segunda-feira, 25 de agosto de 2014

O CANDIDATO TRAPALHÃO (III)

revistaamiga-novelas.blogspot.com

Ante a absoluta falta de recursos, apesar de todas suas tentativas de conquistar apoios dos homens e mulheres de negócios, Araújo – o candidato trapalhão – resolveu investir no corpo a corpo. Visitava feiras, plantava-se na porta de igrejas em horário de missa, estendia a mão a todos que por ele cruzavam, dava tapinhas nas costas de manequim de loja, abraçava postes, comprometia-se com qualquer causa, por mais estapafúrdia que fosse... Incansável, ficava no ar 18 horas por dia, muitas vezes só na base da água e do cafezinho gratuito. Sempre tem uma alma boa.

Até que Osvaldinho – que agora não era mais dublê de motorista e marqueteiro, pela triste razão de que acabara o dinheiro para abastecer o fusca – teve uma idéia:

-- Araújo, nós vamos mudar a estratégia, já fizemos muito corpo a corpo, agora será olhos nos olhos: você vai dar palestras para um público mais qualificado. Consegui a primeira. Será amanhã, para alunos de Direito daquela faculdade do bairro. Prepare-se, faça a barba, tome banho bem tomado, descanse durante o dia, para não chegar lá com essa cara amarrotada. Vai falar sobre suas propostas.

E assim foi feito. Araújo prometeu lutar por isso e aquilo, não se intimidou ante os que lhe diziam que aquelas não eram prerrogativas de vereador. Respondia convicto: “Tem de ter vontade política”. O caldo entornou quando fez aquela que, a seu ver, seria a declaração mais impactante:

-- Seja quem for o prefeito, estarei sempre ao seu lado, porque quem está na oposição nada faz, nada leva. Nem pra si, nem pros outros. Serei sempre situação.

Saiu sob vaias e xingamentos. Até hoje, não entendeu o motivo.






MEMÓRIA:ANTÔNIO ERMÍRIO DE MORAES



OBRIGADO, ANTÔNIO

Obrigado, Antônio Ermírio de Moraes.
Pelos feitos, pelos sonhos.
Pela coragem de fazer o que todo mundo fala da boca pra fora.  

sábado, 23 de agosto de 2014

CEARÁ BOTOU..

O homem estava irreconhecível.

Há quinze dias, Ceará não pitava, não bebia uca, não jogava no bicho. Tratava a mulher com deferência total. O filho pequeno e único lhe fazia de sapato e gato. E ele ria. Parecia mais avô que pai. Transformara-se num homem de fé.

Domingo à tarde. Ceará se plantou na porta do bar. Cumprimentou todo mundo como sempre – com aquele rosnar quase indecifrável, sua marca moída. Era um cavalheiro, embora rude. Rejeitou todas as propostas de tomar uma. Olhava ansioso pro começo da rua. O carro do pastor, seu chefe, não chegava. Não chegava nunca. Demora imperdoável para aquela alma em vias de conversão, mas ainda vacilante. Ia perder o culto.

foto: www.trekearth.com

Passou meia hora, passou hora e meia. Ceará pediu um cigarro a um conhecido.

Impaciente, resolveu degustar uma, com a licença do pastor. Ninguém é de ferro. Resolveu comprar fósforos e um maço de cigarros do Paraguai. O pastor não vinha. Pra arredondar o troco, entornou mais duas. E nada do pastor, que só apareceu no fim da noite.

Àquela altura, o dízimo estava dizimado. E Santo Antônio posto na jangada.  E Ceará sem força pra gritar como convém a recém-convertido.  

Mas o pastor, compreensivo, não deixou a alma penada em vão:

-- Ceará: esquenta não. Amanhã, tem culto. Não esqueça o cartão do banco. É dia de pagamento. Toma mais uma que eu pago. Em nome de Jesus, te perdoo.




IMAGENS: TIM MAIA

Baptistão


Chico Caruso


Ulisses Araújo




Quinho


Carval

O CANDIDATO TRAPALHÃO (II)



-- Estou decepcionado, muito decepcionado mesmo, com nossos homens e mulheres de negócios, Osvaldinho. Já faz dez dias que lhes mandamos aquela correspondência e até agora nenhum retorno. Não querem colaborar com um candidato que lhes prometeu abrir as portas de seu gabinete, para que juntos nós montássemos uma usina de bons negócios. Que diabos! Não acreditam em quem lhes fala a verdade, mas contribuem financeiramente com quem faz promessas vagas sobre saúde, educação e outras obviedades. Francamente!

Araújo Pinto e Silva, candidato de primeira viagem, porém, não é homem que desiste com facilidade. Quer porque quer se eleger, para enricar. Mas sabe que, sem dinheiro, não se chega lá. Por isso, gasta seu tempo elaborando estratégias para arrecadar uns trocos. Questão de sobrevivência futura – e presente também, é um pronto.

Depois de muito pensar, pensar, ele revela o novo plano para Osvaldinho, seu homem de confiança, dublê de motorista e marqueteiro, muro de arrimo de sua candidatura mambembe:


-- Vamos enviar uma nova correspondência, agora apenas para empresários de grande porte. Os parlamentares têm uma cota. Durante o mandato podem distribuir títulos de “cidadão da cidade” e medalhas a quem contribuiu para seu desenvolvimento. Coisas que dão status. Até o Lula recebeu um título desses. Os que contribuírem com recursos serão homenageados. Evidente que será dada preferência aos que derem mais dinheiro para a campanha, desde que se comprometam também a pagar no futuro o coquetel da festa. Providencie o texto, não temos tempo a perder.   

Leia também:

O CANDIDATO TRAPALHÃO

IMAGENS: CLÓVIS CAMPÊLO

PRAIA DE PONTA DE PEDRAS
Goiana/PE, 1994



O RECIFE SOMBREADO
Recife, julho 2014




Fotografias de Clóvis Campêlo

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

INCOMPETÊNCIAS

Por Moisés


Marina Silva, a voz das selvas, ao contrário do que sugere sua estampa franzina e fala quase mansa, é autoritária, desagregadora e incompetente. Tão incompetente que não conseguiu criar seu próprio partido, após ter obtido cerca de 20 milhões de votos nas eleições de 2010. Coisa que até gente como Levi Fidelix, Eymael e outros de idêntica relevância política conseguiram.

***

Marqueteiros são profissionais de grande talento, quase mágicos, de uma inventividade invejável. Transformam ladrões em paladinos da ética, analfabetos em leitores vorazes, incompetentes em administradores sem igual. Ganham fortunas. Só não conseguem falar a verdade, vender o candidato real.  


O CANDIDATO TRAPALHÃO

FOTO: Divulgação



Depois de muitas idas e vindas, repreensões e ajustes, finalmente, Araújo aprovou o texto elaborado por Osvaldinho, seu fiel escudeiro, principal assessor de campanha, dublê de motorista e marqueteiro. E ordenou à secretária que o material fosse enviado ao maior número possível de pequenos, médios e grandes empresários. Com urgência. Afinal, até ele, candidato de primeira viagem – tolo metido a esperto –, sabe que não se faz campanha sem dinheiro. Sua ordem foi cumprida à risca.

Eis o texto aprovado pelo candidato trapalhão e enviado aos, digamos assim, representantes de nosso setor produtivo:

Nobre empresário:

Venho por meio dessas mal traçadas linhas me colocar, desde já, à sua disposição. Ainda não cheguei lá, mas estou esperançoso, animado mesmo. Mas, para chegar lá, preciso de recursos. Ou seja: de sua ajuda financeira. Não ponho preço, claro. Cada um contribui como pode. Por isso, gostaria de conversar com Vossa Excelência. Vou até sua empresa, se preciso.

Tenha certeza de que Deus lhe dará em dobro – e eu, ao longo do mandato, muitas vezes mais do que o recebido de Vossa Senhoria. A causa me parece justa, até porque, eleito, pretendo transformar meu gabinete e escritório político em usinas de bons negócios para todos os que participarem dessa empreitada, sem descuidar, jamais, dos legítimos interesses de nosso povo sofrido, razão primeira e única de minha candidatura.

Certo de seu apoio e grato pela atenção, aguardo ansioso seu retorno.

Receba meu abraço.

Até a vitória!

ARAÚJO PINTO E SILVA
O SEU CANDIDATO


IMAGENS: PRESIDENCIÁVEIS

DILMA ROUSSEF

Por Marcos Ferreira

Por Lezio Jr.


AÉCIO NEVES






Por Amarildo


Por Leo Cabral


MARINA SILVA


Por Jindelt


Por Baptistão

BRUNO NEGROMONTE

EM SENSÍVEL AMÁLGAMA SONORO, MAREIKE VALENTIN MOSTRA AO QUE VEIO
Nascida na Alemanha porém profundamente imbuída de brasilidade, a cantora radicada em
Blumenau apresenta-nos seu primeiro projeto fonográfico sob a batuta do maestro Leandro Braga
Imbuída de talento e propensa a uma acepção por aquilo que é simples, sensível e marcante, Mareike (lê-se Maraike e que tem por definição ser uma variação de Maria, em holandês) Valentin apesar de ter nascido na Alemanha não deixou que os mais de 10 mil quilômetros que separam nosso país até sua terra de origem intervissem em suas escolhas e referências musicais (isso tudo por conta daquilo que ouvia em casa através dos pais). Foi por intermédio deles que a cantora conheceu os grandes nomes da música brasileira e, de certo modo, concebeu um fascínio por nossa cultura ao ponto de não deixar traços em sua sonoridade de que algum dia passou pelo velho mundo, pois em seu trabalho não há nada de perceptível que remeta a quem o ouve ao continente europeu. É possível afirmar isso porque sua sonoridade é genuinamente brasileira através das diversas peculiaridades que o constitui. O álbum é um debute que, de certo modo, demostra ser uma espécie de acerto de contas com o tempo em que passou longe do Brasil ao longo da infância, um período que apesar da tenra idade da artista foi essencial para delinear nos dias atuais essa espécie de afronto aos seus mais recônditos anseios.
Assim sendo, esse disco não deixa de traduzir também em versos e melodias aquilo que foi acumulando-se ao longo deste, digamos, cerne de sua formação musical quando ainda residia em Rheinfelden, a pequena cidade alemã com pouco mais de 30 mil habitantes, onde a Mareikenasceu e conviveu com a cultura local até a sua vinda para o Brasil, onde cresceu e desenvolveu sua aptidão e predileção pela boa música brasileira. É válido lembrar que ainda na Alemanha a música brasileira já fazia parte de sua rotina, principalmente quando a mãe (nascida em Minas Gerais) resolvia matar as saudades do torrão natal e ouvia diversos artistas, tais quais João Bosco, Chico Buarque, Djavan e tantos outros; sem esquecer é claro de uma de suas principais referências, o cantor e compositor Milton Nascimento e toda a turma do Clube da Esquina que ajudaram de forma bastante intensa a sedimentar e constituir este mosaico sonoro coerentemente tão bem delineado.
Já no Brasil a teve sua iniciação musical ainda criança quando estudou piano e flauta doce em Pomerode (SC). Foi durante o período em que residia em Pomerode que chegou a participar do Grupo Txai, onde atuou como cantora, flautista e pianista, chegando inclusive a excursionar por quase um mês na Áustria assim como também em sua terra natal, a Alemanha divulgando a música popular brasileira. Sem esquecer de sua participação, no período da adolescência, de diversos coros em Santa Catarina.
Na fase adulta enveredou por caminhos que divergiam daquilo que de fato desejava e chegou a atuar como bancária. Porém seu paixão pela música a fez escolher pela vida artística em tempo integral, quando em 2007 largou a profissão para dedicar-se ao ofício de cantora. Vem deste período a busca por uma excelência naquilo que Mareike decidiu-se a fazer como workshops, oficinas e cursos de curta duração em diversas áreas da música. Fora isso a artista cursou Licenciatura em Música na FURB e dedicou-se ao estudo do Canto Popular, seguimento no qual hoje leciona na Escola de Música do Teatro Carlos Gomes (além de trabalhar também com preparação vocal). O resultado de todo esse "Know-how" agora pode comprovado através desse álbum homônimo ao seu nome, um projeto de estreia que nasceu sob a forte influência de uma formação musical genuinamente brasileira, principalmente se levarmos em consideração o imprescindível gosto musical de sua mãe, que longe do Brasil matava a saudade do país através dos mais relevantes nomes da MPB.
"Pude gravar lindas canções (todas refletem a música que carrego aqui dentro)". As palavras da artista atestam aquilo que as dez faixas por si só deixam transparecer: canções tecidas com fios de sensibilidade e sutileza, retratando um universo bastante particular da artista em versos e melodias marcantes e que são reafirmadas pelos refinados arranjos do maestro Leandro Braga e as concisas participações de dois grandes artistas: Marco Sacramento e Zé Renato, reiterando a precisa e coerente harmonia, marca tão característica deste trabalho composto por características tão peculiares.
O disco começa com a esfuziante "Menina amanhã de manhã" (Tom Zé e Perna) gravada originalmente pelo autor no álbum "Se o caso é chorar" nos idos anos de 1972. Quarenta anos depois a interpretação da cantora conseguiu manter uma leveza pueril. Transformada em um ijexá a canção retrata, segundo a própria artista, o seu jeito de ser e de levar a vida. Do pernambucano Pochyua Andrade a cantora interpreta três canções: "Estrada Real" (composta em Minas Gerais (pelo trecho da antiga estrada real que liga Ouro Branco a Ouro Preto) a partir de uma viagem de carro do Recife à Santa Catarina; Em parceria com com Gregory Haertel (marido da cantora) Andrade assina "Duas procissões" e "O teu Começo". A primeira traz como cerne a cumplicidade existente em um casal apaixonado e conta com a participação do cantor e compositor Marcos Sacramento; já a segunda tem como tema o mar e suas peculiaridades, expressando em versos e melodias a forte identificação que a artista confessa ter com o mar. Tendo o mar como tema e seguindo a mesma linha também há "Bóia, bóia" (Suely Mesquita e Lucina). Gregory ainda assina "Só Luiza" (com Leandro e Mareike) e "Valsa incerta" (Com Braga). A faixa "Só Luiza" nasceu de um desejo do maestro e produtor em ver a cantora compor algo para fazer parte do disco. Já "Valsa incerta" nasceu do desafio de fazer uma letra em menos de 24 horas para a densa melodia apresentada pelo maestro Leandro Braga. Uma belíssima letra impregnada de poesia foi escrita e entregue, fazendo desta faixa uma das mais belas da exitosa parceria.
O disco ainda traz o contagiante samba "De amor, de amar" (Telma Tavares), a toada "Imbora", uma parceria dos cantores e compositores Zé Renato e Pedro Luís que retrata a vida de um poeta que faz da rima a sua companheira. Esta canção que conta com a participação do próprio Zé Renato também encontra-se presente no álbum "Tempo de Menino", primeiro trabalho solo do carioca Pedro Luís e "Passas por mim", canção de autoria de Simone Guimarães a partir do poema de Guilherme de Almeida. A belíssima interpretação torna-se sem dúvida um dos pontos altos do disco.
Patrocinado pela Fujiro Ecotextil, este projeto foi gravado no Rio de Janeiro ao longo de dez meses e a ficha técnica conta com nomes como João Gaspar (violões e guitarras), Jamil Joanes (baixo), Zé Nogueira (sax soprano), Felipe Rosseno (percussão), Thiago da Serrinha (percussão e coros), Zé da Velha (trombone), Paulo Sérgio Santos (clarone e clarinete), Silvério Pontes (flugel horn e trompetes), Leandro Vasques e Mayla Valentin(palmas). Além de nomes citados anteriormente como Gregory Haertel (palmas) e Leandro Braga (pianos, produção e arranjos).
Para que os amigos conheçam um pouco mais do trabalho desta nova artista deixo para degustação duas faixas do álbum de estreia de Mareike. A primeira trata-se da canção "Menina amanhã de manhã", já descrita ao longo da matéria:
A segunda canção é "Passas por mim", também citada anteriormente: