sábado, 8 de fevereiro de 2014

CLÓVIS CAMPÊLO

UM CAMPEÃO CENTENÁRIO


Assim como eu, o Santa Cruz nasceu no bairro da Boa Vista, no centro do Recife. O ano? 1914, quando a cidade ainda era um arremedo do que é hoje.

Não nasceu no seio da burguesia pernambucana ou da aristocracia açucareira e mercantil que mandava os filhos da pátria mãe gentil estudar na Europa e adquirir hábitos bizarros e diferenciados. Foi assim, na bagagem dos que regressavam, que o futebol chegou por estas plagas. Foi assim que ele aportou na cidade maurícia e terminou por seduzir os meninos da classe média que antes só se atreviam o olhá-lo de longe. Para eles, a bola ainda era um mundo a ser conquistado.

Pois bem, assim o foi. Onze desse meninos filhos da classe média, premeditando o sucesso, fundaram o Santinha na noite do dia 3 de fevereiro daquele ano longínquo.

De lá para cá, muita água rolou nesses cem anos que se completam na próxima segunda feira, dia 3 de fevereiro de 2014. Período de glórias e êxtases e períodos de insucessos comprometedores nem sempre explicáveis.

Do Pátio da Santa Cruz ao Arruda, o Santinha perambulou por vários locais e bairros, construindo parte da sua história. Mas foi no Arruda, a partir dos anos 40, onde se firmou e afirmou. De início, o terreno pertencente ao comendador Arthur Lundgreen foi alugado. Depois, comprado com a ajuda do prefeito José do Rego Maciel, que posteriormente teve o estádio inaugurado no início dos anos 70, mais precisamente em 1972, batizado com o seu nome.

A construção do estádio foi importantíssima para a nossa consolidação enquanto clube de futebol e na conquista dos títulos mais significativos. Em 1969, com ele ainda em construção, quebramos a sequência do hexa timbu e desbancamos o time da Ilha do Retiro, dando início a uma sequência vitoriosa que nos levaria ao pentacampeonato estadual.

Os anos 70, aliás, foram por demais significativos. Montamos grandes equipes e conquistamos grandes vitórias contra equipes campeãs nacionalmente. Elevamos o nome do Santa Cruz no cenário futebolístico nacional, tornado-o respeitável e digno de menção. Não foi a toa que encerramos a década com uma grande excursão pelo Oriente Médio e Europa, retornando dela invicto e ganhando da Confederação Brasileira de Futebol o título de Fita Azul do Futebol Brasileiro, em reconhecimento a essa bela campanha.

Hoje, depois de uma fase em queda no futebol brasileiro, onde chegamos a alcançar os mais baixos patamares, como uma fênix estamos renascendo e ascendendo novamente, caminhando para retornar ao lugar de destaque que sempre merecemos no futebol brasileiro.
A força da nossa torcida, presente na vida do clube mesmo nos piores momentos por nós vividos, serviu para mostrar ao mundo inteiro por que somos considerados o clube Mais Querido do futebol pernambucano.

Isso tudo deve ser lembrado com orgulho na próxima segunda-feira, dia 3 de fevereiro de 2014, quando estaremos comemorando o nosso centenário.

Recife, 2014




sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

HORA DA VITROLA: CHEGA DE SAUDADE

CHEGA DE SAUDADE
Tom Jobim e Vinicius de Moraes




Vai minha tristeza
E diz a ela que sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece
Que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer

Chega de saudade
A realidade é que sem ela não há paz
Não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai

Mas se ela voltar, se ela voltar
Que coisa linda, que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei
Na sua boca

Dentro dos meus braços
Os abraços hão de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos, e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio de você viver sem mim

Não há paz
Não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai

Dentro dos meus braços
Os abraços hão de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos, e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio de você viver sem mim

Não quero mais esse negócio de você longe de mim
Vamos deixar desse negócio de você viver sem mim


PAPAI É UM FDP. VIVA O PAPAI!

Papai virou deputado. Em dez anos, ficou rico. A vida da família mudou. Deu carro novo pros filhos, bancou viagens nacionais e internacionais pra todo mundo. Não descuidou do futuro. Investiu em imóveis e ações. Comprou gado e aves diversas. Sempre em nome de terceiros, gente próxima, do núcleo duro da família. Arranjou bons empregos pra todos. Amante e esposa conviviam socialmente. Até que...

Até que um dia pegaram o papai com a boca na botija. Um escândalo, manchete de jornais. Quem diria que papai roubava? A família resolveu fazer uma reunião de emergência. Mulher e filhos botaram papai contra a parede. (A amante não participou do encontro. Uma questão de prudência.)




Papai não deixou a falsa indignação tomar conta da sala:

-- Escuta aqui: vocês acham mesmo que eu lhes daria tudo o que lhes dei contando apenas com aquela merreca que é o salário da Câmara Federal e com o dinheiro que tomo de volta dos funcionários?

Sensível, a primeira-dama oficial foi direto ao ponto:

-- Papai está certo. Estamos no mesmo barco. A união faz a força. Que nada nos falte. Nada nos faltará, se nos mantivermos unidos. Só espero que a “outra” não roa a corda.

Papai, reconfortado com o apoio, colocou mais gelo no uísque. E foi ao banheiro: pra sondar a outra, via torpedo. 

Aparentemente, estava tudo bem. Ufa.



ESSA NÃO!

Aflito, abriu o jogo:

-- Senhor: não quero dinheiro, não quero luxo, o pouco me satisfaz. Quero um pingo de paz. Menos uma – a de cemitério. Dá pra quebrar o galho?

-- Vou pensar, pedir pra Pedro dar uma espiada no computador.


BRUNO NEGROMONTE

Toni Costa - Entrevista Exclusiva
Nas décadas de 80 e 90 atuou de forma consistente em trilhas de seriados, programas de televisão e estúdios de todo o país. Gravou e acompanhou em turnês diversos nomes da música popular brasileira e foi parceiro de alguns deles como vocês podem observar de modo mais minucioso o pequeno retrospecto biográfico e artístico que fizemos a seu respeito recentemente aqui em nosso espaço cujo título é "TONI COSTA APRESENTA AS CORES DE SUA TEXTURA SONORA", abordando inclusive acerca de sua discografia solo, que conta hoje com quatro títulos distintos: "Gente da rua", "A sorte muda", "Músicas para o violão brasileiro" e o atual "Textura colorida" e a participação de grandes nomes da MPB como o da saudosa Cássia Eller e Luiz Melodia.

Solicito, Toni prontamente atendeu ao nosso desejo de entrevistá-lo. Agora os leitores do Musicaria Brasil poderão conhecer um pouco mais sobre a biografia e a carreira deste músico que destaca-se pelo talento e pela perfeita alquimia sonora que apresenta. Nesta informal conversa Toni Costa fala um pouco sobre sua passagem pela Berklee College of Music e as suas experiências musicais longe do Brasil, a perseverança do músico instrumentista em nosso país, seu método na hora de compor dentre outras coisas como vocês poderão conferir abaixo. Boa leitura! 


Em sua família havia alguém que o inspirou para seguir carreira artística? Como se deu o seu primeiro contato com a música (mais precisamente com o instrumento com qual você hoje toca)?

TC - Infelizmente na minha casa e na minha família não tinha ninguém envolvido com música , comecei a procurar professores de violão desde os 15 anos naquela época adolescência. Estudei com Prof. Leo Soares na Pró-arte do Rio.


A música brasileira sempre foi muito respeitada no exterior, particularmente após a difusão da bossa-nova. Em sua passagem pela Berklee College of Music era possível observar isso? 

TC - Claramente, o que esses músicos fizeram para por o Brasil no circuito do jazz foi espetacular, Jobim, Gilbert, Bonfá, Luis Eça, fazem parte de qualquer Real Book (coletânea de clássicos), eu sentia maior orgulho quando pintava uma composição desses caras pra gente estudar. 


E a sua experiência nos EUA integrando algumas bandas trouxe-lhe algum “Know-how” relevante para a sua vida enquanto músico no Brasil? 

TC - Definitivamente minhas experiências com bandas de salsa em Boston, marcaram meu estilo, meu swing. Fora a enxurrada de conhecimento da linguagem jazz na escola e nas gigs. 


Trabalhar com música instrumental no Brasil requer mais perseverança que outros segmentos musicais? Pergunto isso porque, apesar de abundantes talentos existentes em nossa música que se observa é a notória falta de espaço para esse segmento.

TC - Sem dúvida , sempre foi uma aventura fazer instrumental aqui onde moro , no Rio. Houve até uma época que teve um boom com bons festivais e o público prestigiando mas agora mesmo no lançamento desse meu CD novo não consegui pauta em nenhum orgão de imprensa convencional.


Nesses mais de 30 anos de carreira você já esteve em diversos palcos tanto de maneira solo quanto acompanhando grandes nomes de nossa música, além de atuar também como produtor e arranjador de programas de TV e trilhas sonoras para o cinema. Você destacaria algum fato que de tamanha relevância fez você ter plena convicção que a sua escolha profissional não poderia ser outra?

TC - Desde os primeiros acordes tinha convicção que minha vida e música eram uma coisa só . Tenho muito orgulho de nesses mais de 30 anos ter trocado experiências musicais e de vida com grande artistas e músicos. 


Há pouco mais de 10 anos você foi uma das pessoas que implantou (ao lado maestro Luizão Paiva) a escola de música Adalgisa Paiva, na Universidade Federal do Piauí. Parece que o panorama nas escolas vem mudando ao longo dessa década que se passou desde essa sua experiência no Nordeste. Você acredita que a implementação da música nos currículos escolares é capaz de dar uma nova cara a atual conjuntura social em nosso país? Por quê?

TC - Puxa vida seria fantástico termos prática de música em todas as escolas no Brasil. Imagina quanta gente apareceria tocando, compondo, arranjando, somos um povo musical e isso daria um grande impulso.


Com exceção dos álbuns “Sorte muda” e “Músicas para o violão brasileiro” os seus demais discos foram lançados com um intervalo de tempo significativo. Há algum motivo específico para intervalos tão longos? 

TC - Não há motivo, foi o tempo que levou cada projeto, com vários outros projetos rolando no meio.


“Textura Colorida” é um álbum cuja tessitura mostra-se bastante contemporânea e é composto por canções essencialmente autorais. Essa atemporalidade de suas composições é uma característica que você procura considerar na hora de compor?

TC - Não penso nisso na hora que componho, só deixo fluir a ideia, seja de que estilo for , seja de que instrumento for e vou trabalhando, burilando a composição. Cada música tem sua importância seja de que estilo for.


Em sua condição como instrumentista na hora da composição é mais fácil entregar ao letrista uma melodia já pronta ou elaborar a melodia em cima da letra? Como se dá o seu processo de composição em parcerias?

TC - Faço das duas maneiras mas é mais comum eu entregar ao parceiro uma melodia com uma harmonia e um suingue bem definido. Mas já fiz várias músicas para letras mandadas pelos parceiros . As vezes mando até um refrão já com letra.


Você já tem uma agenda solo bastante agitada, com incursões não só no Brasil quanto no exterior, agora com o lançamento desse seu mais recente trabalho a demanda de shows deve aumentar significadamente. Como será conciliar a sua agenda solo e a do Trio Moinho? 

TC - Dá pra levar por que eu gosto de tudo, esse é o segredo.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

HORA DA VITROLA: ROBERTO CARLOS

DETALHES
De: Roberto e Erasmo Carlos




Não adianta nem tentar me esquecer
Durante muito tempo em sua vida eu vou viver

Detalhes tão pequenos de nós dois
São coisas muito grandes pra esquecer
E a toda hora vão estar presentes
Você vai ver

Se um outro homem aparecer na sua rua
E isso lhe trouxer saudades minhas, a culpa é sua
O ronco barulhento do seu carro
A velha calça desbotada ou coisa assim
Imediatamente você vai lembrar de mim

Eu sei que um outro deve estar falando ao seu ouvido
Palavras de amor como eu falei, mas, eu duvido
Duvido que ele tenha tanto amor
E até os erros do meu português ruim
E nessa hora você vai lembrar de mim

À noite, envolvida no silêncio do seu quarto,
Antes de dormir você procura o meu retrato
Mas na moldura não sou eu quem lhe sorri
Mas você vê o meu sorriso mesmo assim
E tudo isso vai fazer você lembrar de mim

Se alguém tocar seu corpo como eu, não diga nada
Não vá dizer meu nome sem querer à pessoa errada
Pensando ter amor nesse momento, desesperada,
Você tenta até o fim
E até nesse momento você vai lembrar de mim

Eu sei que esses detalhes vão sumir na longa estrada
Do tempo que transforma todo amor em quase nada
Mas quase também é mais um detalhe
Um grande amor não vai morrer assim
Por isso, de vez em quando você vai
Vai lembrar de mim

Não adianta nem tentar me esquecer
Durante muito e muito tempo em sua vida eu vou viver


CHÁ DAS CINCO: MILLÔR FERNANDES

SER GAGÁ

jboscocaricaturas.blogspot.com


Ser Gagá não é viver apenas nos idos do passado: é muito mais! É saber que todos os amigos já morreram e os que teimam em viver, são entrevados. É sorrir, interminavelmente, não por necessidade interior, mas porque a boca não fecha ou a dentadura é maior do que a arcada.

Ser Gagá é ficar pensando o dia inteiro em como seria bom ter trinta anos ou, vá lá, quarenta, ou mesmo, ó Deus, sessenta! É ficar olhando os brotinhos que passeiam, com o olhar esclerosado, numa inútil esperança. É ficar aposentado o dia inteiro, olhando no vazio, pensando em morrer logo, e sair subitamente, andando a meia hora que o separa dos cem metros da esquina, porque é preciso resistir. É dobrar o jornal encabulado, quando chega alguém jovem da família, mas ficar olhando, de soslaio, para os íntimos da coluna funerária. Ser Gagá é saber todos os mortos inscritos no Time, em Milestones. Não é saber o Who is who, mas os WHEN. É só pensar em comer, como na infância. E em certo dia passar fome as vinte e quatro horas, só de melancolia. É, na hora mais ativa do mais veloz Bang-Bang, descobrir, lá no terceiro plano, uni ator antigo, do cinema mudo, e sentir no peito a punhalada. É surpreender, subitamente, um olhar irônico que trocam dois brotinhos, que, no entanto, o ouvem seriamente. É querer aderir à bossa nova, falar “Sossega Leão” e morrer de vergonha ao perceber o fora. É não querer, não querer, mas cada dia ficar mais necessitado de amparo do que outrora. É ter estado em Paris, em 19. É descobrir, de repente, um buraco na roupa e dar graças a Deus, por ser na roupa.

Ser Gagá é sentir plenamente que tudo que se leu, que se aprendeu, que se viu e se viveu não vale nada diante do que estua. Ser Gagá é estar sempre na iminência de ouvir em plena rua: “Olha o tarado!” É ficar contente em ver Chaplin e Picasso como os “mais charmosos” de sessenta! É chamar de menina à quarentona. É ter uma esperança senil nos cientistas. É reparar, nos mais jovens, o imperceptível sinal de decadência. É ficar olhando o detalhe, nos amigos; a lentigem nas mãos, o cabelo que afina, a pele que vai desidratando. Ser Gagá é o orgulho vão de ainda ter cabelo e poucos brancos! A vaidade tola de não ter barriga; a felicidade de ter dentes próprios. E fazer grandes planos qüinqüenais que espantam os jovens que acham cinco anos a própria eternidade, mas que o Gagá sabe que voam como voaram tantos, tantos, tantos.

É se apegar, desesperadamente, pelo tremendo impulso da existência, aos filhos, aos netos e aos bisnetos, embora saiba que eles não o querem, que a convivência com eles é apenas parte e total do egoísmo vital que o enterra. É sentir que agora, outra vez, está bem de saúde. É sentir a saúde ocasional. É carregar o corpo o tempo todo. É sentir o caixão no próprio corpo. É saber que já não há quem tenha prazer em lhe acarinhar a pele. É já não ter prazer em passar a mão na própria pele. É esquecer de coisas importantes e lembrar, sem saber por que, um gosto, um calor, uma palavra há tempos esquecidos.

Ser Gagá é procurar com afã a importância do cargo para de novo ser solicitado, embora pelo cargo. É sentir que nada do que faça, espantoso que seja, terá a importância do feito de outro homem, nos inícios da vida. Ser Gagá é quando dormir tarde se torna uma loucura, resgatada em feroz resfriado que dura uma semana. É ter sabido francês, e esquecido. É já não jogar xadrez como outrora! É olhar o retrato amarelado e lembrar que fotógrafo usava magnésio. É dizer, como um feito, que ainda lê sem óculos. É ouvir que alguém diz, quando passa na rua: “inda está firme!” É ficar galante e baboseiro na terceira taça de champanha. É casar com uma mulher mais jovem e querer dar logo ao mundo a inegável prova de um filhinho.

Ser Gagá é, num esforço mortal, aceitar tudo que inventam, todas as idéias, as modas, a música, o ritmo de vida, mas não deixar de dizer numa ironia profunda e amargurada. “Eu não entendo”. É sentir de repente o isolamento. É ficar egoísta, e amedrontado. É não ter vez e nem misericórdia.

Ser Gagá é fogo. Ou melhor, é muito frio.


(Texto extraído do livro “As Cem Melhores Crônicas Brasileiras”, editado pela Editora Objetiva, Rio de Janeiro - 2007, pág. 226.)

DOWN

Aqueles olhinhos de sono...
Agora, nanam pra sempre.
Deixaram uma baita saudade.
 




MINICRÔNICAS: VISITAS

O TRATO

Ficamos assim: tarde e noite de domingo são “sagradas”. Então, você não me visita, e eu não vou à sua casa. Certo?

PAPO FROUXO

Há muito não se visitavam. A afinidade entre eles era, na hipótese mais generosa, nenhuma. Sempre fora assim. Não haveria de mudar com o tempo. Quando se encontravam em festas, a convivência era mais fácil. Muita gente, alguma bebida, nenhum compromisso de falar sobre isso ou aquilo. Cara a cara, apartados da multidão, a coisa muda – para pior.

Passados os primeiros dez minutos, os dois casais já sabiam que, ao menos no discurso, estava tudo bem com todos, que a doença da tia Maria só fazia piorar etc. O silêncio se impôs, para o constrangimento dos cinco. Cinco? Cinco. Até o cão não conseguia esconder  também seu desconforto.

O marido da dona da casa, sabedor da língua de trapo da prima, resolveu facilitar as coisas:

-- E aí, gente: vamos falar mal de quem?

A noite continuou chata. Mas, apressado, o silêncio saiu pela janela. 

E o sliêncio bateu em retirada

CAPACHOS

Para certas visitas, eles deveriam ter dupla face.
Na entrada: “SEJAM BREVES”.
Na saída: “NÃO TENHAM PRESSA DE VOLTAR”.
Mau negócio: todo mundo pensa, ninguém compra.

DIETA

Embora insuportável, um regime apoiado no tripé ovo cozido-repolho refogado-coca-cola zero o fará emagrecer rapidamente. E mais: se acompanhado de ampla divulgação, o livrará de visitas indesejáveis.





CLÓVIS CAMPÊLO: IMAGENS E TEXTO

PERCEBI





Percebi, já não é
tão fácil mudar,
é preciso se acostumar
com o que
cada um traz consigo.
E eu sei, tento, faço
e não ligo,
pois se não me expuser
como vou
conhecer os perigos.
Tenho calma
porque agora já estou sabendo,
vou levando como quem
não quer querendo,
vou chegando como quem
não quer chegar.
Se a tristeza me invade
em certos momentos,
dou um tempo,
forço um pensamento,
pois eu sei tudo há de passar.

Recife, 1976












CARNAVAL DE BEZERROS


O PAPANGU CORAL
Bezerros/PE, 2009

Fotografia de Clóvis Campêlo