Antes
que me apedrejem, nestes tempos de politicamente correto, quero que os amigos
saibam: tenho Silva nas veias, muito embora atenda pela alcunha de Silveira.
Minha mãe foi Silva. Meu sogro foi Silva. Meus três filhos, antes do Silveira,
carregam um Silva nas costas.
Tudo
gente boa. Graças a Deus.
Após
um longo estudo, de três, cinco minutos, conclui que eles – os Silva – são
complicados, sempre foram, do ponto de vista ético. (Os meus não, como já
ressaltei.)
Minha
“pesquisa” sobre malandros brasileiros confirmou minha desconfiança em relação
aos Silva. De pronto, veio à cabeça dois nomes da MPB: Bezerra e Moreira da
Silva – cada qual malandro à sua maneira.
Mas
o terceiro, o maior deles, veio na forma de golfada: Luís Inácio, o tal do Lula
da Silva. Comparsa de Dirceu e de todos que valem tanto ou menos que ele.
Começo
este texto pensando em homenagear os mestres Vinícius de Moraes e Tom Jobim,
que em meados dos anos 50 compuseram essa joia rara da MPB, a música “Chega de
Saudade”.
A
música foi gravada pela primeira vez em 1958, por Elizeth Cardoso, com arranjos
do próprio Jobim e acompanhamento de João Gilberto ao violão. Elizeth não era
exatamente uma cantora revolucionária da MPB. Não cantava em tom de bossa-nova.
Mas teve o mérito de se fazer acompanhar pelo violão de João Gilberto, numa
batida diferente e que depois seria a marca registrada do novo movimento
musical.
Do
ponto de vista melódico, a música também não apresenta muitas novidades,
repetindo sequências muito utilizadas na MPB de então. Jobim talvez ainda não
tivesse assimilado definitivamente a influência do jazz e da dissonância
debussiana.
Poeticamente,
a letra mostra o coloquialismo de Vinicius de Moraes, com os diminutivos que
lhe são peculiares (peixinhos, beijinhos, etc.) e a tentativa de reconstruir
uma situação emotiva que anteriormente fora compensatória ao poeta. “Chega de
Saudade” não prega uma ruptura reconstrutiva na sua letra, mas sim a
recomposição de uma situação anterior positiva. A tristeza do poeta lhe serve
como moleque de recado. Não nos fica claro, porém, se o poeta foi atendido por
sua musa. Percebemos apenas a admissão, no condicional, da beleza da volta.
Assim,
de revolucionário mesmo só a batida do violão de João Gilberto, antecipando a
síncope bossa novista e nos alertando que naquele momento cultural brasileiro,
reflexo de todo um contexto sócio-econômico reinante, haveria espaço para uma
nova concepção musical. Nesse sentido, genial.
CLÓVIS CAMPÊLO
Há
quem diga, porém, como o crítico José Ramos Tinhorão, por exemplo, que a Bossa
Nova foi uma excrescência inadequada para o momento em que se deu. O falecido
escritor Ariano Suassuna, respaldado pelo Movimento Armorial, também pensava
assim. Pode até ter sido mesmo. Mas, acreditamos, que hoje não há mais espaço
para esse tipo de contestação. A bossa nova se consolidou e desdobrou-se em
influências definitivas para a música popular brasileira. Quem imaginaria a MPB
atual sem ela? A assimilação desses “estrangeirismos”, além de servir para
modernizar a música brasileira, abriria espaços para outros movimentos musicais
modernos como a Jovem Guarda e o Tropicalismo.
Do
mesmo modo, a poesia coloquial de Vinícius de Moraes quebrava com o tom
acadêmico e rebuscado que reinava nas letras das músicas dos anos 40 e 50,
talvez influência da poesia arcádica e parnasiana de então. Simplificavam-se as
letras e se enriqueciam as harmonias e as sequências melódicas. Na Bossa Nova
era só isso o nosso baião. E não era pouco não.
Mas,
do mesmo modo que abri essa crônica querendo homenagear os pais da Bossa Nova,
pensava em escrevê-la também para falar de um amigo que tem o passado como
referência. Aos 85 anos, diz que suas atenções estão todas no tempo que se foi,
não ousando fazer planos futuristas que não poderá viver. Costuma dizer que se
sente como se estivesse viajando olhando para trás, para o que se vai (ou se
fica) e nunca para a frente, para o futuro. Talvez ele tenha razão. Mas esta
será uma outra crônica que deixo adiada para o futuro.
Dizem
que mentira é coisa feia e tem pernas curtas. Não é bem assim. Todos nós
conhecemos pessoas, políticos à frente, que mentem compulsivamente – e que vão
longe. Não faz muito tempo, um mitômano chegou à presidência da República.
Outros tantos, ainda que não saibam uma palavra em javanês, prosperam igual e
celeremente. Vendendo aos incautos os conhecimentos que nunca tiveram de
javanês.
Sejamos
francos: em certas situações, não há como fugir da mentira, daquela mentirinha
que pessoas sem senso de ridículo nos obrigam a contar. Imagine sua sogra, que
já ultrapassou os limites da obesidade mórbida, dirigindo-se a você, com aquele
corpanzil roliço coberto por um vestido estampado, quase aberrante:
—
Então, Juninho, sua sogra está ou não está elegante, bonitona?
Refreie
seus instintos mais primitivos. Sinceridade, ao contrário do que dizem, nem
sempre é boa conselheira. Concorde. Mas, tudo o que você, Juninho, disser além
de “claro, claro” soará aos ouvidos de sua sogra como ofensa irreparável.
Minta, mas seja discreto. Nada de elogios rasgados. Ela sabe que, com o “claro,
claro”, você está mentindo. Afinal, ela não é tola de tudo. Jamais suportaria,
no entanto, o deboche. Nada de “bonitona é pouco” ou mesuras afins.
A
desgraça é que há pessoas que mentem sem necessidade alguma. Deveriam ficar
caladas. Seja honesto: sem contar seus filhos, evidentemente, você já viu algum
recém-nascido lindo, que seja de fato a cara do pai, da mãe ou do vizinho? O
que temos ali, após o parto, é uma massa disforme que leva obstetras em início
de carreira a ter uma dúvida das bravas: afinal, qual é a placenta?
Os
extremos se tocam. Velórios são também espaços propícios para mentiras
desnecessárias. Ora, todo mundo sabe que o cara foi um crápula a vida toda,
teve casos e mais casos, bebia e fumava sem descontinuar, fugia do batente como
aquele presidente dos livros etc. e tal. Aí, sempre aparece alguém para dizer,
com ares de carpideira, para a pobre da viúva – justo para ela, que agora sonha
com um fim de vida em paz: “Foi um homem bom, ninguém pode negar”.
Resumo
da ópera: se for preciso, não houver mesmo outro jeito, minta, mas sem exageros.
CARTAS E CONFISSÕES EM FORMA DE CANÇÕES NA VOZ DE CECILIA BERNARDES
Em seu trabalho de estreia a cantora e compositora Cecilia Bernardes conta com a participação de nomes da cena musical paulista contemporânea
Em um país de canto predominantemente feminino destaca-se aquela cantora que vai além da interpretação; seja empunhando um instrumento e o tocando de modo convincente ou até mesmo escrevendo versos e melodias. Em nosso país-continente pouco são aquelas que aventuram-se fazer isso e quando o fazem muitas vezes ficam a desejar seja em um ou em outro aspecto. Talvez por não possuir esta lacuna em sua arte a artista em questão mereça uma maior atenção uma vez que suas letras e melodias superam todas as expectativas depositadas. Paulista, Cecilia Bernardes vem divulgando e recebendo os mais diversos elogios deste seu primeiro disco, um projeto fonográfico que a julgar pela adesão de relevantes nomes do cenário musical brasileiro não há como titubear que trata-se de um projeto de grande qualidade. Cantora e compositora, Bernardes vem desde 2007, mesmo que de modo inconsciente, concebendo este álbum a princípio a partir da concepção de melodias para uma série de letras do poeta e compositor Luciano Garcez. Desde então o seu lado compositora vem aflorando de modo cada vez mais constante e intenso, não apenas na medida em que a parceria com Garcez expande-se mas também na aquisição de novos parceiros como foi o caso da parceria com a cantora, multi-instrumentista, produtora e compositora Natalia Mallo (que Cecilia conheceu via internet a partir da audição do álbum "Qualquer Lugar"). O que a princípio seria apenas uma hipótese acabou gerando a possibilidade do surgimento de algumas composições e propiciando a artista o contexto ideal para que ela possa dar vazão ao seu universo particular de modo bastante melódico e poético.
É neste contexto que surge "Carta", um álbum constituído sem a habitual pressa que cerca a sociedade contemporânea. Um projeto bordado por timbres e sonoridades que entrelaçam-se de modo bastante harmonioso, dando ao projeto características bastante peculiares e pessoais. Trata-se de trabalho cosido com a linha da paciência, onde cada acorde e cada sílaba pronunciada resulta da maturação de ideias e melodias precisas e que resultam de uma série de experiências acumuladas ao longo dos anos do seu envolvimento com a música e a poesia. Sob a produção de Natalia Mallo (que também assina a direção musical do disco) "Carta" começou a ganhar molde em 2008, no coração da Vila Madalena, e foi concluído três anos depois. Com o delicado registro fotográfico de Carol Sachs e ilustrações da própriaCecilia feitas em nanquim entre os anos de 2007 e 2008, o álbum conta ainda com o design gráfico dePaola Faoro e nomes como Luciano Garcez (locução), Ramiro Murillo (arranjos para cello e oboé),Marisa Silveira (cello), Laura Sokolowicz (oboé), Natalia Mallo (arranjos, percussão, palmas, guitarra, baixo, vocais, violões, sintetizador); Maurício Pereira (sax soprano), Gustavo Ruiz (violão de 7 cordas), Danilo Penteado (teclado, vocais, cavaquinho e palmas), Vitor Lopes (gaita), Mariá Portugal (bateria), Emerson Villani (violão, guitarra e programação), Rogerio Botter Maio (baixo acústico), Edu Contrera (percussão) e os vocais de Ilana Volcov, Marko Congá, Marco Bowie,Vanessa Bumagny. Além desses nomes há também Ricardo Mosca e Homero Lotito, que assumem, respectivamente, a mixagem e a masterização. Além das figuras de Sérgio Bártolo (produção e baixo em "Me nina"; além da concepção do arranjo, baixo e co-produção em "De novo nova") e André Abujamra (produção em "Santo Seio", além de todos os instrumentos e programações).
"Carta" é constituído por onze faixas caracterizada por toda a poesia e delicadeza exposta neste trabalho que perpassam por canções de autoria da própria Cecilia e de pessoas com a qual a artista identifica a sua arte de algum modo como a faixa "Truques com Facas", de Maurício Pereira e "Onda", canção que nos remete a sonoridade da cultura afro-brasileira através de seus pontos e que foi composta por Luciano Garcez. O projeto conta ainda com canções autorais como "Castelo", "De novo nova" e "Passarinho", além do envolvente samba "Oferenda", que conta com Claudio Faria ao trompete, e parcerias da artista com nomes como Natalia Mallo (que juntas assinam "Carta", canção que batiza o disco) e Luciano Garcez (como "Pop me", parceria responsável pelo pontapé inicial desta profícua parceria, "Santo seio"e ''Ave Maria").
De modo agradável e convincente, Cecilia Bernardes apresenta nesta carta pra lá de confessional (e porque não classificá-la até mesmo de onírica) uma arrojada sonoridade caracterizada por harmoniosos e precisos arranjos. O universo sonoro que a constitui alia-se a peculiaridades e assuntos cotidianos em letras e melodias que se encaixam de modo uníssono, gerando as mais diversas possibilidades de caminho ao mais genuíno prazer sonoro. Soma-se a este cenário o doce e afinado canto da artista que passeia de modo pra lá de harmonioso por toda a diversidade sonora presente no álbum facilitando a capacidade do ouvinte sorver todo o hibridismo presente neste aprazível álbum. Ao se descobrir compositora, Cecilia, que já empunhava despretensiosamente seu instrumento, descobriu uma preciosa passagem que a levaria a um mundo de poesia e lirismo e possibilitaria também o encontro com outros nomes como todos aqueles presentes e citados neste projeto ímpar. Esta característica acaba fazendo de "Carta" um registro pontuado não apenas por sua qualidade lítero-musical, mas também por uma característica que faz-se bastante pertinente a julgar-se pelo espírito agregador que caracteriza esta cantora paulista. É por este e outros motivos que este debute fonográfico chega não apenas para revelar o talento de Cecilia como cantora mas também para atestar que o árduo ofício de compor rendeu-lhe bons resultados e o seu canto acaba por permear os mais recônditos sonhos ao adentrar nossos ouvidos tal qual o lendário canto da sereia. Cecilia Bernardes soube administrar todo o tempo de elaboração deste álbum, não apenas procurando estar a par de toda a sua elaboração, mas também por demostrar bastante segurança neste seu primeiro álbum. Apesar das inúmeras parcerias, sem dúvida alguma para este disco o tempo foi o seu principal aliado neste cenário constituído por versos e canções.
Deixo aqui para audição dos amigos leitores duas canções presentes neste debute fonográfico da artista, mas que aqui ganharam versões ao vivo. A primeira trata-se de "Ave Maria", canção composta pela cantora em parceria com Luciano Garcez:A segunda canção trata-se de "Carta", canção homônima ao título do disco: