terça-feira, 22 de outubro de 2013

TIA DOLORES

Levou uma vida de dores. Pelo menos é o que dizia, em detalhes e com orgulho. Gabava-se de tomar uma quantidade gigantesca de remédios, todos os dias, desde... Nem ela se lembrava desde quando. E a cada semana, segundo seu próprio diagnóstico, o quadro se agravava. Era uma nova dor que surgia aqui e acolá.

Mas verdade seja dita: reclamava, sim, mas não muito.

Gostava de exibir aos ouvintes desatentos aquele ar típico dos falsos resignados. Só ficava irada quando alguém lhe dizia, para ter fé e paciência, que fulana sofria mais que ela. Tomava tal afirmação como ofensa das grandes. Ninguém poderia sofrer mais que ela, segundo a própria. “Seria algo além de humano”.

Na saída, após ter recomendado aos visitantes que nunca fizessem vistas grossas a nenhum sintoma, “pode ser doença grave”, arrematava:

-- Voltem sempre. É tão bom bater um papo gostoso como o nosso.


COMO VAI O SEU PEPINO?

Dizem que o inferno está cheio de boas intenções. Se isso é verdade, eu não sei. Nunca estive lá nem pretendo estar algum dia. Prefiro climas mais amenos. Mas, no chamado Planeta Azul, também não falta gente bem intencionada, disposta a salvar o mundo. Logo...

Sempre fico muito sensibilizado quando ouço pessoas pregando teses politicamente corretas. Minha vontade é pisar com o calcanhar em seu dedo mindinho, até que ele fique como o nariz daquele boneco mentiroso. Dias desses, ouvi no rádio uma moça tecendo loas às hortas comunitárias – uma tendência mundial que, segundo ela, já chegou a São Paulo. A moda é tão boa que a “especialista” em salsinha e seus amigos tomateiros pedirão ao prefeito de São Paulo que a incorpore em seu plano de metas. Não precisam nem pedir. Promessas são com ele mesmo.

www.gratisonline.com.br
Em sua entrevista, a especialista em salsinhas observou que há muita gente plantando até nas sacadas de seus apartamentos. Receio que os pobres estarão fora dessa. A maioria deles tem o péssimo hábito de morar em cortiços, favelas ou em apartamentos sem terraço gourmet. Eis aí uma boa ideia para a presidente. Os futuros imóveis do Minha Casa, Minha Vida terão que ter espaços para hortas e churrasqueira. Afinal, não faz sentido exigir que os pobres andem com vasos de alface na cabeça dentro de casa.


Ainda segundo a nossa especialista em salsinhas, as hortas comunitárias já fazem sucesso na Vila Madalena, Avenida Paulista e Pompéia. Não consegui
ouvir a entrevista até o final. Não sei se a especialista chegou a criticar o agronegócio. Penso que sim. Uma pessoa como ela jamais desperdiçaria uma oportunidade dessas. (março de 2013)

SOBRE VOTO E MERCADORIA

De tempos em tempos, o tema volta a ser alvo de discussões: afinal, no Parlamento, o voto deve ser sempre aberto, independentemente da matéria em pauta, ou em alguns casos deve continuar sendo fechado?

Laycer Tomaz/Agência Câmara
A opinião da maioria das pessoas é conhecida: voto aberto em todas as situações e não se fala mais nisso. Políticos sérios e analistas respeitados, porém, discordam da voz das ruas e becos. Argumentam que, em algumas situações, como no caso dos vetos, o voto secreto é necessário, pois permite que o parlamentar se posicione livremente, de acordo com sua consciência, livre de pressões indevidas – ou seriam “ocultas”?

Trata-se, nos dias de hoje, de discussão descabida. Há muito, o Parlamento não se respeita. Prova disso é que, em confronto aberto com a Constituição da República, simplesmente não analisa os vetos. No Congresso, há cerca de três mil sem análise. No ano passado, cogitou-se votar todos de uma vez, numa única sessão. Na semana passada, deputados e senadores acataram veto da presidente. O projeto havia sido aprovado por unanimidade pelos senadores dois ou três meses antes. É um desconchavo.

Sei que, no caso dos vetos, é de interesse do Executivo que a votação seja aberta, para saber quem “está” com ele ou “não está”. Não se pode dizer que esteja de todo errado. Afinal, no Código do Consumidor, está previsto que quem vende a mercadoria tem que entregá-la. No “código” de certas organizações, a premissa é tão óbvia que não precisa estar escrita.




FILHOS DE EVA

Os de alma pura são adeptos da tese de que todos nós, sem exceção, nascemos boníssimos, feito anjos superiores. Pena que a sociedade perverta tantos e tantos, a maioria talvez...


Trata-se, evidentemente, de equívoco dos grandes, basbaquice desmedida. Fosse assim, Caim não teria matado Abel. Apesar de ser a porcaria que ela é, a sociedade é um freio para nossos piores instintos.

QUESTÃO DE ESCOLHA

Melhor sentar-se à mesa com um adversário leal que entornar uns chopes com um aliado oportunista.

EMPLASTRO SABIÁ

É raro encontrar alguém que seja contra a tal da reforma política, muito embora cada um de nós tenha sua própria ideia de reforma política na cabeça. E dela não abra mão.

Um lembrete: apontada como panaceia, ela não dá jeito na falta de caráter.


RUIM COM ELE...

Melhor sem ele.

A ÚLTIMA FLOR DO LÁCIO

Sem tirar os olhos da tela do computador, a colega perguntou ao colega ao lado, igualmente com os olhos grudados no monitor:

-- É impretero ou impreiteiro?

-- Impreiteiro, com i depois do e.


-- Eta! Então, vou ter que corrigir esse documento. Escreveram empreiteiro. Haja saco. Fazem a coisa errada e depois a gente tem de corrigir. Custa perguntar, se não sabe?  

RÉU CONFESSO

Não me lembro de ter visto em alguma empresa privada placas afixadas na parede advertindo o distinto público de que é crime, previsto na lei X, artigo Y, inciso Z, desacatar os funcionários. Tal advertência, no entanto, está exposta em toda repartição pública, em lugar de destaque, bem atrás do servidor que, em geral, trata os contribuintes a pontapés.


CONVERSINHA MOLE

Como levar a sério um Congresso que, por interesse e omissão, há anos e anos não cumpre sua tarefa constitucional de deliberar sobre os vetos presidenciais, hoje na casa dos três mil?

Desgraça pouca, sabemos, é bobagem: as demais casas legislativas – Assembleias Estaduais e Câmaras Municipais – do país seguem na mesma batida.


E esta situação de absoluto descrédito da sociedade no Poder Legislativo não irá mudar tão cedo, a partir de medidas cosméticas e pontuais. É preciso colocar um cabresto, como dizia o ex-deputado federal Arnaldo Madeira (PSDB-SP), um dos mais preparados do país, nos que foram eleitos para nos representar no Parlamento. E isto só é possível com o voto distrital. O resto é conversinha.