terça-feira, 22 de outubro de 2013

OFERTA E PROCURA

O carroceiro estava inconformado. E não escondia sua revolta de ninguém:

- R$ 1,20! R$ 1,20 o quilo da latinha! Um quilo é igual a 62 latas vazias. Não adianta por areia pra enganar. Os homens são espertos. Se for pego enganando, não vende mais ali e em lugar nenhum na redondeza. Esse negócio já foi bom. Cheguei a receber R$ 1,80 por quilo. Agora, o que dá dinheiro mesmo é juntar só o lacre da lata. Aquilo vale ouro. Se encher duas garrafas de Coca de dois litros e meio, o cara está boneca. Compra o que quiser. Compra até cadeira de roda.

- Cadeira de rodas?


- É mano. Estranha, não. A gente nunca sabe o dia de amanhã.

MAFALDA, A ENCRENQUEIRA


Irene, a neta predileta, aproveitou que estava a sós em casa com o Velho Marinheiro, nosso Lobo do Mar, e resolveu puxar dois dedos de prosa. Apesar das confusões recentes, ele parecia estar tranquilo. O dedão do pé estava em paz; o bicho de pé imaginário, também. Bom sinal.

-- Vovô: não vou mentir. Sempre achei que o senhor era o encrenqueiro da família. Não que não seja. Às vezes, me perguntava de onde minha avó tirava tanta paciência. Hoje, vejo que vovó também não é flor que se cheire. Anda insuportável. A gente não pode dizer nada que ela implica, diz que a gente não fala: berra. Parece que está com os nervos à flor da pele.

Nosso Lobo do Mar fitou o infinito, como se procurasse um porto seguro, uma ilha repleta de Iracema peladas. Esboçou um sorriso de sabedoria. E foi direto ao assunto:

-- A culpa é nossa, Irene. Nossa desgraça começou quando você e sua mãe a levaram nesse médico de ouvidos. Mafalda sempre foi meio surda, mas nunca gostou de usar aparelhos, e os que ela usou eram chinfrins. Achava besteira gastar dinheiro com isso. Há quarenta anos, eu grito, para que ela me ouça. Não sei como ainda não perdi a voz. Agora, tudo mudou. Dia desses, ela me disse que eu pigarreava alto demais. Mas a última pigarreada que dei foi na esquina de baixo, quando voltava da padaria. Esse amplificador é muito forte.

-- E o que nós vamos fazer agora? – quis saber a neta.

-- Não dá para diminuir o som desse treco?

-- Já está no mínimo, vovô.

-- O quê? Ainda dá pra aumentar o volume? Que Deus nos livre e guarde!

E o Velho Marinheiro voltou a buscar com os olhos miúdos o infinito. Coçou o dedão por alguns minutos e disparou:

-- É mais fácil Mafalda voltar ao seu estado natural, de ouvidos curtos, do que eu reaprender a falar baixo. Vou dar um sumiço na engenhoca. Ela perde tudo mesmo, vai achar que esqueceu em algum lugar. Depois, você vai e compra outro, mas igual ao antigo, de pouca potência.

-- Será que dá certo?

-- Vamos tentar. Faço tudo em nome da paz doméstica. E de meu amor por Mafalda. (setembro/2013)




POVINHO ORDINÁRIO

Foto: Agência CNT


No trânsito, é impossível saber quem é mais bronco: motoristas ou pedestres. Não ignoro que almas justiceiras, amigas dos pobres e indefesos, ante uma dúvida dessas, ficam assanhadas. “Absurdo! Ninguém respeita os pedestres!” Que se assanhem à vontade. Estou convencido de que uns e outros – motoristas e pedestres – são igualmente indecentes, para usar um termo leve como uma salada de alface. Outros e uns se merecem. Sei que há exceções, claro. Mas os politicamente corretos que façam sua defesa.

Hoje, estacionei o carro junto ao meio-fio numa praça bastante movimentada. Fiquei cerca de cinco minutos ali. Foi tempo mais que suficiente pra me convencer de que estamos na idade da pedra lascada. O sinal verde para veículos não intimidou os valentes, que atravessavam sem qualquer cerimônia a rua movimentada. Sobre a faixa de pedestres, com o sinal vermelho para eles. Entre os incautos, velhos que mal podiam dar o passo, gente de meia idade, crianças puxadas pela mãe, jovens e até babá (deduzi pela roupa branca) empurrando cadeira de rodas com um acidentado a bordo.

Dez minutos depois, a caminho de casa, me deparo com legião de estudantes, molecada de 13/14 anos, atravessando, em bando, fora da faixa e com o sinal aberto para os veículos uma avenida muito mais movimentada que a rua em que há pouco me encontrava. Com um agravante: ali, carros, motos, caminhões e ônibus trafegam nos dois sentidos.

Para educar essa gente – motoristas, motoqueiros, ciclistas e pedestres –, quantos séculos serão necessários? (março de 2013)


TEMPO DE DESPERTAR

Já fui muito festeiro, não sou mais. Se houvesse uma enquete para definir o mês mais chato do ano, cravaria, sem pestanejar: dezembro. É um porre de bebida ordinária. É pior que cuecas e sapatos apertados.  Não chega a aleijar, mas incomoda.

Os preços disparam e raramente se encontra nas lojas o que se procura. O trânsito consegue ficar infinitamente pior do que já é. O telefone não para: de asilos a creches, todos querem uma doação extra. Os funcionários do prédio esperam uma “caixinha gorda”, os balconistas da padaria também. O ajudante do açougueiro, o carteiro e os medidores de água, luz e gás não fogem à regra. Caracas: esta gente já não recebe o décimo-terceiro salário?

Não sei o que é pior: as festas de Natal ou as comemorações do dia 31. Todo mundo de olho no relógio. Afinal, meia-noite é a hora de abraçar com entusiasmo aquele parente que você paga para não ver ao longo do ano. Aquela felicidade forçada é de arrebentar corações pouco valentes, como o meu. Pior que isso, só o tal de “amigo oculto”. Perde-se muito tempo e dinheiro com essa bobagem. Em geral, você dá ao “amigo” o que ele abomina, e recebe algo que para nada lhe serve. É a lei da vida: aqui se faz e aqui se paga. Isso quando não ocorre de você dar um panetone para a tia e receber da tia um panetone, da mesma marca e tamanho. É patético.

Ah, temos os foguetórios, anunciando a chegada do novo ano. Todo mundo de boca aberta, olhando para o céu e dizendo em uníssono: “Que lindo!” Francamente. Que dizer, então, das simpatias? Calcinhas brancas para ter paz; amarelas para ter dinheiro. E por aí vai. Suponho que as devassas, por coerentes e pragmáticas, não usem calcinha alguma. 

Ainda bem que não há mal que sempre dure. Janeiro logo chega. É tempo de pôr em marcha tudo aquilo que, há duas décadas, em marcha prometemos pôr. Tempo de recomeçar – a contar os dias que faltam para dezembro próximo.




O QUE EU PENSO SOBRE ISSO?

Por pouco, muito pouco mesmo – como dizia aquele locutor esportivo –, a conversa entre o candidato e seu marqueteiro não termina em alteração.

-- Então, meu estrategista, o que eu penso sobre aquele assunto? – quis saber o candidato, com aquela impaciência típica de candidato, de gente que não pode perder tempo.

Ilustração: canaldonicolau.blospot.com
-- Vai dizer o que a maioria quer ouvir. Nada mais, nada menos – respondeu o assessor.

-- E o que, meu querido, a maioria quer ouvir?  

-- Ainda não sei.

-- Não é possível! Você ganha uma fortuna e não sabe me dizer o que eu penso sobre esse assunto! Nunca tive uma assessoria tão fraca.

-- Calma, calma, sem estresse. Mandei fazer uma pesquisa pra saber o que você vai pensar. Os resultados estão chegando. Até amanhã, na hora do almoço, tenho a resposta. Até lá, candidato,
fuja, dos repórteres. (março/2013)

EFEITO TOSTINES

 Eles são iguais a gente?/Foto: Agência Câmara
Políticos, em geral, gostam de dizer que o Parlamento é a cara da sociedade. Talvez seja uma maneira de aliviar suas culpas. Ou, melhor dizendo: talvez seja uma forma dissimulada de pôr os cidadãos contra a parede: “Se estivesse em meu lugar, faria o mesmo que eu faço. Ou faria pior ainda. Então, por que você me rejeita tanto?”

Durante muito tempo, me recusei a acreditar que o Parlamento fosse a “cara” da sociedade. “Não podemos ser tão feios, sujos e malvados como a maioria deles!”, me indignava. Hoje, já não tenho a mesma convicção. Tenho escrito uma série de textos curtos sobre isso. Em breve, estarão no blog que estou finalizando, sob a rubrica “A ética do cruz-credo”. Registro papos de bar e de família, comportamentos no trabalho, flagrantes do dia-a-dia. Conclusão: se falta – e falta – decoro no Olimpo; na planície, ele também não se destaca pela abundância.

O Parlamento é o que é por que a sociedade é assim, ou a sociedade é assim por que o Parlamento é o que é? Ninguém precisa ficar nervoso, não. Sei que há muita gente boa por aí, mas também sei que há gente boa por lá. A desgraça é que, por aqui e por lá, quem presta é minoria.


BODAS DE OURO

- Cadê meu chinelinho de quarto, meu bem?

- Não sei, não, querida. Vou procurá-lo.


QUE TEMPOS!

No passado, era assim: político com pretensões de ascender na carreira (e qual político não as têm?) contratava jornalista para “sair” na imprensa, divulgar seu trabalho e ideias etc. e tal. A concorrência era acirrada. Parlamentares de uma mesma bancada competiam entre si para ver quem saía mais e melhor na fita. Mesmo os medíocres, que sempre são a maioria, queriam porque queriam ter um assessor de imprensa. Partiam do equívoco de que assessores fazem chover. Hoje, não mais. Mudou tudo. Político contrata jornalista pra se esconder da imprensa. Ou para “gerenciar crises”, que não se cansam de provocar.

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SEJAMOS JUSTOS

Nem sempre é da operadora a culpa por seu telefone não tocar.

SANTÃO, 70

14h30. Domingo. Mafalda estava amuada que só. De ciúmes. E o Velho Marinheiro, tocado por três ucas e duas cervejas, nada mais que isso, entrou livre, leve e solto em casa. De volta do aniversário do amigo, grande Santos, que fazia 70 anos naquele dia da graça de Nosso Jesus Cristo. E foi direto ao assunto:

-- Mafalda, o que temos pra comer?

-- Você não comeu feijoada, no bar da Bendita?

-- Benedita, Mafalda. Comi. Mas sou educado. Peguei prato pequeno. Na casa dos outros não repito. Você sabe. Tenho fome.

-- Quem estava lá? – quis saber Mafalda, mais desconfiada que detetive de classificados.

-- Todo mundo, ora.

-- Ela estava lá?

-- Ela quem, mulher de Deus?

-- Deolinda.

-- Deolinda estava sim.

-- E daí?

-- Suas nádegas foram atração da festa. Não minto. O aniversariante passou quase batido.

-- Velho safado.

-- Safado por quê? Só admirei. Como os outros. (setembro/2013)