sábado, 29 de julho de 2017

POLÍTICA/OPINIÃO: NELSON MOTTA


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Foto: Shutterstock


VOCÊ SABE O QUE É PROPINA?

Lula redefiniu suborno, jabá, pixuleco, comissão ou,
como dizem no Nordeste, ‘um agrado’

Por Nelson Motta
O Globo
28/07/2017

 “Propina é uma palavra inventada pelos empresários ou pelo Ministério Público para tentar culpar os políticos”.

Não é piada, humor ou ironia, é Lula redefinindo suborno, jabá, pixuleco, comissão ou, como dizem no Nordeste, “um agrado”, legitimando receber dinheiro sujo para promover fraudes e ilegalidades que ajudem empresas e quadrilhas a roubar o Estado e o contribuinte.

Os políticos, coitados, não têm culpa de nada, são bodes expiratórios de uma aliança espúria entre empresários e o Ministério Público.

É esse o cara que, como uma fênix do agreste, vai renascer das próprias cinzas para nos salvar?

É o que pensa quem se oferece como esperança de um comportamento decente de políticos e governantes? Há controvérsias.

Lula diz que todos os políticos pedem dinheiro a empresários e que não conhece ninguém que venda a casa ou o carro para ser candidato, mas não diz que alguns vendem coisas ainda mais valiosas. Ou trocam por futuros serviços. Tudo para defender o povo… rsrs.

Os empresários oferecem doações como um investimento que esperam recuperar um dia, ou como pagamento por serviços prestados, ou são achacados por políticos e, temendo retaliações, “contribuem”, como quem paga proteção a uma organização criminosa.

Todo mundo sabe disso desde que o Brasil é Brasil. Lula também, mas sua conclusão é diferente: “A diferença é que agora eles transformaram as doações em propinas. Então ficou tudo criminoso.”

Simples assim. “Eles” criminalizaram tudo. É como se antes da Lava-Jato não fosse crime pagar por trabalhos sujos prestados usando cargos públicos.

É como se ninguém soubesse a diferença entre doação e propina, como se todo mundo fosse como os zumbis que seguem políticos em manadas movidas a fanatismo e ignorância.

É constrangedor até para seus partidários ouvir isso de quem pretende liderar a reconstrução do país e de suas instituições.

Não é só retórica palanqueira para a militância, é um acordo de leniência com as práticas políticas que nos levaram ao lodaçal em que chafurdamos.

Propina não é só uma palavra, virou uma instituição nos governos Lula, Dilma e Temer.
  

sexta-feira, 28 de julho de 2017

HORA DA VITROLA: NANA CAYMMI

PANCETTI


PRA VOCÊ
De Silvio César




Pra você eu guardei
um amor infinito
Pra você procurei o lugar mais bonito
Pra você eu sonhei o meu sonho de paz
Pra você me guardei demais,demais
Se você não voltar o que faço da vida
Não sei mais procurar a alegria perdida
Eu nem sei bem por que terminou tudo assim
Ah! se eu fosse você eu voltava pra mim

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NÃO SE ESQUEÇA DE MIM
De Roberto e Erasmo Carlos
Com Erasmo Carlos



Onde você estiver, não se esqueça de mim
Com quem você estiver não se esqueça de mim
Eu quero apenas estar no seu pensamento
Por um momento pensar que você pensa em mim
Onde você estiver não se esqueça de mim

Mesmo que exista outro amor que te faça feliz
Se resta, em sua lembrança, um pouco do muito que eu te quis
Onde você estiver, não se esqueça de mim
Eu quero apenas estar no seu pensamento
Por um momento pensar que você pensa em mim
Onde você estiver, não se esqueça de mim
Quando você se lembrar não se esqueça que eu
Que eu não consigo apagar você da minha vida
Onde você estiver não se esqueça de mim

CRÔNICA: CARLOS HEITOR CONY

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 PARÁBOLA DO PAPAGAIO

Por Carlos Heitor Cony
Pensata – FSP
07/02/2006

Não sei se é piada já em forma de piada mesmo, ou se limita à citação de uma crônica de Humberto de Campos, na minha opinião, ainda o maior cronista da literatura brasileira.

Um sujeito queria comprar um papagaio, entre outras coisas, para ensinar-lhe a dizer todos os dias: "Deus seja louvado!", frase machadiana que durante algum tempo figurava nas cédulas do dinheiro em circulação. Um vendedor de papagaios ofereceu-lhe um espécime raro, belo e brilhante em sua plumagem verde e amarela, com alguns toques de azul, uma síntese animal das cores da nossa bandeira, salve, salve.

O comprador perguntou:

- Ele fala?

O vendedor respondeu:

- Não. Mas ele pensa.

Lembro a anedota às avessas, quando vejo e ouço certos governantes e políticos, o mais notório deles sendo o próprio presidente da República, que é uma mistura de político e governante.

Ao contrário do papagaio da anedota, eles falam, falam muito, falam demais, a qualquer hora e por qualquer motivo. Bem ou mal não importa para eles. O que importa é falar.

E ainda ao contrário do papagaio citado aí em cima, não pensam. Ou pior, só pensam naquilo. Como o Juquinha de outra anedota, que só pensava em sacanagem e coisas afins.

A nossa classe política, com as exceções de praxe e circunstância, que felizmente são muitas, está repleta de papagaios emplumados, patrióticos, alguns deles chegam a estar a venda. Falam, falam, mas não pensam no compromisso que assumiram nas campanhas eleitorais, quando juraram trabalho, honestidade e dedicação à causa do povo que os elegeu.


CHÁ DAS CINCO: CACASO




bagarai.com.br

JOGOS FLORAIS

Minha terra tem palmeiras
onde canta o tico-tico.
Enquanto isso o sabiá
vive comendo o meu fubá.
Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre:
a água já não vira vinho,
vira direto vinagre.

Minha terra tem Palmares
memória cala-te já.
Peço licença poética
Belém capital Pará.
Bem, meus prezados senhores
dado o avançado da hora
errata e efeitos do vinho
o poeta sai de fininho.

(será mesmo com dois esses
que se escreve paçarinho?)

  
FATALIDADE

A mulher madura viceja
nos seios de treze anos de certa menina morena.
Amantes fidelíssimos se matarão em duelo
crepúsculos desfilarão em posição de sentido
o sol será destronado e durante séculos violas plangentes
farão assembléias de emergência.

Tudo isso já vejo nuns seios arrebitados
de primeira comunhão.


O QUE É O QUE É

Descoberto pelo português
emancipado pelo inglês
educado pelo francês
sócio menor do americano
mas o modelo é japonês...


TERCEIRO AMOR

O primeiro amor já passou
o segundo amor já passou
como passam os afluentes
como passam as correntes
que desencontram do mar
Como qualquer atitude
também passa a juventude
que nem findou de chegar

O primeiro amor já passou
o segundo amor já passou
como passam os espelhos
como passam os conselhos
ilusões de pedra e cal
Como passam os perigos
e tantos muitos amigos
sem deixar nenhum sinal

O primeiro amor já passou
o segundo amor já passou
como passam as gaivotas
as vitórias as derrotas
fantasias carnavais
as inocências perdidas
como passam avenidas
corredores temporais
A correnteza dos rios
como passam os navios
que a gente acena do cais

***

LEIA TAMBÉM

OLHOS DE LINCE

Na minha idade, não vou permitir que óculos me roubem 
o prazer de só ver ao longe aquilo que minhas lembranças 
e imaginações me permitem avistar. Melhor assim. 
Por Orlando Silveira
https://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/2017/07/olhos-de-lince.html#comment-form


IMAGENS: PHILIP JACKSON


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GOOGLE

Philip Jackson é um escultor inglês de renome internacional.

Sua capacidade de transmitir a condição humana através do hábil uso da linguagem corporal tornou-se uma de suas características mais memoráveis. Ele cria figuras profundamente imponentes tanto pela mensagem que transmitem quanto pela sua presença física no ambiente em que estão inseridas.

Poderosas e lindamente esculpidas, as posturas meticulosamente precisas que Jackson trabalha em cada peça criam uma enorme sensação de drama.

O  assombroso, a elegância e o resultado teatralmente enigmático das esculturas de Philip Jackson são verdadeiramente inspiradores – nunca deixam de causar perplexidade em quem por elas tem o privilégio de passar.

Nascido em Inverness, Jackson agora vive e trabalha em West Sussex. Ele foi nomeado Comandante da Royal Victorian Order ( CVO ) e esteve na lista de honra de aniversário da Rainha de 2009.

FONTE: JOSIE CONTI (www.contioutra.com)



OLHOS DE LINCE

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FOTO: ARQUIVO GOOGLE


O Velho Marinheiro estendeu os braços no limite, quase derrubou os copos e a garrafa de cerveja que estavam sobre a mesa. Esforço inútil. Não conseguia ler as letras miúdas do jornal, ir além das manchetes. Esquecera os óculos em casa. Resmungou algo que ninguém entendeu e pediu a Ananias que lesse o que não estava conseguindo ler. Ananias lamentou não poder ajudá-lo. Também deixara os óculos em casa.

-- De longe, ao menos, o senhor enxerga bem, não enxerga? – quis saber o ex-jornalista.

-- Já enxerguei, tinha olhos de lince. Hoje, não. À média distância, eu ainda me viro bem.

-- Por que o senhor não usa óculos para longe, vaidade?

-- Ananias: não seja besta. Na minha idade, não vou permitir que óculos me roubem o prazer de só ver ao longe aquilo que minhas lembranças e imaginações me permitem avistar. Melhor assim. 


(ORLANDO SILVEIRA - 2014/ ATUALIZADO EM JULHO DE 2017 )

POLÍTICA/OPINIÃO: CARLOS MELO

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IMAGEM: ARQUIVO GOOGLE

ESCÂNDALOS SE INCORPORAM
DESUMANAMENTE AO COTIDIANO

Em alguns lugares, a bala perdida foi assimilada;
faz parte do ruído urbano como o pio dos pardais.
Banaliza-se a morte

Por Carlos Melo
21/07/2017

Vivendo sua quadra histórica mais complicada, nessas duas semanas o país disfarça seus males e faz de conta que tudo está bem. São as águas paradas do recesso, o cansaço da opinião pública, a desatenção causada pelo frio; o remanso temporário das águas no mesmo lago onde mora o monstro. Presidente, Michel Temer toca o bumbo: ''O país reencontrou o rumo; está nos trilhos''. É do seu papel e sua alternativa: ao jogador de poucas cartas cabe o blefe; olhar para mão pobre e sorrir como se repleta estivesse de ases e reis.

Mas, o rumo é tortuoso e os trilhos danificados. O que mais preocupa é a segurança pública. Alguém já assinalou que, em alguns lugares, a bala perdida foi assimilada; faz parte do ruído urbano como o pio dos pardais. Banaliza-se a morte. Há alguns meses, numa dessas viagens que a profissão obriga, me perdi num desses subúrbios perigosos. Apavorado, o motorista que me levava suava em bicas; dizia-me que, ali, o risco era o ladrão e também a polícia. Frio, eu mantinha a calma dos ignorantes.

Tempos depois — de volta ao estado, consciente dos riscos —, comentei o caso com um taxista; como se lhe contasse uma aventura, falei dos caminhos porque havia me perdido. Com atenção, ele ouvia sem abalos; parecia-lhe óbvio que na cidade houvesse áreas desse tipo e que elas se expandissem. ''Está cada vez pior''. Nem o Waze é capaz de dominar a sociologia das cidades. Por fim, filosofou: ''Às vezes, nada acontece''. Não era ironia nem piada: tive sorte. A tragédia é, sim, o normal.

O estado em questão foi o Rio de Janeiro, mas o episódio cabe em qualquer rincão do país. Simbólico, o Rio é apenas, na federação, o doente em estágio mais avançado. De um modo geral, todos estão quebrados, sem dar conta do custeio das máquinas públicas — quanto mais investir para amenizar os efeitos da crise. À população resta se adaptar: trancar as portas, cercar as casas, evitar as ruas. Medo que se banaliza ou é neurose ou é covardia — a covardia nossa de cada dia.

O escândalo se incorpora desumanamente ao cotidiano como um poste sem vida. Evidente que, ao chegar à segurança pública, a crise já tomou várias outras áreas. Saúde, educação, promoção social; ética e moralidade pública. Tudo se resume a uma espécie de muro pichado, numa rua abandonada à qual todos incorporam ao caminho; o rumo de que fala o presidente Temer. Tem sido assim.

Resultado de imagem para imagens carlos melo Insper
CARLOS MELO/DIVULGAÇÃO
A maior preocupação de muitos analistas se volta para a saúde das contas públicas. Não deixa de fazer sentido, em tese. O raciocínio é conhecido: sanear as finanças do Estado, fornecendo confiança para investimentos privados, que trariam empregos e crescimento econômico; aumentos de arrecadação facilitariam investimentos em segurança, saúde e educação: circulo virtuoso, desenvolvimento social. Tudo muito simples. Em tese.

Nesse sentido, justificam-se os aumentos de impostos diante das condições fiscais, mas também pela manutenção de importantes políticas públicas. Seria mesmo inevitável.

Os impostos, no entanto, vieram após o aumento dos salários de parcelas do funcionalismo, o perdão ou refinanciamento de dívidas, liberações de emendas e cargos às mancheias para garantir o claudicante mandato do presidente. Reforma da previdência, com manutenção de aposentadorias especiais; modernização trabalhista com preservação do imposto sindical. Que sentido há nisto além do poder dos grupos de pressão?

O que fazer está nos livros-texto dos melhores cursos de economia. Como fazê-lo nenhum manual ensina. O longo prazo é uma esperança para depois de depois de amanhã; não raro, se lhe perde de vista. A vida concreta e o desespero da vida se dão no hoje e no agora: é preciso Políticas pra já.  Depois, é sempre tarde. Na verdade, é cruel: jogar água fria na manhã gelada dos que dormem na rua demonstra a estupidez humana em seu grau mais elevado. Prêmio Barbárie. Nem às vezes isso pode dar certo.

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Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

AS CHARGES DO DIA


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SAMUCA - DIÁRIO DE PERNAMBUCO


Charge (Foto: Antonio Lucena)
ANTÔNIO LUCENA - BLOG DO NOBLAT



TACHO - JORNAL NH (RS)



Charge (Foto: Amarildo)
AMARILDO 


Charge (Foto: Chico Caruso)
CHICO CARUSO - O GLOBO

A imagem pode conter: texto
SPONHOLZ




LUSCAR - A CHARGE ON-LINE


AMARILDO


Charge do dia 28/07/2017
THIAGO - JORNAL DO COMMERCIO (PE)

POLÍTICA/OPINIÃO: LUIZ FELIPE PONDÉ

Ilustração coluna Pondé
RICARDO CAMAROTA/FOLHAPRESS

EXISTEM DOIS TIPOS DE POPULISTA.
UM DELES PODERÁ SER O PRÓXIMO PRESIDENTE

A esquerda está desorientada; depois de comer na mão
de nosso ex-operário sindicalista por anos, encontra alguma
dificuldade em achar seu novo "pai do povo"

Por Luiz Felipe Pondé
UOL – 10/07/2017


Como serão as eleições de 2018? Temo que 18 seja uma festa do populismo. Os sinais estão no ar: horror à política profissional, apelos ao Poder Judiciário como Batman do Brasil, sonhos de pureza, ressentimento por toda parte. A única forma de garantia contra o vírus do populismo é não esperar muita coisa da política. Na política, menos é mais.

Como diz o filósofo inglês Michael Oakeshott (1901-1990), quase desconhecido aqui, um líder de governo deve ser alguém muito modesto e quase sem "visão de mundo". Quanto menos acreditar em si mesmo, melhor. Só assim a prudência (maior de todas as virtudes políticas) brotará na alma de alguém fadado à vaidade - como todo mundo que detém poder.

Existem dois tipos básicos de populistas. Um dos dois poderá ser nosso próximo presidente. Podem existir outros tipos, mas esses tendem a deixar a maior parte do eleitorado com tesão. Entretanto, é importante lembrar que todo populista chega ao poder navegando no ressentimento, que é o elemento essencial de todo eleitor que tem tesão por populistas.

O primeiro é o mais conhecido: o populista de extrema direita. O ressentimento nele é evidente, porque ele é o mais comum dos dois tipos de populistas. Sempre movido pelo ódio por um grupo social, ainda que disfarçado. Normalmente, esses grupos são identificados com alguma forma de "degeneração". Do ponto de vista da imagem, esse tipo tende a ter o cabelo cortado de forma careta.

No contexto brasileiro, a imagem mais clássica é de alguém que admira a "retidão" militar. Tem uma certa nostalgia da ditadura e é visto como malvado, por exemplo, por artistas, jornalistas e intelectuais. Aqueles entre os artistas, jornalistas e intelectuais que tiverem mais repertório o dirão anti-humanista.

Um novo estereótipo da sua imagem, no contexto mais recente, é o de um evangélico contra gays. Um fanático religioso com ares de resposta ao "horror esquerdista".

Afora jovens raivosos e com dificuldade de sociabilidade, esse tipo tende a atrair o mercado clássico dos eleitores populistas de extrema direita: gente com mais idade, mais fracassos acumulados na vida profissional e afetiva, e com mais experiência no impasse que é a vida, em grande parte dos casos.

No caso de homens, tende a atrair aqueles que pegam menos mulheres.

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PONDÉ/FOTO:ARQUIVO GOOGLE

O outro tipo de populista é menos óbvio, mas nem por isso menos perigoso. Um representante "chique" dessa linha é o novo líder do trabalhismo inglês, Jeremy Corbyn, que ganhou o "voto jovem" nas últimas eleições britânicas.

Prometendo dar tudo de graça, esse novo ícone do populismo de esquerda mundial quase ganhou as eleições. Sorte dele, porque ia fracassar como todo mundo que promete tudo para o povo.

Os jovens são um capítulo à parte no que se refere a esse tipo de populista, o populista do bem, o de esquerda. Jovens têm vocação natural ao populismo, por acreditarem que o mundo é simples como uma teoria qualquer. Todo movimento político estudantil tende ao populismo; basta assistir a uma de suas assembleias.

No contexto brasileiro, esse populista deverá vir dos grupos considerados "vulneráveis" para ser ideal, como nosso ex-operário sindicalista. Virá carregado pelos setores "progressistas" da sociedade e abraçado por artistas (que, normalmente, entendem de política tanto quanto um bebê entende de física quântica), intelectuais e grupos dos "sem alguma coisa". Ele vai prometer tudo o que o PT prometeu e não cumpriu. A começar pela vingança contra a elite.

A esquerda está à caça de seu populista. Alguns candidatos a esse posto já aparecem por aí. Não está fácil. A extrema direita já tem o seu. Ninguém sabe se ele resiste ao mundo fora das redes sociais, mas já está, de alguma forma, mais à frente em sua campanha populista.

A esquerda está desorientada; depois de comer na mão de nosso ex-operário sindicalista por anos, encontra alguma dificuldade em achar seu novo "pai do povo".

Dois mil e dezoito será populista, como o 18 de Brumário foi. Você não sabe o que foi o 18 de Brumário? Olhe no Google.

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Luiz Felipe Pondé é filósofo, escritor e ensaísta


quinta-feira, 27 de julho de 2017

CRÔNICAS: OTTO LARA RESENDE

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ILUSTRAÇÃO: DEPOSITPHOTOS


VISTA CANSADA

Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez? Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. Essa idéia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou.


Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.

Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.


ILUSTRAÇÃO: NETTO

Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima idéia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.

Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.


Texto publicado no jornal “Folha de S. Paulo”, edição de 23 de fevereiro de 1992.

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