terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

CHÁ DAS CINCO: OSWALD DE ANDRADE

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FOTO: ARQUIVO GOOGLE

RELÓGIO

As coisas são
As coisas vêm
As coisas vão
As coisas
Vão e vêm
Não em vão
As horas
Vão e vêm
Não em vão


PRONOMINAIS

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro.


ERRO DE PORTUGUÊS

Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena! Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português

Oswald de Andrade (1890-1954) é um dos mais significativos autores modernistas da literatura brasileira. Participou da Semana de Arte Moderna, editou o jornal "O Homem do Povo" e ajudou a fundar "O Pirralho" e a "Revista Antropofágica". É de sua autoria o Manifesto Antropófago de  1928.
FONTE: RELEITURAS.COM.BR

***

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Sou sócio majoritário, tenho 75% de participação na empresa. Eu decido. Quem criou a agência? Fui eu. Quem colocou essa porcaria de pé?  Fui eu. Quem conseguiu os melhores clientes? Fui eu.... Por Orlando Silveira


http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/2017/02/quase-historias-o-maestro-inconformado.html#comment-form

A COLUNA DO CLÓVIS

FOTO: ARQUIVO GOOGLE

TORTO

Quando a morte a ti trair
e enganar-te a inteligência,
não penses pedir clemência,
nem peças para sair.

Vista-se com domingueira,
enfeite o leito com flores,
disfarce com mil odores
a hora que é derradeira.

No entanto, se alguém em "ais"
liberta gritos primais
em ânsias de despedida,

mostre-lhe um riso morto
- o certo se escreve torto -
e apenas é o fim da vida!


Recife, 1991

POR CLÓVIS CAMPÊLO

VIDRÁGUAS: CARMEN SÍLVIA PRESOTTO



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BRUMAS

Hoje acordamos pisando em brasas
uma incapacidade de dizer de nós
um peso nas entranhas
quantos eus apagados?
hoje, nos arrastamos nas sombras de um fato
vidas...
... futuros que em nós ardem
estamos povoados por uma dor, nada, nada nos acalma
o grito nos alerta, o silêncio nos faz agir
como? onde? escrever!
brumas
sonhos apagados
hoje acordamos tristes demais
com uma incapacidade infinda
tudo , tudo sobrevoa o nada
percorremos o imaginado,
mas nada conforta
o tempo de viver chega atrasado
nuvens de cinza
uma porta sem saída
um ingresso a pagar
páginas pretas, dízimos às soltas
gavetas em sofrimentos
despedaçados,
revisitamos nossa humanidade
nas lápides que montamos
funerais
lutos de espaço
hoje acordamos pisando em sonhos,
encarcerados...


A imagem pode conter: 2 pessoas, pessoas tocando instrumentos musicais
Arte: A Melody by Beatrice Offor!

Amor, amor

muro concreto
chave nua...

sem seu ninho, clave
calor e armarinho
sou ar no vento, casa
e pauta desalmada de rua...

***
***

Carmen Silvia Presotto 
é Coordenadora Editorial na 
empresa Vidráguas.

É também autora dos seguintes livros:
Postigos: Poesia. Editora Vidráguas, 2010.
Encaixes: Poesia. Editora Vidráguas, 2006.             
Dobras do Tempo: Poesia. Editora Alcance, 2003.

FOTOGRAFIAS: HENRI CARTIER-BRESSON


Perto de Estrasburgo, França, 1944


Hamburgo, Alemanha. No papel lê-se:
“Procuro qualquer tipo de trabalho.” 1952-1953



Estudantes comunistas manifestam-se contra o Mercado Negro. 
Por trás está o Banco Soon, do sogro de Chiang Kai-shek, 1949



Um jogo de football, Michigan vs. Northwestern, 1960


Nápoles, Itália, 1960


Romênia, 1975


Hyères, 1932



Albert Camus, Paris, 1944


Truman Capote, New Orleans, 1947


Espera na Praça Vermelha para visitar o túmulo 
de Lenin, 1954

***


Henri Cartier-Bresson, um dos fotógrafos mais significativos do século XX, inclusive intitulado por muitos profissionais como o pai do fotojornalismo, nasceu na cidade de Chanteloup, no distrito de Seine-et-Marne, na França, no dia 22 de agosto de 1908. Ele integrava uma próspera família do ramo têxtil e, quando ainda era um menino, recebeu um presente que marcaria seu futuro profissional, uma máquina fotográfica Box Brownie...

Ao retornar de uma viagem a África, depois de contrair uma enfermidade, Bresson passou pelo município de Marselha e, nesta ocasião, em 1931, ele teve de fato a certeza de que a fotografia seria seu destino, ao contemplar uma foto tirada pelo húngaro Martin Munkacsi, a qual revelava três jovens negros correndo rumo ao mar, no Congo.

Logo depois do final da Segunda Guerra Mundial, em 1947, Bresson criou a famosa agência fotográfica Magnum, em parceria com Bill Vandivert, Robert Capa, George Rodger e David Seymour. Suas produções, neste momento, se tornam mais requintadas. Ele publica fotos célebres nas revistas Life, Vogue e Harper’s Bazaar, percorrendo, a trabalho destes veículos, boa parte do Planeta.

Bresson é o fotógrafo europeu pioneiro na revelação do cotidiano na União Soviética, em pleno regime comunista, com autorização oficial para tanto, em 1954, depois da morte de Stalin. Cinco anos após este feito ele registra o décimo aniversário da Revolução Popular Chinesa, transitando pelas vias de Pequim.

A partir de 1974 o mestre da fotografia se dedicou ao desenho e ao intuito de mostrar suas obras. Sua produção fotográfica transpira verdade, uma vez que ele acredita que a câmera pode traduzir o mundo real em imagens, flagrando-as em suas manifestações mais espontâneas; daí ele ter uma profunda aversão por fotos artificiais, editadas conforme o desejo de quem foi retratado ou do público consumidor.

Consigo, ele traz somente uma antiga Leica, com uma objetiva de 50mm, e filmes preto & branco, pois não tem afinidade alguma com implementos fotográficos mais intrincados. Bresson cria, em 2000, uma fundação à qual empresta seu nome. Ele morre em dois de agosto de 2004, aos 95 anos, na Provença, em seu país natal.

FONTE: WWW.INFOESCOLA. COM


QUASE HISTÓRIAS: O MAESTRO INCONFORMADO

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-- Marcelo, juro por Deus: nos conhecemos há décadas, mas cada vez menos consigo entendê-lo. Não compreendo o que o leva a tomar certas atitudes. Além de beber, você anda cheirando. Só pode ser isso. Ou, então, enlouqueceu de vez. Vai saber.

-- Paulinho, já sei aonde você quer chegar. Está todo melindrado porque demiti o diretor de arte. Sou sócio majoritário, tenho 75% de participação na empresa. Eu decido. Quem criou a agência? Fui eu. Quem colocou essa porcaria de pé?  Fui eu. Quem conseguiu os melhores clientes? Fui eu. Quem desenvolveu as melhores campanhas? Fui eu. Porra!  Quer mais? Vamos lá. Quem nos tempos de bonança fez os investimentos em aplicações financeiras e imóveis, na cidade, na praia e no campo? Fui eu, meu caro. Se eu não tivesse aberto as portas para você, o que seria de sua família hoje? Seus filhos, sua mulher e você estariam na mesma pindaíba em que se criaram. Ou não? Fala a verdade.

-- Impossível falar com você. Impossível argumentar com quem se julga Deus.

-- Olha aqui: não cheguei a ser Deus, mas cheguei bem perto. Na nossa área, não tinha para ninguém, não. Tinha?

O silêncio pesado e arrastado se impôs. Tempo suficiente para que os dois consumissem, sem palavras ou resmungos, doses generosas de uísque e abarrotassem os cinzeiros.

Paulinho resolveu retomar o diálogo improvável:

-- Marcelo, não quero discutir, mas preciso entender o motivo que o levou a demitir o Caio. O cara é ótimo, baita profissional, trabalhador, criativo. Além de tudo, é boa gente. Quem saiu perdendo foi nossa empresa, meu caro. Ele arruma emprego em qualquer lugar, em qualquer momento, independentemente do tamanho da crise econômica. Ainda é capaz de levar para o novo emprego alguns de nossos clientes, se ele não montar a própria agência.

-- Sorte dele.

Novo silêncio, nova rodada de uísque (agora, sem gelo) e cigarros. Dessa vez, foi Marcelo, o sócio majoritário, quem retomou a falação:

-- Paulinho, você quer mesmo saber por que demiti o Caio?

-- É evidente que sim.

-- Ele é tudo de bom, como você falou agorinha. O problema dele é a vaidade. Andava dizendo para todo mundo e para amigos nossos que, sem ele, nós já tínhamos quebrado. Que era o cérebro da agência.

-- Mas, ainda que ele tenha feito isso – o que duvido –, qual o problema, Marcelo? Você já foi o grande “músico”, o criador, hoje é o maestro da companhia. Não lhe basta?

-- Aqui, jamais alguém brilhará mais que eu. Agora chega, é tarde. Tenho compromisso com Dora. Você tem até segunda para me dizer quanto quer pelos seus 25%. Compro sua parte, toco a empresa do meu jeito. (OS - FEVEREIRO 2017)   

POLÍTICA/OPINIÃO: RICARDO NOBLAT

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FOTO; FABIO POZZEBOM/AGÊNCIA BRASIL



ESQUEÇAM O QUE ELE ESCREVEU

O futuro ministro do Supremo Tribunal Federal, 
Alexandre de Moraes, deveria com justa razão 
se apropriar da frase para que não sigam 
cobrando o que de fato ele escreveu

BLOG DO NOBLAT
07/02/2017 - 08h04

Fernando Henrique Cardoso jura até hoje que jamais pediu para que esquecessem o que ele havia escrito como sociólogo antes de se eleger presidente da República e governar o país por oito anos seguidos. Não adiantou: até hoje lhe atribuem a frase “Esqueçam o que escrevi”.

O futuro ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, deveria com justa razão se apropriar da frase para que não sigam cobrando o que de fato ele escreveu, e preferiria esquecer agora.

Em tese de doutorado apresentada na Faculdade de Direito da USP, em julho de 2000, Moraes defendeu que, na indicação ao cargo de ministro do STF fossem vedados os que exercem cargos de confiança “durante o mandato do presidente da República em exercício”.

Assim se evitaria “demonstração de gratidão política” da parte do indicado em relação a quem o beneficiou com a indicação. A valer tal critério, ele próprio estaria impedido de ser nomeado ministro do STF pelo presidente Michel Temer, que o nomeou Ministro da Justiça.

O veto sugerido por Moraes está no ponto 103 da conclusão da tese. Ele diz:

“É vedado (para o cargo de ministro do STF) o acesso daqueles que estiverem no exercício ou tiveram exercido cargo de confiança no Poder Executivo, mandatos eletivos, ou o cargo de procurador-geral da República, durante o mandato do presidente da República em exercício no momento da escolha, de maneira a evitar-se demonstração de gratidão política ou compromissos que comprometam a independência de nossa Corte Constitucional”.

Em nome de Moraes, embora sem sua autorização, peço para que esqueçam o que ele escreveu.

AS CHARGES DO DIA


A imagem pode conter: texto
ROQUE SPONHOLZ




Charge do dia 07/02/2017
MIGUEL - JORNAL DO COMMERCIO



PAIXÃO - GAZETA DO POVO (PR)



AROEIRA



Charge (Foto: Antonio Lucena)
ANTONIO LUCENA - BLOG DO NOBLAT



Charge (Foto: Chico Caruso)
CHICO CARUSO - O GLOBO




JOTA A - JORNAL O DIA (PI)




BENETT - GAZETA DO POVO (PR) 




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ALPINO



AMORIM - CHARGE ON-LINE



Charge (Foto: Antonio Lucena)
ANTONIO LUCENA  
BLOG DO NOBLAT




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ROQUE SPONHOLZ

domingo, 5 de fevereiro de 2017

CRÔNICA: WALCYR CARRASCO

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ILUSTRAÇÃO: ARQUIVO GOOGLE

DICAS DO MÉDICO:
BOTOX, LASER, LIPO E PÓ FACIAL

Você vai conseguir fechar os olhos.
Mas terá de fazer a barba atrás das orelhas.
E aproveite para fazer uma lipo

POR WALCYR CARRASCO
ÉPOCA DIGITAL – 31/01/2017

Marquei com o dermatologista para mostrar minhas pintas. Tornou-se rotina há anos, quando descobri uma perigosa. Não era nada, mas podia ter sido. Pintas são traiçoeiras. Escolhi um profissional que oferece outras coisinhas. Digamos, alternativas estéticas. Em minha juventude, homem que usava perfume demais já sofria bullying. Não tenho o hábito de passar cremes e coisas do tipo, embora compre. Vejo um creminho perfumado, gostoso, compro. Guardo para usar algum dia e vou deixando. Ah, que preguiça!

O médico observou minhas pintas com lupa. Tudo o.k. Aproveitei para saber de tratamentos estéticos. Ele comentou:

– Esses vincos na testa. A gente pode aplicar Botox.

– Pensei que me davam uma aparência sábia!

–  Envelhecem.

Olhei os sulcos. Pareciam marcas de uma moto na areia da praia.

– Do lado dos olhos também, veja quantas preguinhas.

No espelho, aumentadas, não eram preguinhas, mas um leque. Minha dúvida:

– Doutor, vou poder fechar os olhos?

Explicou que não havia riscos. Essa história de não fechar os olhos acontece mais com plásticas exageradas. A pele fica tão esticada que as pálpebras não descem.

Mostrou o laser. Há várias coisas que se podem fazer com um bom laser. Tirar rugas.

– Dói?

– Dá uma sensação de queimado, mas não é demais.

– Seja franco. É churrasco a laser?

Certas perguntas não merecem respostas, foi o que concluí. O doutor fez uma sessão demonstração que, em 15 minutos, deixou meu queixo mais fino.

–  Todas as manhãs, passe este creme.

Meu problema é esse. A palavra “manhã”. Acordo tarde. Acordar é modo de dizer. Sinto-me como Drácula empurrando a tampa do caixão, num processo longo e sofrido. Arrasto-me para escovar os dentes e tomar banho. Como me dedicar ao creminho em tal estado psicológico?

– Não use sabonete comum para lavar o rosto à noite. Vou pedir uma espuma de romã, por manipulação.

Por que romã, e não uva, abacaxi ou melão? Ele devia ter seus motivos.

– Às vezes, fico com a aparência cansada, doutor.

– Tem esse pancake aqui. É muito usado por homens, porque é discreto. Veja. É quase do tom da sua pele.

Observei o pancake. O tom. Já vi muitos amigos, absolutamente héteros, quero ressalvar, com a pele naquele tom.

– Você também pode ressaltar os olhos com esse delineador. É discreto. E você devia usar um xampu especial.

– Meu cabelo é tranquilo.

– Vou passar a receita de um xampu que hidrata, ficará melhor.

– Doutor, sinceramente. Preciso de plástica?

– Bem... aqui e aqui. Se der uma puxadinha, mais uma...Vai adquirir uma aparência mais leve.

– Morro de medo de ficar esticado como um tamborim.

– Depois a pele relaxa.

– Além do mais, e a barba? O que acontece?

– Terá de fazer barba atrás da orelha. É comum.

– E as orelhas, não vão bater palmas atrás da cabeça?

– Talvez fiquem um pouco afastadas, mas você disfarça com o cabelo. Ah, sim. Se fizer plástica no rosto, aproveite para tirar um pouco da barriga. Faça uma lipo.

Já fiz, confesso. A lipo em si não foi dolorosa. Mas depois, ao longo de dois meses, é preciso usar um colete apertado, para dar forma ao estômago. No verão, ferve. E a barriga voltou. Voltará sempre, pois não sou de academia.

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WALCYR CARRASCO (FOTO: DIVULGAÇÃO)


– Você tem de fazer exercícios para se manter – aconselhou o médico.

– Também preciso escrever. Trabalhar. Cuidar das pequenas coisas do cotidiano.

– Pense em como será feliz ao se olhar no espelho. Você tem sorte. Tem maxilar.

– Espera, doutor. Todos nós não temos?

– Alguns rapazes têm, mas muito fino.

Então eles aplicam um produto que molda o osso, e o maxilar fica quadrado.

Lembrei de alguns astros de televisão. Rosto quadradíssimo. Huummm...

Fui para casa pensativo. Um amigo acaba de operar a gengiva inteira. Tirou 8 milímetros para ressaltar os dentes. Também fez a remodelação do maxilar. Uma tatuagem para encobrir a falha das sobrancelhas. E operou por dentro da gengiva para afinar o rosto. Tem um filho e diz com o maior orgulho:

– O garoto é minha cara.

Será que o menino vai ficar parecido com as plásticas?

Fato: homem com pancake é comum na noite. Fato: homem gosta de ser bonito. Fato: eu adoraria fazer tudo isso se não fosse preguiçoso. Sou do tipo que rói unha e não tira a cutícula. Mas ser masculino, hoje, significa ter seu ritual de beleza.

AS CHARGES DO DIA




NANI



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SPONHOLZ


MÁRIO - TRIBUNA DE MINAS



THIAGO LUCAS - CHARGE ON-LINE




MOISÉS - BLOG DO MOISÉS


Charge (Foto: Chico Caruso)
CHICO CARUSO - O GLOBO


Charge (Foto: Antonio Lucena)



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SPONHOLZ




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SPONHOLZ

sábado, 4 de fevereiro de 2017

CHÁ DAS CINCO: ADÉLIA PRADO

A BELA ADORMECIDA


Estou alegre e o motivo beira secretamente à humilhação,
porque aos 50 anos não posso mais fazer curso de dança,
escolher profissão, aprender a nadar como se deve.
No entanto, não sei se é por causa das águas,
deste ar que desentoca do chão as formigas aladas,
ou se é por causa dele
que volta e põe tudo arcaico,
como a matéria da alma,  se você vai ao pasto,
se você olha o céu, aquelas frutinhas travosas,
aquela estrelinha nova, sabe que nada mudou.

O pai está vivo e tosse,
a mãe pragueja sem raiva na cozinha.
Assim que escurecer vou namorar.
Que mundo ordenado e bom!
Namorar quem?
Minha alma nasceu desposada
com um marido invisível.
Quando ele fala roreja
quando ele vem eu sei,
porque as hastes se inclinam.
Eu fico tão atenta que adormeço  a cada ano mais. 
Sob juramento lhes digo:  tenho 18 anos.
Incompletos.

***

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Há momentos em que o olhar vago nada vê, 
exceto o passado em preto e branco. 
Por Orlando Silveira, em "Rapidíssimas"

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