quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

POLÍTICA/OPINIÃO: AUGUSTO NUNES

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TANTO RISO, TANTA SAFADEZA (FOTO: GOOGLE)

A NOITE EM QUE ESCAPEI DE PAGAR
A CONTA DO JANTAR COM EIKE

O magnata que vendia nuvens nunca tinha no bolso
 alguns trocados  para o garçom ou o flanelinha

POR AUGUSTO NUNES
VEJA.COM – 31/01/2017


Em 30 de agosto de 2010, durante a entrevista de Eike Batista ao Roda Viva, a apresentadora Marília Gabriela quis saber onde o entrevistado guardava a montanha de dinheiro que há dois anos lhe vinha garantindo uma vaga no ranking da revista Forbes que agrupa os mais ricos do planeta. “Todos os meus recursos estão todos aplicados”, enfatizou o magnata que nunca tinha no bolso alguns trocados para o garçom ou para o flanelinha. “Você tem alguma coisa guardada?”, entrei na conversa. “Nãããooo”, enfatizou o entrevistado. “Meus recursos estão todos aplicados em meus projetos…”

Subitamente confuso, estacionou nas reticências, procurou em vão o fio da meada e soltou a frase sem nexo: “Por acaso, eu durmo bem”. Feita a ressalva amalucada, retomou o palavrório: “Mas esses meus projetos… quer dizer… projetos bem ‘engenheirados’ pagam todas as contas.” Aproveitei a pausa para dirimir a dúvida que me assaltara desde que conheci Eike Batista: “Quer dizer que se a gente sair para jantar eu pago a conta?”. Ele fugiu da resposta com um convite: “Vem comigo”. Ainda bem que não fui, disse-me no dia seguinte um amigo que sabe das coisas e conhecia muito bem o personagem: “Você não só pagaria a conta como, antes da sobremesa, compraria um lote de títulos de empresas que nunca existirão”.

Naqueles tempos delirantes, com o país anestesiado pelos farsantes no poder, Eike festejava fortunas imaginárias, Lula comemorava o colosso de petróleo que nunca saiu do fundo do Atlântico, Sérgio Cabral erradicara a violência nos morros e cuidava dos últimos retoques num Rio que lembrava Pasárgada com praia e teleférico de favela. Hoje está claro que o maior dos governantes desde Tomé de Souza, o megaempresário de matar de inveja banqueiro alemão de antigamente e o reinventor do Rio Maravilha eram apenas três vigaristas. Três corruptos sem vestígios de vergonha na cara. Três incapazes capazes de tudo.

Cabral e Eike já mofam na cadeia. O que a dupla tem a dizer vai apressar a remontagem da trinca que deve ser qualificada pelo que sempre foi: um repulsivo caso de polícia.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

HORA DA VITROLA: DOMINGUINHOS


DOMINGUINHOS:
“EU NÃO SEI O QUE ESSE POVO VÊ EM MIM” 






TENHO SEDE
De Dominguinhos/Anastácia

Traga-me um copo d'água, tenho sede
E essa sede pode me matar
Minha garganta pede um pouco d'água
E os meus olhos pedem
O teu olhar
A planta pede chuva quando
Quer brotar
O céu logo escurece quando
Vai chover
Meu coração só pede o teu amor
Se não me deres posso até morrer






SÚPLICA CEARENSE
(Com participação de Guadalupe)
De Gordurinha/luiz Gonzaga

Oh! Deus, perdoe este pobre coitado
Que de joelhos rezou um bocado
Pedindo pra chuva cair sem parar

Oh! Deus, será que o senhor se zangou
E só por isso o sol se arretirou
Fazendo cair toda chuva que há

Senhor, eu pedi para o sol se esconder um tiquinho
Pedir pra chover, mas chover de mansinho
Pra ver se nascia uma planta no chão

Meu Deus, se eu não rezei direito o Senhor me perdoe,

Eu acho que a culpa foi
Desse pobre que nem sabe fazer oração

Meu Deus, perdoe eu encher os meus olhos de água
E ter-lhe pedido cheinho de mágoa
Pro sol inclemente se arretirar

Desculpe eu pedir a toda hora pra chegar o inverno
Desculpe eu pedir para acabar com o inferno
Que sempre queimou o meu Ceará


CHÁ DAS CINCO: FERREIRA GULLAR



www.digestivocultural.com

FALAR

A poesia é, de fato, o fruto
de um silêncio que sou eu, sois vós,
por isso tenho que baixar a voz
porque, se falo alto, não me escuto.

A poesia é, na verdade, uma
fala ao revés da fala,
como um silêncio que o poeta exuma
do pó, a voz que jaz embaixo
do falar e no falar se cala.

Por isso o poeta tem que falar baixo
baixo quase sem fala em suma

mesmo que não se ouça coisa alguma.

***

Ferreira Gullar, pseudônimo de José Ribamar Ferreira (São Luís, 10 de setembro de 1930 – Rio de Janeiro, 4 de dezembro de 2016), foi escritor, poeta, crítico de arte, biógrafo, tradutor, memorialista e ensaísta brasileiro. Um dos fundadores do neoconcretismo, Gullar é considerado um dos maiores escritores brasileiros do século 20.

Ferreira Gullar ganhou diversos prêmios de literatura, entre eles, o Prêmio Jabuti de melhor livro de ficção de 2007, com "Resmungos". Também teve reconhecimento pelo Prêmio Camões, em 2010. No mesmo ano, recebeu o título de Doutor Honoris Causa, da UFRJ. Em 2011, recebeu o Prêmio Jabuti de Poesia.

***

PERPLEXIDADES

a parte mais efêmera
de mim
é esta consciência de que existo
e todo o existir consiste nisto
é estranho!
e mais estranho
ainda
me é sabê-lo
e saber
que esta consciência dura menos
que um fio de meu cabelo
e mais estranho ainda
que sabê-lo
é que
enquanto dura me é dado
o infinito universo constelado
de quatrilhões e quatrilhões de estrelas
sendo que umas poucas delas
posso vê-las
fulgindo no presente do passado


CRÔNICA: WALCYR CARRASCO

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WALCYR CARRASCO (DIVULGAÇÃO)

HOMOFOBIA EM ALTA 

O preconceituoso age como se os amores
 e a intimidade dos outros
 fossem de sua conta. Não são

POR WALCYR CARRASCO
ÉPOCA DIGITAL – 24/01/2017

Todo mundo já sabe. O ator Leonardo Vieira foi fotografado em uma festa beijando outro homem. Um fotógrafo clicou. As imagens se espalharam pelos sites de fofocas. Corajosamente, o ator publicou uma carta aberta ao público. Diz que é gay sim. Reage contra a homofobia. Que é estimulada pelos sites e pelas colunas onde se revela a sexualidade de famosos. Mais que isso: frequentemente os colunistas desse tipo são, eles mesmos, gays. Provavelmente com muita dificuldade em sua condição sexual, pois exercem a homofobia contra si próprios. E o público que consome avidamente essas notas também dá uma mostra de preconceito. O que cada um tem a ver com o que o outro faz?

Há anos, declarei à revista Playboy que sou bissexual. Fiz isso em respeito às diversas e muito amadas mulheres que tive em minha vida e que talvez um dia volte a ter. Eu as amei, mas também amei homens. Como escritor, levo uma vida isolada e nunca tive de bater de frente com o preconceito. Escrevi o livro infantil Meus dois pais, que fala sobre um garoto cujo pai tem um companheiro. O livro foi comprado por várias prefeituras para bibliotecas escolares. A família é a estrutura básica da sociedade. Mas muitas crianças têm dois pais ou duas mães, biológicos ou adotados. Haverá cada vez mais famílias assim. E as crianças precisam aprender a lidar com os outros. Lembro aos pais que leem esta coluna: não fiquem de cabelos arrepiados. Se seu filho ou filha abrir o coração a quem é diferente, estará seguindo um fundamento cristão. Amor ao próximo, certo? E estará sendo ético e decente – respeite o direito do outro, se esse direito não interfere nos seus. Conviver com um gay não torna alguém gay. A maioria dos gays vem de famílias de héteros convictos. É ou não é?

A reação a Leonardo Vieira foi preconceituosa e radical. Já observei isso: certa vez uma amiga de mais de 60 anos comentou que se determinado galã da TV fosse gay, seria uma grande decepção. Perguntei:

– O que vale não é o trabalho dele? Ou você tem esperança de algum dia encontrá-lo e vocês se apaixonarem?

Ela pediu desculpas.

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FOTO: ARQUIVO GOOGLE

A homofobia está em alta. Uma gerente de supermercado em Cravinhos, interior de São Paulo, matou a facadas seu filho de 17 anos, Itaberli Lozano Rosa. O padrasto ajudou a queimar o corpo num canavial. Motivo aparente: o garoto era gay. A mãe confessou. Agora mudou. Alega que o filho era usuário de drogas e a ameaçou. Tios e a avó garantem que não usava. A existência de mães que odeiam filhos devido a sua orientação sexual não é nova para mim. Em Brasília, acompanhei o caso de um rapaz, professor, de família humilde. Quando descobriu a aids, já estava em um processo irreversível. No hospital, a mãe evangélica exigia que ele deixasse de ser homossexual. Ele morreu se culpando. A mãe disse:

– Melhor que tenha morrido que ser gay. Agora está com o Senhor.

É da pensão deixada por ele que a mãe vive hoje.

Por que a orientação sexual de alguém importa tanto para os outros? Do meu ponto de vista, só importaria se eu estivesse apaixonado e quisesse tentar um envolvimento. O preconceituoso se comporta como se os amores de outra pessoa, o que ela faz entre quatro paredes, fosse de sua conta. Não é. Mas sinto um movimento conservador cada vez mais forte.

Como autor de televisão, fui o primeiro a colocar um beijo gay na novela das 21 horas, Amor à vida, pela Globo. Minha antena diz que o clima está menos favorável a esses avanços. Prova disso são os ataques homofóbicos que Leonardo Vieira sofreu após as fotos. Mas um ator não é um ator? Fico com as palavras que ele colocou em seu manifesto, um exemplo lúcido.


“Sempre achei que um ator deve ser como uma tela em branco. Ali colocaremos tintas, cores, formas e sentimentos para dar vida a diversos personagens. Respeito, mas nunca concordei com atores que expõem sua vida íntima ou levantam bandeiras ideológicas, exatamente porque no meu entender isso poderia macular essa tela em branco (...). O público passa a ver o ator antes do personagem e para mim isso nunca foi bom. Um dos motivos de nunca ter feito o meu ‘outing’ (assumir a orientação sexual publicamente) foi esse e isso não é uma desculpa. Provavelmente, se eu fosse hétero, manteria a mesma postura em relação a minha vida privada.”

O texto dá um ponto final brilhante ao assunto. Personagem é personagem. Ator é ator. Cada um, em qualquer posição, tem direito a uma vida sexual e amorosa como deseja, porque isso só diz respeito a si mesmo. Cada ser humano tem direito à liberdade e a escolher sua vida. Tudo mais é preconceito.

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"Querido, além disso, também quero usar umas roupinhas mais transadas, sensuais, entende? Na José Paulino, não tem nada que me sirva. As malditas coreanas não têm bunda e acham que todo mundo deve ser igual a elas." Por Orlando Silveira




O CANTO DE VÓLIA


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FOTO: ARQUIVO GOOGLE

BOM HUMOR

Hoje eu acordei sorrindo...
Não lembro do que sonhei,
Nem se algum anjo soprou
Alguma brisa de alegria em mim,
Mas hoje eu acordei assim.

Vi o sol entrar pela janela,
E as nuvens que passavam ligeiras,
O céu ainda não está azul,
E o mar resolveu de prata se enfeitar.

E tudo me pareceu tão lindo,
Tudo em seu devido lugar,
Ouço  o barulho da cidade despertar.

Hoje acordei sorrindo,
E vou esticar essa alegria,
Esse desejo de ver a vida passar.

Hoje só quero ser,
Sorrir, fluir,
Sonhar, deixar a vida passar.

24/10/2016

***


Vólia Loureiro do Amaral Lima é paraibana,
 engenheira civil, poetisa, romancista e artista plástica. 
Autora das obras Aos Que Ainda Sonham (Poesia) 
e Onde As Paralelas Se Encontram (Romance). 


***

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-- Ananias: no começo, eu dizia “não quero” e ponto final. Mafalda insistia para que não fosse tão direto, grosseiro. Passei a adotar uma estratégia. Se os pais são católicos, digo que somos evangélicos. Se eles são evangélicos, digo que não saímos do terreiro... Por Orlando Silveira
http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/2017/01/nem-pensar-ananias.html#comment-form
 

POLÍTICA/OPINIÃO: AUGUSTO NUNES

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FOTO: ARQUIVO GOOGLE


O PAÍS QUE DECIDE SEU FUTURO POR SORTEIO

Só Celso de Mello pode substituir Teori Zavascki sem que o Brasil perca o sono

POR AUGUSTO NUNES
VEJA.COM – 01/02/2017

Até um capinha aposentado sabe que, dos quatro integrantes da 2ª Turma do Supremo Tribunal Federal, só Celso de Mello poderá assumir as funções de relator dos casos da Lava Jato sem que o Brasil perca o sono. Como aqui já se escreveu, ministro nenhum conseguirá deter o avanço da dedetização do país. Se tentar, será varrido pelo povo. Mas as três togas que estarão no sorteio com Celso de Mello dificilmente resistirão a truques, trapaças e trapalhadas que acabem retardando a conclusão da faxina colossal.

Um país que decide seu futuro por sorteio, aliás, também deveria eleger o presidente do Senado num jogo de palitinho e o presidente da Câmara no par ou ímpar. Os vencedores não seriam piores que Eunício de Oliveira e Rodrigo Maia.


FOTOGRAFIAS: MARCO MENDES


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Marco Mendes (1962) nasceu em  Anápolis (GO). Autodidata, começou a fotografar em 1987 como assistente dos fotógrafos Cristiano Quintino e Odilon Araujo. Em 1994, junto com Marcio Rodrigues fundou a Lumini Fotografia, em Belo Horizonte, estúdio especializado em moda e publicidade. Foi finalista do prêmio da Fundação Conrado Wessel nos anos 2007, 2008 e 2009. Recebeu o prêmio da Fundação Conrado Wessel, 1º lugar na categoria Ensaio Publicado (com Marcio Rodrigues), 2009.

Publicações:

- Vale dos Cristais. Belo Horizonte: Odebrecht, 2006;
- Sol no céu da nossa casa. Belo Horizonte: Tamoio, 2008.


AS CHARGES DO DIA




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SPONHOLZ



AROEIRA



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ALPINO


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Charge (Foto: Chico Caruso)
CHICO CARUSO - O GLOBO


Charge (Foto: Miguel)
MIGUEL



Charge (Foto: Antonio Lucena)
ANTONIO LUCENA - BLOG DO NOBLAT





PAIXÃO - GAZETA DO POVO (PR)



BENETT - GAZETA DO POVO (PR)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

ATÉ LÁ

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"SÃO OS OCIOSOS QUE TRANSFORMAM O MUNDO,
POIS OS OUTROS NÃO TÊM TEMPO"
ALBERT CAMUS
POR ROQUE SPONHOLZ

PESSOAL, DIA 1 DE FEVEREIRO
ESTAREMOS DE VOLTA
ABRAÇÃO (OS)

CRÔNICA: WALCYR CARRASCO

Resultado de imagem para ILUSTRAÇÃO PESSOAS ESNOBES
ILUSTRAÇÃO: FRAGA

A DURA VIDA DE EX-RICOS

O ex-rico tem vantagens que o povo comum não tem.
Sempre sobra um parente com casa à beira-mar

POR WALCYR CARRASCO
ÉPOCA DIGITAL – 19/07/2016

Em um país como o nosso, onde mudanças econômicas são tsunamis, fortunas vão e vêm. Quando adolescente, conheci várias famílias que perderam tudo no café, em São Paulo. Lembro de um palacete onde até os vidros eram importados da França. Vitrines repletas de biscuits. Um dia fiquei para jantar. Serviram... uma espiga de milho cozida para cada um! Juro. Já relatei o fato até em novelas. Surpreso,  pensei: na casa do meu pai, ferroviário, ao menos tinha arroz e feijão! Quando estive em Ilhéus, conheci uma família que fez fortuna no auge do cacau. Uma das senhoras havia sido pianista e conhecido personalidades da Semana de 22, em São Paulo. Havia um piano na sala e tentei ser gentil:

– Toque para nós.

Desastre! O piano estava quebrado. Ela tentou arrancar algum som. Não havia fundos nem para consertar o piano!

Uma nova casta de ex-ricos vai e vem. É a dos executivos desempregados. Empresas contratam diretores a peso de ouro. Em certo momento, ou quebram, ou são pegas pela Justiça, ou decidem renovar o quadro. O diretor sai, próximo aos 60 anos. Tem um bom dinheiro. Título do Paulistano, um dos clubes mais elegantes de São Paulo. Mora numa cobertura. Só não se preocupou muito em formar renda, a vida era muito elegante para isso. Cria uma empresa, em geral de importação e exportação. Como alto executivo, está acostumado a uma estrutura. Aluga um andar. Contrata secretárias. Compra móveis. Instala-se com elegância. Enquanto seu concorrente, que vem de baixo, atende ele próprio o telefone e talvez trabalhe na mesa da cozinha da mãe. A nova empresa não dá prejuízo. Vai para o escambau. O leão que antes comandava centenas, milhares de funcionários, vai para casa, aguardar a mulher voltar do cabeleireiro.

Mas é como vício. Há um amigo que sempre diz:

– Dinheiro vicia mais rápido que cocaína.

Hábitos são difíceis de perder. Vendem um quadro, que a mulher herdou. Gastam para esquiar na Europa. Entram no cheque especial para jantar fora, com amigos. Conheci a ex-CEO de uma corporação. Nas compras, se gostava de um modelo, comprava um de cada cor. Saiu. Achou que encontraria recolocação rápida. Dois anos depois, estava ela mesma vendendo roupas feitas no porta-malas do carro. Um amigo, ex-rico, estudou nos melhores colégios. Fala francês perfeitamente. O motor do carro, blindado, fundiu. Só lhe resta usar o carro que o pai, ainda bem de vida, comprou para os dias de rodízio. Modelo simples. Tem vergonha.

Ex-rico sente que a perda do dinheiro é defeito pessoal. Talvez seus amigos ainda ricos pagassem os jantares. Mas eles têm vergonha da situação! Começa o discurso.

– Quero uma vida mais simples, cansei de sair!

– Não fui para a Europa neste ano porque quero conhecer o Brasil.

Há vantagens, que o povo comum não tem. Sempre sobra um parente com casa à beira-mar. Às vezes o próprio ex-rico tem a sua, em um elegante refúgio campestre. Mas vender a casa como, na crise? Às vezes não paga o condomínio do apartamento. Horror, horror, demite o motorista. A própria ex-rica leva o cachorro para tomar banho. Diz que prefere, mas ninguém acredita. Sobra o título do Paulistano. Malha na academia de lá. Mas, após a malhação, não há dinheiro para um sanduíche! De repente, o apartamento está para ir a leilão. O antigo superdiretor tenta um emprego mais simples, com os bons amigos. Não consegue. Pela idade. Vem a explicação.

– Você tem qualificações demais. Merece coisa melhor.

A empresa contrata um rapaz promissor, de 30 anos. Enquanto isso, a ex-rica, mulher do ex-diretor, aprende a fazer as unhas, com a filha. Uma tira a cutícula da outra. Economia até na manicure!

Na atual crise, há ex-ricos em vários momentos da curva. A maioria perderá até o apartamento em leilão por falta de pagar o condomínio. Os mais rápidos se viram. Já vi o ex-presidente de uma corporação virar taxista. Há os que alugam o apartamento. Mudam-se para o interior ou para a casa de campo que sobrou. Aos amigos, explicam:

– Quero um estilo de vida mais simples.

Ou seja, ir a pé até a padaria. É a salvação. Dinheiro é mesmo como cocaína. Quem deseja conseguir abandonar o vício monetário e o consumismo, que implica muitos pequenos caros hábitos, precisa mudar de turma. Mudar para longe é a única saída. Voltar às raízes e ter a tal vida simples. Mas o ex-rico só se convence quando raspou o tacho. E não sobrou nem para um último gole de vinho francês.