segunda-feira, 24 de setembro de 2018

QUASE HISTÓRIAS: TREM FANTASMA

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Ilustração: IStock

E a doutora, médica renomada, com vários cursos de especialização nisso e naquilo, mulher de poucas palavras, foi direto ao ponto:

-- O senhor já tem certa idade, está longe de ser um garotão. Bebe, fuma, come torresmos, pastel e carne vermelha todos os dias. Há anos. Odeia verduras e legumes. Não suporta frutas. Pratica, ao menos, algum esporte?

-- Pratico, sim, doutora.

-- Qual esporte?

-- Só um. Bem radical.

-- Qual?

-- Sexo.

-- Sexo? Desde quando sexo é esporte radical? – inquiriu a doutora de muitos títulos.

-- Aposto que a doutora tem idade para ser minha neta. Na sua idade, tudo é fácil. Sexo é puro prazer. Na minha, é aventura, desafio, sustos, passeio no trem fantasma. Haja adrenalina.


JEJUM

Segunda-feira. O telefone toca, o coitado atende. Uma, duas, três, vinte vezes. Com a educação possível. É a velha que não escuta querendo saber quanto custa para lavar o edredom. (Perdão, senhora: aqui não é lavanderia.) É o gerente querendo convencê-lo de que os juros cobrados pelo banco são excelentes. (Obrigado, amigo, não quero empréstimo.) É a moça do consórcio querendo lhe empurrar um carro, é a senhora da creche pedindo ajuda, é, é... É o mundo lhe torrando o saco.

Lá pelas tantas, não perguntou quem era, bateu pesado:

- Vá pra puta que o pariu.

Era a mulher. Na TPM.

Vai jejuar um mês.


QUE CAPA, JUREMA!




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FOTO: ARQUIVO GOOGLE

O Velho Marinheiro, nosso Lobo do Mar, se fingia de morto. Por conveniência. Controlou a inquietação, não ousou caçar o bicho do pé imaginário – para não inibir a conversa entre a neta Irene e uma de suas melhores amigas, mulher com peitos miúdos e nádegas avantajadas. Afinal, o assunto – nádegas – lhe interessava desde sempre, desde os tempos em que passou a usar calça comprida e a enfrentar ondas das bravas e cabarés de quinta categoria. É dura, a vida no mar.

-- Irene, bote reparo – disse a visitante, com certa pompa, como se enormidade daquelas passasse despercebida. Da cintura pra cima, posso ser considerada mulher magra. Uso sutiã 42. A desgraça é da cintura pra baixo, manequim 58. É um trabalho danado para encontrar calça que me sirva.

-- Fazer o quê? Cada uma é cada uma, amiga. Meu problema é outro: o tamanho dos peitos. É muito peito pra pouca bunda – lamentou Irene.

-- Meus quadris são muito largos – insistiu a visitante.

O Lobo do Mar resolveu entrar na conversa:

-- Perdão. Como é mesmo seu nome?

-- Jurema.

-- Bonito nome. Combina com a jovem, igualmente vistosa. Seu problema não é a largura dos quadris. É a capa de gordura que envolve os danados. E dela a senhora não se livra fácil, não. Aliás, nem deve. Está muito bem assim. Coisa dessas faz bem às vistas e ao cérebro.

-- O que é isso, vovô? Tenha santa paciência! – berrou a neta, à beira de um ataque de nervos.

-- Irene: seu avô – acho eu - só quis ser gentil - interveio, meio atônita, a visita.
. ´

-- A gente não deve lutar contra a natureza. Irene, por exemplo, fez uma dieta das bravas. Deu nisso. Emagreceu tanto que perdeu parte do encanto. Ficou com bunda de coreana. Ou seja: com uma tábua de passar roupa nas costas. Agora, com licença. Vou comprar cigarros. Até mais ver. Jurema: não jogue fora seu principal atributo. (OS – Atualizado em setembro de 2018)


sexta-feira, 21 de setembro de 2018

PAPO FIRME: LEANDRO KARNAL

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Para Karnal, Rafinha Bastos é um "imbecil"
Foto: Divulgação


Karnal comenta "brincadeiras machistas"
numa sociedade falocêntrica como a nossa



Leandro Karnal é professor doutor na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), desde 1996. Graduado em História pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (RS) e doutor em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Possui pós-doutorados pela UNAM, México, e pelo CNRS de Paris. Sua formação cruza História Cultural, Antropologia e Filosofia. É autor de vários livros.


A SEMANA É DE Carlos Drummond de Andrade (5)


Caricatura: Baptistão

POEMA DAS SETE FACES

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

***


Carlos Drummond de Andrade (1902, Itabira, MG – 1987, Rio de Janeiro, RJ) foi um poeta brasileiro. "No meio do caminho tinha uma pedra / tinha uma pedra no meio do caminho". Este é um trecho de uma das poesias de Drummond, que marcou o 2º Tempo do Modernismo no Brasil. Foi um dos maiores poetas brasileiros do século XX. FONTE: EBIOGRAFIA

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

PAPO FIRME: ARIANO SUASSUNA


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Suassuna conta piadas sobre a burrice
de presidente do Brasil durante a ditadura militar. 



***

Ariano Vilar Suassuna (16/06/1927, João Pessoa, Paraíba – 23/07/2014, Recife, Pernambuco) foi dramaturgo, romancista, ensaísta, poeta e professor. Na década de 70, fundou o Movimento Armorial, que tinha como objetivo utilizar a cultura popular para formar uma arte erudita. Suas peças mais conhecidas são “Auto da compadecida”, de 1957, e “O Santo e a Porca”, de 1964. Na Academia Brasileira de Letras, ocupou a cadeira número 32, cujo patrono é Araújo Porto Alegre.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

E O AMOR SAIU PELA JANELA: CENA VI

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Ilustração: StockFotos


-- Chega de mentiras, Alceu. Basta! Entendeu? Não suporto mais essa vida que levamos. Afinal, por que você se casou comigo?

-- Por interesse, Matilde, é que não foi. Muito pelo contrário.

-- Como assim? Não estou entendendo.

-- Quer saber?

-- Quero.

-- Melhor deixar pra lá, Matilde.

-- Não vou deixar pra lá coisa nenhuma. Quero saber, diga de uma vez.

-- Matilde: você sempre foi a mais feia das meninas, a mais pobre, a mais obtusa...

Matilde esboçou um sorriso de satisfação e apostou todas suas fichas num palpite furado:

-- Então, você se casou comigo por amor, não foi?

Alceu respirou fundo, resolveu mentir (amara Matilde, sim) e colocar ponto final naquela história arrastada, pois de uns tempos pra cá só tinha cabeça, coração e membros para Verinha, a cunhada mais nova, dona de bunda e peitos fartos:

-- Não, Matilde. Casei por pena, pena de você.

-- Cretino. Só agora, depois de vinte anos e três filhos, você me diz barbaridade dessas?

-- Você nunca me perguntou antes, Matilde. Não tenho culpa.

(ORLANDO SILVEIRA – ATUALIZADO EM AGOSTO DE 2017)



segunda-feira, 17 de setembro de 2018

PAPO FIRME: LUIZ FELIPE PONDÉ

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Imagem: Arquivo Google


A INTELIGÊNCIA CAUSA 
MELANCOLIA, DEPRESSÃO?



Luiz Felipe Pondé (1959, Recife) – filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv – discute temas como comportamento, religião, ciência. É colunista da Folha de S. Paulo

É PIQUE, É PIQUE, É...

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ARQUIVO GOOGLE

O Velho Marinheiro estava visivelmente irritado. Desde que chegou ao bar do Carneiro, quase uma hora atrás, não trocou palavra com ninguém. Sentado à mesma mesa, Ananias permaneceu o tempo todo em silêncio absoluto. Sabia que seu amigo estava louco para desabafar, mas não seria ele quem puxaria prosa.

-- Está calado por que Ananias?

-- Acho que o senhor não está a fim de conversar. Respeito seu desejo de ficar quieto.

-- Ananias, a verdade é que família, às vezes, torra a paciência. Desde sábado, Mafalda e Irene não falam comigo. Estão com um bico desse tamanho. Mas a culpa, no fundo, é minha. Não devia ter cedido. Quem mandou querer agradar a neta?

-- Posso saber o que houve?

-- Irene me pediu para emprestar o salão de festas de minha casa para que uma amiga sua fizesse ali uma festinha de aniversário para a filha, criança de cinco anos. Não viriam mais de cinquenta pessoas. Apareceram mais de cem. Gente medonha.

-- O pessoal abusa. Diz uma coisa e faz outra. Sei como é, entendo o senhor.

-- O problema maior nem foi o número de convidados. Ia tudo mais ou menos bem, noves fora o fato de ter pegado duas velhas gaiatas usando o banheiro da suíte e um bêbado tirando pestana no meu sofá.  . Que ousadia! Agora, na hora de cantar parabéns a você, o caldo entornou.

-- O que aconteceu?

-- O pai da criança, completamente bêbado, na hora de cantar parabéns, começou a gritar: “É pica”, “É pau”, “É rola”. A turba pegou fogo.

-- E o que o senhor fez?

-- O que tinha que ser feito. Peguei o safado pela orelha e o coloquei para fora de casa. Voltei para o salão e anunciei uma única vez: “A festa acabou. A saída é por ali. Tenham todos vocês uma péssima noite!” Foi isso, apenas isso. Mafalda, minha mulher, ainda teve a ousadia de me dizer que implico com qualquer coisa, que sou exagerado...

-- Será que o senhor ouviu bem?

-- Ananias, Mafalda é completamente surda e perdeu na semana passada o aparelho. Meu caro: não sou puritano, também falo palavrões, mas nunca na frente de mulheres e crianças, menos ainda aos berros e na casa dos outros. Que Mafalda e Irene fiquem de bico! Só tenho uma certeza: nunca mais vão me pedir para emprestar o salão para ninguém. Vamos tomar uma cerveja. Bando de safados. Antes que me esqueça: lá em casa só tem uma surda: Mafalda. (OS - Atualizado em setembro de 2018)

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

PAPO FIRME: LEANDRO KARNAL


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LEANDRO KARNAL (ARQUIVO GOOGLE)



O HÁBITO DE FALAR MAL DOS OUTROS




Leandro Karnal é professor doutor na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), desde 1996. Graduado em História pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (RS) e doutor em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Possui pós-doutorados pela UNAM, México, e pelo CNRS de Paris. Sua formação cruza História Cultural, Antropologia e Filosofia. É autor de vários livros.

A SEMANA É DE Portinari (5)

COLHEITAS

                                                      Colheita de mel de abelha indígena - 1960



                                                     Colheita do Milho - 1959




                                                       Colheita de Café - 1957





                                                   Colheita de feijão  - 1957




                                                   Colheita de Arroz  - 1957



                                                     Colheita de Cacau - 1954



                                                                                     Colheita do algodão - 1937




Campo de Arroz - 1947



AUTORRETRATO - 1957

Cândido Portinari (1903-1962) foi um pintor brasileiro. Autor de quase cinco mil obras, entre elas os painéis "Guerra e Paz" da sede da ONU em Nova York e o mural da Biblioteca do Congresso em Washington. Estudou na Escola Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro, onde começou a se destacar. Passou dois anos em Paris que foram decisivos para criar o seu estilo. As exposições coletivas no Museu de Arte Moderna de Nova York, na década de quarenta, ao lado de artistas já consagrados, abrem o caminho para individuais em Nova York.

Em 1935, recebe prêmio do Carnegie Institute de Pittsburgh pela pinturaCafé, tornando-se o primeiro modernista brasileiro premiado no exterior. No mesmo ano, é convidado a lecionar pintura mural e de cavalete no Instituto de Arte da Universidade do Distrito Federal. Em seguida, convidado pelo ministro Gustavo Capanema (1902-1998) pinta vários painéis para o novo prédio do Ministério da Educação e Cultura (MEC) (1936-1938), com temas dos ciclos econômicos do Brasil, propostos pelo ministro.

Morreu aos 58 anos, no Rio de Janeiro, vítima de intoxicação causada pelas tintas que utilizava.


Fonte texto: e-biografias