domingo, 2 de outubro de 2016

POLÍTICA/OPINIÃO: JOSIAS DE SOUZA

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NO INÍCIO, ALCKMIN AVALIAVA QUE MARTA
E RUSSOMANO DISPUTARIAM SEGUNDO TURNO

Sem Doria, o candidato tucano seria Andrea Matarazzo,
amigo de Serra. E os aliados de Alckmin o convenceram
de que não seria uma boa ideia oferecer a Serra a chance
de acoplar às suas pretensões eleitorais a máquina
da maior prefeitura do país

Por Josias de Souza
Em UOL - 02/10/2016 - 03:10

Nem Geraldo Alckmin apostava que o candidato do PSDB à prefeitura de São Paulo, João Doria, teria o desempenho fulgurante que as pesquisas prenunciam. Na largada da campanha, o governador tucano avaliava que a eleição na capital paulista seria definida num segundo turno entre Celso Russomano e Marta Suplicy. Ele só apadrinhou Doria para bloquear os planos de José Serra, um de seus rivais na disputa pela vaga de presidenciável do PSDB em 2018.

Sem Doria, o candidato tucano seria Andrea Matarazzo, amigo de Serra. E os aliados de Alckmin o convenceram de que não seria uma boa ideia oferecer a Serra a chance de acoplar às suas pretensões eleitorais a máquina da maior prefeitura do país. Se Matarazzo realizasse o sonho de se tornar prefeito, seu triunfo seria uma vitória de Serra. Se protagonizasse um fiasco, sua derrota seria associada a Alckmin.

Fugindo ao seu estilo, sempre acomodatício, Alckmin achou melhor acionar os cotovelos para ajudar Doria a prevalecer sobre Matarazzo nas prévias tucanas. Empregou tanta força que empurrou Matarazzo para o PSD de Gilberto Kassab. Também amigo de Serra, Kassab cuidou de persuadi-lo a fazer de Matarazzo o vice de Marta Suplicy, cuja passagem pela prefeitura ele chamava de “nefasta”.

No final de agosto, Doria amealhava 5% no Datafolha. Chegou à véspera da eleição com 38% —ou 44% se computados apenas os votos válidos. A despeito das dúvidas do governador e do nariz torcido da cúpula do tucanato, as legendas que apostam no projeto Alckmin-2018 providenciaram o tempo de propaganda televisiva de que Doria necessitava para fazer seu proselitismo. Na origem, tomaram parte dessa articulação o PSB do vice-governador Márcio França, o DEM, o PPS e o PV.

Alckmin não chega a ser um portento em termos de popularidade. Pesquisas internas indicam que seu governo é aprovado por algo como 28% dos eleitores da capital paulista. Mas seus aliados sustentavam, desde o início da campanha, que o governador não precisaria nem transferir todo o seu prestígio para carregar Doria até o segundo turno.

Estimava-se, então, que algo como 19% seria o bastante para levar o candidato ao round final. E apostava-se que Doria superaria esse patamar. Numa entrevista à Folha, veiculada em 13 de agosto, o vice-governador Márcio França fizera uma aposta. O repórter perguntou: Dória vai crescer com a TV? E ele: “Nenhuma dúvida. O Alckmin é um conceito político. […] Parte de 25%.”

JOSIAS DE SOUZA É JORNALISTA

Um detalhe monetário ajudou a soldar uma coligação partidária ao redor de Doria: milionário, o candidato revelou-se, por assim dizer, autofinanciável. Um diferencial portentoso numa eleição em que as doações eleitorais privadas estão proibidas.

Com televisão e dinheiro, Doria usou sua intimidade com as câmeras para construir uma fábula. Colocou em pé o enredo do antipolítico que se dispõe a fazer para os paulistanos o favor de introduzir na prefeitura a eficiência de uma gestão à moda empresarial. Os adversários de Doria, também capazes de tudo, revelaram-se incapazes de todo.

Sem uma contestação à altura, o discurso de Doria encantou um pedaço do eleitorado de São Paulo. É mais uma evidência de que, com uma boa dose de marketing, o eleitor brasileiro acredita até em ovo sem casca.

POLÍTICA/OPINIÃO: RICARDO NOBLAT


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TUDO O QUE É SÓLIDO
DESMANCHA NO AR

A mais grave crise econômica da história do país
desde os anos 30 do século passado atingiu
fortemente o mercado das pesquisas eleitorais

Por Ricardo Noblat
Em 02/10/2016 - 01h30


Bons tempos aqueles em que os institutos de pesquisa disputavam entre si para ver qual deles acertaria o maior número de prognósticos eleitorais. Eles admitiam erros ao longo das campanhas, mas tudo faziam para que suas últimas pesquisas, divulgadas na véspera da eleição, antecipassem os resultados finais.

Era grande o número de institutos contratados por candidatos, emissoras de televisão e jornais. E maior ainda o número de pesquisas. Ibope, Datafolha e Vox Populi chegavam a fazer pesquisas de boca de urna ao longo do dia da eleição. E no fim da tarde do domingo, a poucas horas da abertura das urnas, cravavam o que sairia delas.

A mais grave crise econômica da história do país desde os anos 30 do século passado atingiu fortemente o mercado das pesquisas eleitorais. Poucas foram contratadas este ano. E o crescimento das redes sociais e da sua audiência aumentou a volatilidade do voto. Acrescente-se a Lava Jato, o impeachment, as Olimpíadas, uma campanha mais curta e sem grana...

Resultado: o imprevisível. Principalmente nas grandes cidades onde se travam batalhas acirradas. É o caso do Rio, São Paulo e Porto Alegre, por exemplo. Há candidatos favoritos a passar para o segundo turno – Crivela, Dória e Melo. Mas seus possíveis adversários no segundo turno só se tornarão conhecidos hoje. E talvez só lá pelo meio ou fim da apuração.

O que se pode desde já dizer sobre este domingo de fortes emoções é que os institutos disputam o troféu do que errará manos. E que o PT parece destinado de fato a ser varrido das prefeituras de quase todas as capitais. E de algo como mais da metade das cidades que por ora comanda.

POLÍTICA/OPINIÃO: RICARDO BOECHAT


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RICARDO BOECHAT É JORNALISTA (GOOGLE)



DEMOCRACIA SEM BALA

Pela primeira vez de forma tão ostensiva, quadrilhas de perfis diversos atuaram numa campanha com o objetivo de formar bancadas próprias

Por Ricardo Boechat
Site Isto É – 30/09/2016

Há um fenômeno novo no panorama político brasileiro. Ele se expôs em dimensão inédita na temporada eleitoral que termina neste domingo – na grande maioria das cidades, e terá prosseguimento em outras, onde vai haver segundo turno – com a definição dos vitoriosos entre os mais de 450 mil postulantes a mandatos de prefeito e vereador.

Essa novidade passa ao largo do campo ideológico, programático ou partidário. Não inspira debates, nem almeja conquistar mentes. Seu combustível é o medo. Pela primeira vez de forma tão ostensiva, quadrilhas de perfis diversos atuaram numa campanha com o objetivo de formar bancadas próprias.

Segundo o site “Congresso em Foco”, apenas em agosto e setembro, 20 candidatos foram assassinados em diversas cidades. Só no Rio de Janeiro, em um ano, a polícia contabilizou 16 mortos, enquanto o jornal “O Estado de S. Paulo” identificou 96 vítimas nos nove primeiros meses de 2016, numa lista que inclui, também, cabos eleitorais e assessores diversos.

É fato que a cada dois anos o caminho para as urnas contabiliza atentados aqui e ali. São muitos os registros do gênero na história das eleições, mas o combustível predominante da carnificina sempre foi a rivalidade política entre concorrentes.

O que distingue o cenário atual dos anteriores, além do elevado número de vítimas, é o aumento das ocorrências nos grandes centros urbanos (o interior sempre predominou nas estatísticas) e a natureza dos ataques. Tudo indica que não estamos diante de um agravamento da “clássica” violência eleitoral, mas de claros sinais indicando que o crime organizado acionou seu poder de fogo para inserir-se no campo formal da política, abocanhando fatias da representação parlamentar e do comando da máquina pública. Muitos países já enfrentam essa ameaça e todos pagaram caro, especialmente os que ainda lutam para derrotá-la.

Um erro comum, que encareceu esse preço coletivo, foi menosprezar o risco da situação.

Embora representem gigantesco desafio para a sociedade, as variadas delinquências que convivem com a política no Brasil podem ser derrotada “por dentro” da própria política, através da lenta, mas eficaz, depuração eleitoral e do aprimoramento das leis.

Já a estreia do crime organizado nesse ambiente, com suas escalas e métodos, projeta outro horizonte, ainda estranho a nós, mas, sem dúvida, muito mais difícil de enfrentar.

sábado, 1 de outubro de 2016

POLÍTICA/OPINIÃO: JOSIAS DE SOUZA


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EXIMIR-SE CULPA NÃO
ABSOLVE GOVERNO TEMER

Temer chegou ao Planalto sem votos,
como solução constitucional para o descalabro.
Tem diante de si um caos à espera de um gerente.
Ou mostra serviço ou logo será tão culpado
 quanto sua antecessora.

Por Josias de Souza – 30/09/2016 – 15:40


Dilma Rousseff deixou para Michel Temer tudo o que tinha: um Estado quebrado, inflação alta, recessão recorde e desemprego a pino. Nesta sexta-feira, num evento público, Temer tomou distância da herança. Fez isso, segundo explicou, para que daqui a dois ou três meses não o acusem de ser o responsável pelo “passivo”. É sempre bom deixar as coisas mais claras. Entretando, chover no molhado não resolverá o estrago provocado pela tempestade.

Por trás do legado maldito “estão homens e mulheres que pagam um preço inaceitável”, discursou Temer. “Chegamos a quase 12 milhões de desempregados. E reitero que não foi culpa minha.” Beleza. O problema é que, se Deus tiver que aparecer para os desempregados, não se atreverá a surgir em outra forma que não seja a de um contracheque no final do mês. Um presidente que não seja capaz de apresentar mais soluções do que lamentações se parecerá sempre com um culpado.

É longa a lista de problema, disse Temer, antes de pintar o quadro com tintas fortes: ''A crise que enfrentamos é a mais grave da nossa história. Não quero assustá-los, mas motivá-los para que juntos possamos sair dessa crise. A causa é basicamente interna e fiscal. O Estado endividou-se muito além de sua capacidade, e gerou recessão e desemprego.''

No ano passado, quando a Câmara se preparava para abrir o processo de impeachment contra Dilma, o Datafolha informou que 60% dos brasileiros desejavam o impedimento da então presidente petista e também do seu vice. Depois que a deposição foi confirmada pelo Senado, Temer não teve os cem dias de tolerância a que todo novo governo tem direito, segundo uma lei não escrita mas geralmente respeitada na política.

A deferência da trégua foi negada a Temer por duas razões: 1) seu governo não é novo. Além de ser sócio do fiasco petista, o PMDB manteve no primeiro escalão o mesmo centrão partidário que vendeu sua fidelidade a Lula e Dilma nos últimos 13 anos; 2) a herança de Dilma não caiu no colo de Temer por acaso. Cúmplice do petismo na degradação ética, o PMDB lutou por ela.

Assim, Temer chegou ao Planalto sem votos, como solução constitucional para o descalabro. Tem diante de si um caos à espera de um gerente. Ou mostra serviço ou logo será tão culpado quando sua antecessora.


JOSIAS DE SOUZA É JORNALISTA
 

IMAGENS: CIRCO

FERNANDO BOTERO

 


 SALVADOR DALI



 CANDIDO PORTINARI



ANITA MALFATTI

 


CANDIDO PORTINARI

 


TOULOUSE-LAUTREC

 

RENOIR

 


 DI CAVALCANTI



FERNANDO BOTERO

  

 
KIRCHNER

 


 PABLO PICASSO