quinta-feira, 7 de abril de 2016

NÚBIA NONATO

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DOS ENCONTROS

Nunca fui uma menina extrovertida, como adolescente
fui tímida e de certa forma invejava minhas colegas tão
populares, tão descoladas.
Estudei em uma escola particular tradicional do meu bairro
eu era bolsista e durante quatro anos letivos estudei sem
pagar um tostão desde que não fosse reprovada. Em alguns
isso causava admiração em outros isso fazia a diferença.
Aprendi a lidar com a tal diferença fazendo uso do
atributo mais relevante que eu tinha e me esforçava ao
máximo para fazer valer a pena cada ano.
Amizades vieram e se foram na mesma proporção da
ferrugem que corrói sem dó, restando de alguns, apenas
uma vaga lembrança.
Lembrei-me do Cocota, que geralmente tirava a irmã do sério
só por respirar e de quando ele fez a turma inteira cair na gargalhada 
durante uma missa.
Da menina mais bonita, do garoto mais cheiroso, do mais
assediado pelas meninas, do mais bagunceiro e por aí vai...
Abençoada seja a memória que embola todos os encontros
sem peneirar. (Núbia Nonato)

A NUVEM PRATEADA


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Tela de Toulouse Lautrec


(Por Glória Braga Horta) Antes de se decidir pela viagem, resolveu consultar o I Ching.  Essa ida à Europa não estava em seus planos naquele momento, não assim tão repentinamente.  Precisava saber se valia a pena embarcar para um destino que talvez não lhe fosse favorável.

Não teve dúvidas ante a resposta decisiva do oráculo: Hexagrama 42 – O Acréscimo. É propício ter em vista um objetivo. É favorável atravessar a grande água.

A Cidade Luz – primeira etapa de sua viagem – deixou-a de tal forma extasiada que ela não conseguia despregar os pés daquele solo magnetizante.  Decidiu ficar até que sentisse esgotar os encantamentos ao seu redor, até que seu coração transbordasse de tanta arte e poesia.

Não se cansava de admirar aqueles jardins magnificamente floridos, as árvores do outono desnudas, com suas folhas alaranjadas caídas ao chão.  Seu espírito inquieto acalmava-se com a magia das noites frias e encantadas pelos troncos retorcidos das árvores. Os galhos envolvidos na penumbra….  Fantasmagórica e misteriosa visão!

Impulsionada com frequência a pegar o primeiro ônibus que aparecesse, deixava-se conduzir sem saber seu itinerário. Nessas ocasiões, imaginava-se envolta numa nuvem prateada. Deixava extravasar toda a fantasia, todos os sonhos lúdicos e romanescos que guardava na alma.

Apesar de não lhe parecer real, ali estava toda a luminosidade que os pintores impressionistas  transportavam para suas telas. Sentia o fascínio que inspirou aqueles artistas da “Belle Époque”.

Atraída por uma forte onda magnética, desce em Pigalle, um dos bairros mais exóticos de Paris.  Era o ambiente da boemia, das prostitutas, dos travestis, do Moulin Rouge… O mundo luxuriante e espetaculoso.

A nuvem prateada ainda a envolvia – como envolvera todos aqueles pintores também – pensou.

Ali, na Place Blanche, aprecia o anoitecer.  Iria agora ver a iluminação do Moulin Rouge, captar um pouco daquela energia impressionante que ele transmitia. De frente para o Moinho, fecha os olhos e visualiza uma das telas que Toulouse-Lautrec pintou de seu interior e vê-se retratada nele, como uma de suas personagens.

Ainda de olhos fechados, não nota que estava sendo observada, quando escuta uma voz grave bem perto de seu ouvido: “Vos papiers, s’il vou plaît”. Era um guardinha pedindo-lhe os documentos… e ela não os tinha! Carregava consigo somente a carteirinha da “L’Alliance Française”. Insuficiente. Ele a convida a acompanhá-lo até o camburão.

A nuvem prateada se desvanece e ela cai de volta à terra…


Mineira de Mutum,
Glória Braga Horta
é jornalista, poeta, cronista,
cantora e tecladista



A viatura está lotada de policiais que a olham de modo malicioso, apesar de discretamente vestida.  – “Montez, montez!”, ordena-lhe o policial. – “Je ne monte pas, je ne monte pas”, retruca, batendo o pé no chão, a mão no quadril.

E não montou mesmo!  “Onde já se viu… entrar num camburão cheio de policiais …”, pensa indignada.   O chefão pergunta sua nacionalidade e o motivo que a levou a Paris. “Sou brasileira e vim a serviço do meu coração inquieto e sonhador”, explica sorrindo. Ele logo percebe tratar-se apenas de uma ingênua e romântica turista.

O jovem policial a acompanha até o ponto de ônibus. Dessa vez, ele sussurra suavemente mais perto ainda de seu ouvido, algumas palavras que ela, com seu parco francês, assim entendeu: “Olha, é muito perigoso andar sozinha por estas redondezas.  Se quiseres conhecer  melhor Pigalle, vem amanhã depois das onze que já estarei de folga!”

Ela pega o ônibus, desce frente ao habitual café bistrô, entra e pede uma taça de vinho.   Delicadamente, sorve o divino e translúcido líquido rubi.


E a nuvem prateada volta a envolvê-la…

CHARGES: SPONHOLZ




































Roque Sponholz é arquiteto, urbanista, 
professor universitário, 
chargista, caricaturista e cartunista 

POLÍTICA/OPINIÃO: MARCO ANTONIO VILLA

05.04.2016 - O Globo



 O BRASIL DÁ ADEUS A LULA

(Por Marco Antonio Villa) Assistimos aos últimos dias do projeto criminoso no poder. O país padeceu durante treze anos de uma forma de ação política que associou o velho coronelismo tupiniquim ao leninismo — e com toques de um stalinismo tropical, mais suave, porém mais eficaz. Ainda não sabemos — dada a proximidade histórica — quais os efeitos duradouros deste tipo de domínio que levou à tomada do aparelho de Estado e de seus braços por milhares de funcionários-militantes, que transformaram a ação estatal em correia de transmissão do projeto petista, criminoso em sua ação e devastador na destruição do patrimônio nacional.

É nesta conjuntura — a mais grave da história do Brasil republicano — que as nossas instituições vão ser efetivamente testadas. Até o momento, uma delas, o Supremo Tribunal Federal, ainda não passou no exame. Muito pelo contrário. Inventou um rito de impeachment que viola a Constituição. Sim, viola a Constituição. Deu ao Senado o “direito” de votar se aceita a abertura de processo aprovada pela Câmara, o que afronta os artigos 51 e 52 da Constituição. E interferiu até na composição da comissão processante da Câmara. Pior deverá ser a concessão de foro privilegiado e, mais ainda, do cargo de ministro-chefe da Casa Civil a Luís Inácio Lula da Silva. Caso isso ocorra — e saberemos nesta semana — o STF deixará de ser um poder independente e passará a ser um mero puxadinho do Palácio do Planalto, uma Suprema Corte ao estilo da antiga URSS.


Marco Antonio Villa é historiador

Ainda na esfera do STF, causa preocupação o seu protagonismo em um processo estritamente político como é o impeachment. Não cabe à Suprema Corte decidir o andamento interno e o debate congressual do impeachment. O STF não pode, em nenhuma hipótese, se transformar no Poder Moderador — de triste memória, basta recordar os artigos 98-101 da Constituição de 1824. E nem desempenhar o papel que o Exército teve nas crises políticas desde a proclamação da República até a promulgação da Constituição de 1988. Em outras palavras, o STF não pode ser a carta na mão de golpistas, que a colocam na mesa quando estão correndo risco de derrota. Judicializar o impeachment é agravar ainda mais a crise e jogar o país no caos social e político.

A solução do impasse político é no Parlamento — e com a participação das ruas. A manifestação de 13 de março — a maior da história do Brasil — impediu uma saída negociada do projeto criminoso do poder. O sinal das ruas foi claro: fora Dilma e Lula na cadeia. A estas duas palavras de ordem, as ruas reforçaram ainda mais a necessidade imperiosa de continuidade da Lava Jato até o final. O impulso popular levou o PMDB a mudar radicalmente de posição, basta recordar a dúbia decisão tomada a 12 de março — de independência — e a meteórica reunião de 29 de março, quando rompeu com o governo.

A participação das ruas na política brasileira inaugurou um novo momento na nossa história. É incrível o desinteresse da universidade em estudar o fenômeno representado, entre outros, pelos movimentos Vem pra Rua e Brasil Livre. Ao invés de enfrentar este desafio interpretativo, os docentes das instituições públicas organizam atos e manifestos em defesa de um governo corrupto, antibrasileiro e criminoso. É a apologia ao crime — e paga com dinheiro público.

Lula — que é quem, de fato, vai ser “impichado” — agirá para desestabilizar o processo democrático, como se fosse um general abandonando território conquistado. Destruirá o que for possível destruir. Não deixará pedra sobre pedra

A resposta do projeto criminoso de poder foi pífia. Tentou de todas as formas organizar manifestações para demonstrar que ainda domina as ruas e tem apoio popular. Fracassou. Mesmo utilizando-se de fartos recursos públicos, de partidos políticos, centrais sindicais pelegas e contando com setores da imprensa para inflar o número de participantes. Pior foram os comícios realizados no Palácio do Planalto. Nunca a sede do Executivo Federal assistiu aos tristes espetáculos de incitação à violência, de ameaça à propriedade privada e ao rompimento da ordem legal. E contando com a conivência de Dilma. Lula, o presidente de fato, optou por permanecer em uma suíte de hotel, em Brasília, de onde governa o Brasil, como se a ficção dos clássicos da literatura latinoamericana — “A festa do bode”, de Mário Vargas Llosa, entre outros — fosse transformada em realidade.

Neste momento decisivo da vida nacional é necessário evitar cair nas armadilhas produzidas à exaustão pelo projeto criminoso de poder. Num dia insinuam que adotarão o Estado de Defesa (artigo 136 da Constituição), noutro que vão antecipar a eleição presidencial, depois que contam com um número confortável de deputados para impedir a abertura do processo de impeachment, ou que o Senado vai rejeitar a decisão da Câmara. E mais: que a saída de Dilma vai produzir uma grave crise social. Falácias. É o desespero, pois se avizinha — ainda neste mês — a derrota acachapante do petismo.

A hora do acerto de contas político está chegando. Manter o respeito à lei, à ordem e à Constituição é essencial. Lula — que é quem, de fato, vai ser “impichado” — agirá para desestabilizar o processo democrático, como se fosse um general abandonando território conquistado. Destruirá o que for possível destruir. Não deixará pedra sobre pedra — daí a necessidade da sua prisão, pois solto coloca em risco a ordem pública, desrespeita as instituições e ameaça o país com uma guerra civil. Quer transformar a sua derrota em um cataclismo nacional. Não vai conseguir. A desmoralização da política não pode chegar ao ponto de dar a ele o direito de decidir que vai incendiar o país. Ele sabe que, desta vez, como se diz popularmente, a crise não vai acabar em pizza — ou na rota do frango com polenta, em São Bernardo do Campo. Vai terminar em sushi.



quarta-feira, 6 de abril de 2016

CHARGES: DIRETO DA "BESTA"


JORNAL DA BESTA FUBANA
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JORGE BRAGA – O POPULAR (GO)





chico_caruso_-_05-04-2016
CHICO CARUSO – O GLOBO



amarildo_-_06-04-2016
AMARILDO – A GAZETA (ES)



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SID – CHARGE ONLINE




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                                                                         SID – CHARGE ONLINE
  


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NEWTON SILVA – CHARGE ONLINE



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PATER – A TRIBUNA (ES)




VIDRÁGUAS: CARMEN SÍLVIA PRESOTTO



PASSOS ROTOS

Ai, na esquina
tantas meninas
minha pele esfria
a raiva amplia
o salário é curto
ser sujeito é surto
tanto desejo,
rotos impulsos
fome de gente
sede de sonhos
ali na esquina,
densa é a esperança
e tantas são as crianças
abraços soltos
passes sem enlaces
farta é a descrença!
me busco, me perco
onde não me encontro
a pele esfria, na esquina
minha raiva amplia...
o olhar encana
uma dor me chama
ai, na esquina
minha alma esvazia.

***


Carmen Silvia Presotto 
é Coordenadora Editorial na 
empresa Vidráguas.
É também autora dos seguintes livros:

Postigos: Poesia. Editora Vidráguas, 2010.
Encaixes: Poesia. Editora Vidráguas, 2006.             
Dobras do Tempo: Poesia. Editora Alcance, 2003.



IMAGENS: TOULOUSE LAUTREC











Henri Marie Raymond de Toulouse-Lautrec Monfa
 foi um importante pintor e litógrafo francês do período pós-impressionista. 
É considerado um artista de vanguarda do Modernismo e da Art Nouveau. 
Nasceu na cidade francesa de Albi em 24 de novembro de 1864
 e faleceu, aos 36 anos de idade, na cidade de Saint-André-du-Bois 
em 9 de setembro de 1901.















Características:

·         Toulouse-Lautrec usou como temática principal de suas obras a vida boêmia de Paris;

·         Adotou um tom de sátira em suas obras;

·         A composição de suas obras era dinâmica, fruto do desenvolvimento da fotografia no final do século XIX.

·         Destacava a individualidade dentro dos grupos de pessoas;

·         Tinha preferência por cores quentes e fortes (vermelho, laranja e amarelo);

·         Tinha preferência em retratar pessoas.

(Fonte: suapesquisa.com)





QUASE HISTÓRIAS (XLVI)

tudolink.com.br


TRAGÉDIA CARIOCA

Foi assim durante quase duas décadas. Logo cedo, alguém punha a velha no sol; logo depois, às vezes nem tão logo assim, outro alguém tirava a velha do sol. Diariamente, o ritual se repetia – exceto, obviamente, nos dias de chuva.

No começo, era quase farra, tarefa dividida pela família. Filho, nora e netos se revezavam. O cachorro de estimação se divertia a valer com a turma empurrando a cadeira de rodas da velha até o quintal.

As crianças cresceram, foram cuidar da vida. O cachorro de estimação morreu. Seu substituto – ninguém sabe por que – odiava a velha e sua cadeira de rodas.

A tarefa de pôr e tirar a velha do sol virou função da empregada. A situação apertou. Sabem como é? Viver de aposentadoria é uma desgraça daquelas. A empregada se foi com os salários atrasados. Com ódio de todos da casa, especialmente da velha.

Alquebrados, filho e nora passaram, então, a dividir a tarefa de pôr a velha no sol e tirar a velha do sol. Naquele dia, filho e nora cumpriram apenas parte da tarefa: colocaram a velha no sol...

Rio, 45 graus.

No dia seguinte, a velha, que era tão branquinha, foi enterrada mais escura que Clementina de Jesus. Nenhuma lágrima foi vertida pela família.


BODAS DE OURO

- Cadê meu chinelinho de quarto, meu velho?

- Não sei, não, querida. Vou procurá-lo.




CHARGES: SPONHOLZ



Roque Sponholz é arquiteto, urbanista, 
professor universitário, 
chargista, caricaturista e cartunista 













O CANTO DE VÓLIA



SABIÁ

Você me pergunta de onde
Vêm os versos que faço:
Vou lhe contar um segredo:

É que dentro do meu peito
Mora um pequeno sabiá.
Que canta no alvorecer,
E quando o sol vai se deitar.

Ele canta de alegria, de tristeza,
De saudade,
E assim sua cantiga, plena e bela,
Invade-me,
E surgem os versos, que escrevo.

E quando, às vezes, ele cala
Inunda-me um sofrimento,
Uma nostalgia,
E em prece eu lhe rogo:


Canta Sabiá, canta,
Envolve meu coração
De alegria...

E nas horas de solidão,
Quando a tristeza,
Busca ser a minha companheira;
Eu rogo a meu sabiá:

Canta sabiá, canta;
Leva-me nas asas do
Vento,
Afasta-me desse tormento,

E ele me conduz ao
Mundo da imaginação,
E eu levo comigo apenas,
O meu simples coração.

Que se abre em mil versos
Que transbordam de minha
Mente,
Qual se fora uma oração.

15/08/2014



Vólia Loureiro do Amaral Lima é paraibana,
 engenheira civil, poetisa, romancista e artista plástica. 
Autora das obras Aos Que Ainda Sonham (Poesia) 
e Onde As Paralelas Se Encontram (Romance).