tua.
Até provar qu'inda sou tua.

(janeiro/2014)





CHÁ DAS CINCO: MANUEL BANDEIRA (2/4)



O BICHO

Vi ontem um bicho 

Na imundície do pátio

Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.




CHARGES: DIRETO DA "BESTA"

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AMARILDO – A GAZETA



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KACIO – CHARGE ONLINE



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IOTTI – ZERO HORA


ATRÁS DO JORNAL DA BESTA FUBANA 
SÓ NÂO VAI QUEM JÁ MORREU



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MIGUEL – JORNAL DO COMMERCIO



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ALECRIM – CHARGE ONLINE



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THIAGO LUCAS – FOLHA DE PERNAMBUCO




AQUELA NÃO ERA MINHA MÃE

FOTO: LAILA MOXON
www.falamamae.com

Ainda menino, guri gorducho e pobre, ficava sempre apreensivo às vésperas de casamento de parentes ou conhecidos. Não via a hora, claro, de comer salgados, doces e tudo mais que me fosse servido. Também gostava de correr feito besta de um lado para outro do salão, com meus primos, até vomitar na roupinha nova, comprada a prazo. No dia seguinte, o puxão de orelha era certo. Quando não apanhava ali mesmo: no salão. Não raro, a festa era no quintal da casa dos pais da noiva - o que era frequente, em função de nossas "relações sociais".

Mas o que me deixava apreensivo não era o castigo físico, que, a bem da verdade, pouco doía. Era a certeza de que mamãe iria à cabeleireira, logo pela manhã. Que depois voltaria com uns rolos imensos na cabeça coberta por um pano qualquer. O pior viria à tarde, quase na hora da cerimônia. Quando ela entrava em casa, com aquele “capacete” construído com frascos e mais frascos de laquê, era sempre um baque para mim. Meu pai não se abalava. Às vezes, chegava a lhe dizer: “Está bonita”. Acho que mentia.

Aquela mulher de “capacete” não era minha mãe. Minha mãe era a que me buscava de cabelos lambidos e vestido ordinário, na porta da escola. Esta eu amava. Desta sinto saudade, muita saudade. (2012)



FRASES: MILLÔR FERNANDES (2/3)



O otimista não sabe o que o espera.

Passado é o futuro usado.

Não devemos resistir às tentações: elas podem não voltar.

Não é que com a idade você aprenda muitas coisas; mas você aprende a ocultar melhor o que ignora.

Metade da vida é estragada pelos pais. A outra metade, pelos filhos.

Errar é humano. Ser apanhado em flagrante é burrice.

O pior não é morrer. É não poder espantar as moscas.

Esnobar é exigir café fervendo e deixar esfriar.

O dinheiro não dá felicidade. Mas paga tudo o que ela gasta.

Os nossos amigos poderão não saber muitas coisas, mas sabem sempre o que fariam no nosso lugar.

Milton Viola Fernandes (16/08/1923 – 27/03/2012),
o grande Millôr Fernandes,
foi desenhista, humorista, dramaturgo,
 escritor, tradutor e jornalista.





IMAGENS: DJANIRA (2/3)

CANTIGA PARA DJANIRA

O vento é o aprendiz das horas lentas,
Traz suas invisíveis ferramentas,
Suas lixas, seus pentes-finos,
Cinzela seus castelos pequeninos,
Onde não cabem gigantes contrafeitos,
E, sem emendar jamais os seus defeitos,
Já rosna descontente e guaia
De aflição e dispara à outra praia,
Onde talvez possa assentar
Seu monumento de areia – e descansar.

(PAULO MENDES CAMPOS)












COISAS DA VIDA

Oração do Corno
humortadela.uol.com.br


A TROCA

Toninho era boêmio e namorador. Divorciado, vivia em busca de aventuras. Mulher casada e infiel, se fosse bonita e gostosa, era com ele mesmo. Bonitão, insinuante e devorador de livros, era também poeta e seresteiro.

Rosilda, esposa de Alberto, um conhecido dentista da cidade, costumava trair o marido, que só vivia para o trabalho. O homem suspeitava da esposa, mas não tinha certeza de nada. Era o chamado “corno cuscuz” (abafado). O casal não tinha filhos.

A mulher conheceu Toninho num restaurante, onde jantava com o marido, e se sentiu atraída por ele. O poeta também sentiu imediata atração por ela. Enquanto o dentista foi ao banheiro, Toninho passou pela mesa e entregou seu cartão de apresentação a Rosilda. No dia seguinte, a mulher lhe telefonou e os dois combinaram um encontro. Tornaram-se amantes, passando a frequentar motéis, sempre durante o dia, enquanto o marido se encontrava no consultório.

Num certo dia, o dentista viajou para um congresso em Fortaleza (CE), passando a semana fora. Ficara de retornar no domingo. Feliz da vida, na sexta-feira, Rosilda deu o sinal verde para que o namorado viesse encontrá-la em sua própria casa. Os dois amantes usavam a mesma cama onde Rosilda e o marido raramente faziam amor.

Violante Pimentel é procuradora aposentada
 do Estado do Rio Grande do Norte

O dentista, sem avisar, antecipou sua volta para a sexta-feira.

Os amantes, quase exaustos da maratona amorosa, foram surpreendidos pelo barulho do carro do dono da casa entrando na garagem.

Apavorados, os dois pularam da cama. O homem vestiu a cueca, agarrou a calça e a camisa nos braços, e pulou a janela do quarto, saindo pelo quintal, e correndo para a casa do vizinho, que era seu amigo. Por sorte, o amigo Artur estava em casa, ouviu sua voz e mandou que entrasse. Ali, Toninho terminou de se vestir e, bastante nervoso, já ia tirar o time, quando pôs no rosto os óculos que trazia nas mãos. Notou, então, que aqueles óculos não eram os seus. Estava sem enxergar quase nada, pois era míope e usava as chamadas lentes "fundo de garrafa", com um grau muito forte.

A ficha então caiu!!! Ele trocara seus óculos pelos óculos do dentista!!! Pediu, então, ao amigo Artur para que fosse destrocá-los. Mas, naquele momento, seria impossível! O pau já estava quebrando na casa do dentista, que não teve mais como ignorar a traição da mulher. Garrafas de vinho, taças, petiscos, cama desarrumada, roupas pelo chão, cinzeiro com restos de cigarros, enfim, todo um cenário que denunciava a traição. Para completar a cena, o dentista pôs no rosto os óculos que estavam na mesa de cabeceira e viu também que não eram seus.

Dessa vez, não dava mais para tapar o sol com a peneira...  A traição da mulher estava clara e o dentista teve que se convencer de que era corno. 




terça-feira, 28 de abril de 2015

QUASE HISTÓRIAS (V)

www.imperiodarenda.com

CÚMPLICES

Argemiro (8.6, hipertenso, cardíaco) e Esmeralda (8.7, obesa, diabética) eram casados há sessenta anos. A cada dia, a cumplicidade entre eles aumentava:

-- Tudo bem, Argemiro, não vou dizer aos meninos que hoje você tomou uma cachaça escondida e duas latas de cerveja também.

-- Você jura por Deus, Esmeralda, que não vai contar aos meninos que bebi? Eles estão loucos pra nos internar...

-- Juro. Mas só se você jurar que não vai contar pra eles que eu bati uma lata de leite condensado. Quer uma balinha de coco?

-- Não, obrigado. Vou tomar mais um gole.

VASO BOM

Hoje, estou “quase” convencido de que sou um homem bom. Bom? Bom nada: boníssimo, dos que merecem, definitivamente, um espaço no panteão dos santos. E vejam bem: não afirmo isso por cabotinismo, me valho da mais pura lógica para chegar a tal conclusão.

Os ditos populares, a exemplo da fé, não costumam falhar. Eu acredito em quase todos ditos e benditos, desde que me convenham. E o que diz um dos mais famosos deles? Que vaso ruim não quebra. Trata-se da mais absoluta verdade. Ora, ora, se vaso ruim não quebra, vaso bom quebra. Como estou um amontoado de cacos – a espera de uma alma santa, munida de vassoura e pá, que me recomponha –, só posso ser o que sempre imaginei ser: um cara trilegal.

Contra a lógica, meus caros, não há argumentos.




IMAGENS: DJANIRA (1/3)


DJANIRA

Descendente de austríacos e de índios guaranis, Djanira ((Avaré, 20 de junho de 1914 — Rio de Janeiro, 31 de maio de 1979) foi uma pintora, desenhista, ilustradora, cartazista, cenógrafa e gravadora brasileira. Passou a infância em Porto União (SC), onde trabalhava na lavoura. Na adolescência, voltou para a cidade natal, Avaré (SP). Em 1928, seguiu para São Paulo, onde foi vendedora ambulante.

Em sua produção, destaca-se o painel monumental de azulejos para a capela do túnel Santa Bárbara (1958) no Rio de Janeiro. Inicialmente nomeada como “primitiva”, gradualmente sua obra alcança maior reconhecimento da crítica. Como aponta o crítico de arte Mário Pedrosa (1900-1981), Djanira é uma artista que não improvisa, não se deixa arrebatar, e, embora possuam uma aparência ingênua e instintiva, seus trabalhos são consequência de cuidadosa elaboração para chegar à solução final.

Fonte: WIKIPÉDIA













CLÓVIS CAMPÊLO



OUTONO

Hoje que o dia padece
de uma cor plumbéa,
colho raios de sol.

Não espero que apareças,
já estás no meu pensamento
leve como uma nuvem
que singra o firmamento.

Não me apavora a solidão.
Apenas amadurece
a nobre colheita do outono
que se apresenta.

(Recife, 2011)