sexta-feira, 9 de novembro de 2018

HORA DA VITROLA: ZIZI POSSI E CHICO (PEDAÇO DE MIM)






PEDAÇO DE MIM

De Chico Buarque
Com Chico Buarque e Zizi Possi





Oh, pedaço de mim

Oh, metade afastada de mim

Leva o teu olhar

Que a saudade é o pior tormento

É pior do que o esquecimento

É pior do que se entrevar



Oh, pedaço de mim

Oh, metade exilada de mim

Leva os teus sinais

Que a saudade dói como um barco

Que aos poucos descreve um arco

E evita atracar no cais



Oh, pedaço de mim

Oh, metade arrancada de mim

Leva o vulto teu

Que a saudade é o revés de um parto

A saudade é arrumar o quarto

Do filho que já morreu



Oh, pedaço de mim

Oh, metade amputada de mim

Leva o que há de ti

Que a saudade dói latejada

É assim como uma fisgada

No membro que já perdi



Oh, pedaço de mim

Oh, metade adorada de mim

Lava os olhos meus

Que a saudade é o pior castigo

E eu não quero levar comigo

A mortalha do amor

Adeus




RAPIDÍSSIMAS

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Ilustração: Andrés Sandoval - Revista Piauí




DIA DE FESTA


E ela não deixou por menos: apareceu na sala mais empetecada que boneca de pano. E ainda queria aplausos.



MÃO DUPLA

Diz ele: “Quem casa quer casa.” “Quem descasa também”, emenda ela.

BOM DIA

Coisa boa. Acordar sem pressa.

QUIMERA

Quem diria? Aquele amor tão intenso, aparentemente inabalável deu em nada.


O TEMPO

Quanto mais eu o tenho, menos produzo. Tudo fica para amanhã, naturalmente.

QUER PAZ?

Procure o anonimato absoluto. Poucos suportam o sucesso alheio.

PERDÃO, QUERIDA

O amor, como tudo que importa, é efêmero.

PACIÊNCIA

Hoje acordei sem pressa.  Coisa rara.  Coração sossegado, até pensei que não fosse o meu. Mas bateu meio dia. Respirei fundo. A inquietude voltou.  

DEUS É GENEROSO

Pega no colo até quem não sabe rezar.

CUMPLICIDADE

- Afinal, o que vocês são: namorados, noivos, amigos ou casados?

- Somos cúmplices.

RASTROS

Como todo amor que chega ao fim, aquele também deixou dor.


***

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AUTOESTIMA: Se de mim falam o diabo – e falam mesmo –, é porque o diabo é bom. Por Orlando Silveira


quinta-feira, 8 de novembro de 2018

HORA DA VITROLA: DOMINGUINHOS

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XOTE DAS MENINAS
De Luiz Gonzaga / Zé Dantas/Irmãos Vitale




Mandacaru, quando flora lá na seca
É o sinal que a chuva chega no sertão
Toda menina que enjoa da boneca
É sinal que o amor já chegou no coração
Meia comprida, não quer mais sapato baixo
Vestido bem cintado não quer mais vestir jibão

Ela só quer, só pensa em namorar
Ela só quer, só pensa em namorar

De manhã cedo já tá pintada
Só vive suspirando
Sonhando acordada
O pai leva ao doutô
A filha adoentada
Não come nem estuda,
Não dorme, nem quer nada

Ela só quer, só pensa em namorar
Ela só quer, só pensa em namorar

Mas o doutô nem examina
Chamando o pai de lado
Lhe diz logo em surdina
Que o mal é da idade
Que pra tal menina
Não há um só remédio
Em toda medicina

Ela só quer, só pensa em namorar
Ela só quer, só pensa em namorar


QUASE HISTÓRIAS: NOVEMBRO AZUL

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O Velho Marinheiro, nosso Lobo do Mar, não é homem de se omitir. Nunca foi. Ainda mais se o assunto for grave, como o toque retal – aquele exame que ainda assusta homens, mas salva vidas. Aproveitou a ausência das mulheres na sala e investiu contra a visita, um aparentado distante do genro, afetado que só:

-- O amigo me perdoe: vou ser sincero. Já tenho idade. Há vinte e tantos anos, todo ano, passo no urologista. Coisa boa não é. Não minto. Faço por necessidade. Não faço por safadeza. Tomo uma lapada antes, para perder a vergonha. E duas depois, pra esquecer o constrangimento. Mas faço o maldito exame. Religiosamente. Minha próstata está tinindo. É o que me dizem os médicos. 

-- É que... – ameaçou argumentar o temeroso.

-- Você está com medo de quê? De descobrir uma vocação enrustida? Seja homem, homem. O que não pode de jeito algum é fazer o exame toda semana. Nem pedir um segundo parecer médico toda vez que fizer o dito cujo e o resultado for favorável. Aí já não é precisão: é lambança.

(Orlando Silveira – Atualizado em novembro de 2018)


quarta-feira, 7 de novembro de 2018

ROLANDO BOLDRIN: CAUSO DIA - 22

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Fogueira de São João (PB)
Foto: Leonardo Silva - Jornal da Paraíba

Pois é. Uma simples raiz pode mudar o rumo de um enterro.
Tem mais: a mulher do caboclo "deu" para ganhar na Loto.
Dois casos de Rolando Boldrin



Rolando Boldrin (São Joaquim da Barra – SP 22 de outubro de 1936) é músico, ator e apresentador de televisão. Desde pequeno, aos sete anos, já tocava viola e começou uma empreitada musical junto com seu irmão aos 12 anos de idade, formando a dupla Boy e Formiga.

***

VEJA TAMBÉM

E por falar em bêbado... Conta, Boldrin. (OS)
https://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/2017/11/rolando-boldrin-em-o-causo-do-dia_30.html#comment-form

E O AMOR SAIU PELA JANELA: CENA IX

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Ilustração: Depositphotos


- Chega de mentiras, Alceu. Basta! Não suporto mais essa vida miserável que levamos. Afinal, por que você se casou comigo?

-- Por interesse, Matilde, é que não foi. Muito pelo contrário.

-- Como assim? Não estou entendendo.

-- Quer saber?

-- Quero.

-- Melhor deixar pra lá, Matilde.

-- Não vou deixar pra lá coisa nenhuma. Quero saber, diga de uma vez.

-- Matilde: você sempre foi a mais feia das meninas, a mais pobre, a mais obtusa...

Matilde esboçou um sorriso de satisfação e arriscou suas fichas num palpite furado:

-- Então, você se casou comigo por amor, não foi?

Alceu respirou fundo, resolveu mentir (amou Matilde, sim) e colocar ponto final na história arrastada, pois de uns tempos pra cá só tinha cabeça, coração e membros para Verinha, a cunhada mais nova, dona de bunda e peitos fartos.

-- Não, Matilde. Casei por pena, pena de você.

-- Cretino. Só agora, Alceu, depois de vinte anos e três filhos, você me diz isso, uma barbaridade dessas?

-- Você nunca me perguntou antes, Matilde. Não tenho culpa.

(Orlando Silveira – ATUALIZADO EM NOVEMBRO DE 2018)

 ***

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E O AMOR SAIU PELA JANELA: CENA V

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"Puta que o pariu, Paulo. Que absurdo! Você teve coragem de pagar tudo isso? Não há dinheiro que chegue. Quando for assim, não compre." Por Orlando Silveira


terça-feira, 6 de novembro de 2018

BOLDRIN DECLAMA POEMA EM HOMENAGEM A ARIANO SUASSUNA

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Ilustração: MAURÍCIO DE SOUZA


Rolando Boldrin declama o poema 
"A chegada de Suassuna no céu",
de Klévson Viana /Bule-Bule 


***

Ariano Vilar Suassuna (16/06/1927, João Pessoa, Paraíba – 23/07/2014, Recife, Pernambuco) foi dramaturgo, romancista, ensaísta, poeta e professor. Na década de 70, fundou o Movimento Armorial, que tinha como objetivo utilizar a cultura popular para formar uma arte erudita. Suas peças mais conhecidas são “Auto da compadecida”, de 1957, e “O Santo e a Porca”, de 1964. Na Academia Brasileira de Letras, ocupou a cadeira número 32, cujo patrono é Araújo Porto Alegre.

***

VALE A PENA CONFERIR

Mestre Ariano Suassuna não gosta de palavrões. E explica o porquê. (OS)
https://orlandosilveira1956.blogspot.com/2018/08/papo-firme-ariano-suassuna.html#comment-form

QUASE HISTÓRIAS: PÉ NO SACO

O fato de ser boa praça não impede ninguém de ser um chato de galocha – para usar uma expressão moderna, do tempo em que moças de família não “ficavam” (pelo menos era o que diziam para os pais). Quando muito, tiravam linha.
 
Foto: Cybercook
Ele se encaixava perfeitamente naquele perfil: boa praça, chato de galocha. Era amigo do pai, que o trouxe para trabalhar no escritório, onde eu também marcava ponto, com má vontade evidente. Odiava números. Até hoje odeio, minhas contas raramente fecham. Com o apoio do pai – apoio entusiasmado, diga-se –, ele insistia para que eu enfileirasse aquela montanha de números, de forma que não restassem dúvidas sobre quais eram os centavos, as centenas, os milhares e os milhões. Uma tortura. Queria ser diretor de teatro. Dei em nada.

Quase todos os dias, almoçávamos juntos, numa pensão em frente ao Shopping Iguatemi. Antes de sair, cumpria um de seus rituais prediletos: pegava a flanela e tirava o pó inexistente dos sapatos. No “restaurante”, havia duas mesas com seis cadeiras cada uma, se não me falha a memória. Era necessário esperar um pouco. Às vezes, muito. Enquanto isso, nós e os outros assistíamos ao noticiário esportivo.

Hora do rango. Arroz, feijão, salada e um bife para cada comensal. Ele era o mais franzino de todos. Mas era sempre o primeiro a se servir. E escolhia sempre, também, o bife maior, o que me matava de vergonha. Meu constrangimento era evidente. Até que um dia ele me explicou sua lógica:

-- Ora, todo mundo, por educação, tende a não pegar o bife maior. Já resolvo a parada logo de saída. Se ninguém vai pegar, pego eu. Ganha-se tempo.

Terminado o almoço, lá íamos nós dois de volta para o escritório. E ele passava de novo a flanela nos sapatos e me aporrinhava para que enfileirasse os números de maneira que ninguém tivesse dúvidas sobre quais eram os centavos, as centenas, os milhares e os milhões.


(Publicada originalmente em 24/11/2013. Com o título "A lógica do Rubinho")

***

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DE PEÃO A MARAJÁ


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Arte: pt.coolclips.com

Doutor Quirino rasgou o verbo: "Você não precisará vir à Câmara às segundas e sextas. Com sua habilidade, não terá dificuldades para arrumar uns bicos, a fim de reforçar o orçamento. O mais importante, porém, é que, de tempos em tempos, parte do seu salário de assessor será incorporada ao seu salário de origem. E isso ninguém mais lhe tira. Quando você se aposentar, terá uma baita aposentadoria." Por Orlando Silveira
https://orlandosilveira1956.blogspot.com/2018/08/quase-historias-de-peao-maraja.html#comment-form

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

QUASE HISTÓRIAS

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Ilustração: Arquivo Google



APARÊNCIAS

- Você já está bêbado. E ainda não são dez horas da manhã, francamente.

- Como você percebeu?

- Ora, quem não o conhece que lhe compre. É sempre o mesmo filme: começa com suas gracinhas, depois descamba para os impropérios. Afinal, o que você bebeu?

- Cerveja.

- E o que mais? Não minta.

- Cachaça. Cinco cachaças.

- Pelo amor de Deus. Que vergonha. Se ainda bebesse uísque...

- Qual a diferença?

- Ora, quem bebe cachaça é cachaceiro, pinguço, borracho.

- E quem toma uísque?

- Adicto. É mais chique, entende?


TRISTE SINA

É quase sempre assim (ou quase sempre assim): uns e outros me perguntam coisas que não sei responder. Em especial nos botecos de bairro, nas conversas de balcão de padaria. Redutos culturais da cidade, como se sabe.

Não é de hoje que me perguntam coisas que ignoro; não é de hoje que não tenho respostas, também.

Houve um tempo em que tentava justificar minha ignorância.

Bobagem. Hoje, dou de ombros. O melhor é fazer cara de paisagem, cara de conteúdo.

Em sendo ela, a ignorância, o único bem fartamente distribuído (que atire pedras o ignorante atrevido!), a tendência é que os outros considerem sua ignorância superior.

O único risco é que o tomem por gênio.


POR ORLANDO SILVEIRA

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

HORA DA VITROLA: NOEL ROSA NA INTERPRETAÇÃO DE CAETANO VELOSO, MARTINHO DA VILA, ZECA PAGODINHO E ALINE CALIXTO

FITA AMARELA

De Noel Rosa
Na interpretação de Martinho da Vila e Aline Calixto



Quero que o sol
Não invada o meu caixão
Para a minha pobre alma
Não morrer de insolação

Quando eu morrer,
Não quero choro nem vela,
Quero uma fita amarela
Gravada com o nome dela.

Se existe alma
Se há outra encarnação
Eu queria que a mulata
Sapateasse no meu caixão
Não quero flores
Nem coroa com espinho
Só quero choro de flauta
Violão e cavaquinho

Estou contente,
Consolado por saber
Que as morenas tão formosas
A terra um dia vai comer.
Não tenho herdeiros
Não possuo um só vintém
Eu vivi devendo a todos
Mas não paguei a ninguém

Meus inimigos
Que hoje falam mal de mim,
Vão dizer que nunca viram
Uma pessoa tão boa assim.


COM QUE ROUPA

De Noel Rosa
Na interpretação de Caetano Veloso e Zeca Pagodinho




Agora vou mudar minha conduta,
Eu vou pra luta pois eu quero me aprumar
Vou tratar você com a força bruta,
Pra poder me reabilitar
Pois esta vida não está sopa e eu pergunto: com que roupa?

Com que roupa eu vou pro samba que você me convidou?
Com que roupa que eu vou pro samba que você me convidou?
Agora, eu não ando mais fagueiro,
Pois o dinheiro não é fácil de ganhar

Mesmo eu sendo um cabra trapaceiro,
Não consigo ter nem pra gastar
Eu já corri de vento em popa, mas agora com que roupa?

Com que roupa que eu vou pro samba que você me convidou?
Com que roupa que eu vou pro samba que você me convidou?
Eu hoje estou pulando como sapo,
Pra ver se escapo desta praga de urubu
Já estou coberto de farrapo, eu vou acabar ficando nu

Meu terno já virou estopa e
Eu nem sei mais com que roupa
Com que roupa que eu vou pro samba que você me convidou?
Com que roupa que eu vou pro samba que você me convidou?


NOEL POR AMARILDO