quarta-feira, 23 de outubro de 2019

NEM PENSAR, ANANIAS!

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-- Ananias, diga “não”, e pronto. Não perca tempo com falsas explicações, com mentirinhas nas quais ninguém acredita: “Minha mulher e eu fizemos um pacto: se eu assinar, ela não assina, e vice-versa”. O sujeito vai lá, conversa com sua patroa, amolece o coração dela e você fica sem saída. Acaba por assinar a papelada. Ser fiador? Nunca mais.

-- É que o rapaz, Velho Marinheiro, é meu amigo de longa data...

-- Fie-se nisso. Ele pode até ser honesto, mas depois de amanhã perde o emprego, vira a cabeça, sei lá. E quem terá que pagar o aluguel dele? Ora, você quer perder sua casa ou o pouco que tem na poupança? O sujeito que vá ao banco e pague um seguro fiança.

-- O senhor tem razão, mas é que...

-- Não quero ter razão, Ananias. Não quero que você se estrepe outra vez na vida. Já sei. Não tem coragem. Vou lá com você. Aproveito a ocasião e aviso o homem: “Ananias e sua patroa também não batizam mais ninguém”.

-- Como o senhor sabe que ele me convidou para batizar o filho?

-- Ananias: a desgraça nunca anda só, está sempre com más companhias.

-- O senhor se recusa a batizar uma criança?

-- Não recuso nem batizo. Não sou padre. Eu me recuso é ser padrinho. Tenho vários afilhados. Todos eles só vieram à minha casa para pedir isso e aquilo. Anos atrás, um compadre, depois da cerimônia religiosa e do almoço (que Mafalda e eu pagamos), me sai com essa: “Agora, posso morrer em paz. Minha filhinha tem um segundo pai e uma segunda mãe, está em boas mãos.” Vá se catar! Que cada um cuide dos seus. 

-- E como o senhor faz para se livrar do convite?

-- Ananias: no começo, eu dizia “não quero” e ponto final. Mafalda insistia para que eu não fosse tão direto, grosseiro. Passei a adotar uma estratégia. Se os pais são católicos, digo que somos evangélicos. Se eles são evangélicos, digo que não saímos do terreiro...

-- Mas, afinal, do ponto de vista religioso, o que o senhor é?

-- Filho de Deus. Apesar de agnóstico.  (OS - 2014 - atualizado em outubro de 2019)

terça-feira, 22 de outubro de 2019

HORA DA VITROLA: ALCEU VALENÇA (ANUNCIAÇÃO)


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ANUNCIAÇÃO
De Alceu Valença 
(Com orquestra de Ouro Preto)

Na bruma leve das paixões que vem de dentro
Tu vens chegando prá brincar no meu quintal (bis)

No teu cavalo peito nu cabelo ao vento
E o sol quarando nossas roupas no varal

Tu vens tu vens (bis)
Eu já escuto os teus sinais
A voz do anjo sussurou no meu ouvido
E eu não duvido já escuto os teus sinais
Que tu virias numa manhã de domingo
Eu te anuncio nos sinos das catedrais ...



QUASE HISTÓRIAS: HORAS MORTAS

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IMAGEM GOOGLE


Há quem as amaldiçoe. Eu não. Para mim, cuja opinião pouco ou nada vale, elas são as melhores horas. O telefone não toca, o WhatsApp cochila, a campainha não dá sinal de vida, as vozes da casa dormem o sono possível. Até o galo, sempre atento e arisco, finge-se de morto. As ruas sem gente me dão uma sensação rara e indescritível de liberdade. Claro está que liberdade plena não há. Mas nada é perfeito. Ainda bem. Que graça teriam nossas raras virtudes, sem nossos inúmeros defeitos? Vida insossa, penso eu, a dos candidatos a santo.

Como companhia, nas melhores horas, eu tenho apenas os velhos fantasmas de sempre. Deve ser assim com todo mundo. Ou, ao menos, com quem se dispõe a curtir as horas mortas. No passado, os fantasmas me assombravam. O tempo - sempre ele -, no entanto, mudou minha percepção. Hoje, somos quase íntimos, quase amigos - cúmplices com certeza. Às vezes, eles debocham de minhas poucas ideias. Sabem que, logo, logo, eu as abandonarei no meio do caminho para que ressurjam amanhã como se fossem novidades. Não ligo, deixo a opinião deles pra lá. 

Do futuro espero pouco - o que também não me chateia. Planos são para os jovens, para quem ainda tem uma longa estrada pela frente. Ou, então, para os que fazem de conta que a tem. Iludir-se é uma maneira de sobreviver, uma forma de tocar o barco sem remar. Não os recrimino. Cada um que faça da vida o que bem quer.

Já remoí muito o passado. Hoje, não. O bandido mais machuca que ensina. Procuro me concentrar nas boas lembranças, nem sempre consigo. Mas, em geral, aproveito as horas mortas para sorrir ou chorar. Raramente gargalho. Rabisco palavras e setas. Com as últimas, hábito antigo, eu talvez busque uma saída improvável, embora não saiba para quê nem por quê. Com as primeiras, escrevo besteirinhas que, cedo ou tarde, pouca gente lerá. E ainda dizem que a maior parte dos homens não tem bom senso.

(OS - atualizado em outubro de 2019)


sexta-feira, 18 de outubro de 2019

RAPIDÍSSIMAS

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FOTO: GOOGLE


NA POLÍTICA

É FLA X FLU. Na vida real, o povo continua mesmo levando uma vidinha de Portuguesa de Desportos, algumas divisões abaixo da primeira.

QUADRILHA

Ninguém podia acusá-los de incoerentes. Ali, todos se odiavam.

COMO SE SABE

A inveja é uma m... O invejoso, seu órgão excretor.

PUNGUISTA

A desilusão bateu, à sorrelfa, a velha carteira de poucos sonhos.

DICOTOMIA

A cabeça, ainda lúcida, planeja, traça e revê estratégias, chega a sonhar. Mas o corpo já não a obedece mais.


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IMAGEM: DEPOSITPHOTOS

MEIO A MEIO

- E aí, seu João, como vai a saúde?
- Da cintura pra cima, tudo ótimo.

AH

Se não fossem os “mas”, “contudo”, “porém”, “todavia”... Que maravilha viver.

BANDO?

Não, não, não. Melhor amar e desamar sozinho.

BALANÇO

Fazer coisa dessas para quê? Não dá para mudar o passado. Melhor viver o pouco tempo que nos resta.

(OS – outubro 2019)


    








quarta-feira, 16 de outubro de 2019

LUVAS PRA QUÊ?



YOUTUBE

O Velho Marinheiro, nosso Lobo do Mar, entrou sala adentro pisando duro, soltando fogo pelas fuças, imprecando contra Deus, o diabo e a terra do sol. Não falou com ninguém. Nem com Mafalda, sua mulher. Foi direto para o quartinho no fundo do quintal, onde guardava suas tralhas. E por lá ficou bom tempo, revirando caixas e recortes de jornais, esbravejando.

-- O que será que vovô tem? – quis saber Irene, sua neta predileta. Vou lá ver.

-- Não vá. Quando ele fica assim, melhor não chegar perto – aconselhou Mafalda. A raiva dele logo passa. Estou acostumada.

Meia hora depois, já mais calmo, nosso enfrentador de ondas e caçador de bicho de pé inexistente, retornou à sala. E sem que, por prudência, ninguém lhe perguntasse nada, foi direto ao assunto:

-- Não me comprem mais nada na padaria da esquina – ordenou. Aquilo é uma imundície só.

-- Que barbaridade, meu velho. A padaria é tão bonita, chique mesmo; os funcionários estão sempre de uniforme limpo, redinha na cabeça e luvas nas mãos...

-- E de que vale tudo isso? Agorinha mesmo, flagrei o rapaz que faz lanches coçando com vigor as partes baixas. Com a mão e a luva por dentro das calças! Rejeitei o lanche, lhe disse poucas e boas, tive vontade de lhe cortar o "instrumento". Se eles fazem isso na frente do cliente, imagine o que não fazem os padeiros pelas costas dos fregueses. Haja furico. Ali, não piso mais. (OS - agosto/2013, atualizado em outubro de 2019)



terça-feira, 15 de outubro de 2019

QUASE HISTÓRIAS; PEÇA MENOS DO QUE PRECISA


Não conheço gente que goste de se passar por besta. Não fujo à regra. Embora tenha cara de besta, jeito de besta e me façam sempre de besta, não sou besta. Acho. O fato objetivo é que ir ao açougue, laticínios ou a qualquer estabelecimento comercial que venda mercadorias por peso tornou-se, para mim, tarefa penosa. Vou apreensivo, volto com os nervos arruinados. A desfaçatez dos balconistas é medonha. Rezam pela mesma cartilha. Foram todos adestrados na Escola da Lambança Comercial.

Até chego animado, na esperança de que o inevitável não ocorra. Esperança tola. O inevitável logo se apresenta. Saco a lista de compras do bolso e faço o pedido:

— Duzentos gramas de peito de peru light sem casca e duzentos de salame, por favor.

— Só isso, hoje?! – grunhe o atendente com a falta de modos característica dos mal pagos.

Você nunca sabe se, afinal, ele está lhe fazendo uma pergunta ou ironizando seu gasto miúdo. O que pretende o infeliz: que eu esvazie o estoque da espelunca em que ele trabalha? Que eu me empanzine de embutidos até enfartar?

Confirmado o pedido, o troco vem a cavalo.

— Passou um pouco. Posso deixar ou quer que eu tire? – pergunta o enfarado de avental.

— Mas passou quanto?

— Deixa ver. Deu 320 de peito e 350 de salame.

— Passou muito, mas pode deixar.

Ante os olhares superiores da turma do cartão-alimentação, que está ansiosa na fila, sai mais barato pagar mais caro que passar por mendigo. Antes de entrar no açougue, a próxima de outras paradas obrigatórias, melhor examinar o bolso. Por que ali, com certeza, também “vai passar um pouquinho”, coisa de 50% a mais do pedido. É preciso ver se há dinheiro para tanto... (OS 2013- ATUALIZADO EM OUTUBRO DE 2018)




sábado, 5 de outubro de 2019

HORA DA VITROLA: ALCIONE

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HEITOR DOS PRAZERES

NÃO DEIXE O SAMBA MORRER
De Edson Gomes da Conceição e Aloísio Silva



Não deixa o samba morrer
Não deixa o samba acabar
O morro foi feito de samba
De samba para gente sambar

Quando eu não puder pisar mais na avenida
Quando as minhas pernas não puderem aguentar
Levar meu corpo, junto com meu samba
O meu anel de bamba, entrego a quem mereça usar

E quando eu não puder pisar mais na avenida
Quando as minhas pernas não puderem aguentar
Levar meu corpo, junto com meu samba
O meu anel de bamba, entrego a quem mereça usar

Eu vou ficar
No meio do povo
Espiando
Minha escola perdendo ou ganhando
Mais um carnaval
Antes de me despedir
Deixo ao sambista mais novo
O meu pedido final

Antes de me despedir
Deixo ao sambista mais novo
O meu pedido final

Não deixa o samba morrer
Não deixa o samba acabar
O morro foi feito de samba
De samba para gente sambar

Não deixa o samba morrer
Não deixa o samba acabar
O morro foi feito de samba
De samba para gente sambar

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HEITOR DOS PRAZERES


PARABÉNS PRA VOCÊ
De Mauro Diniz, Ratinho, Sereno
Com Fundo de Quintal




Se o tempo passou e não fui feliz
Sei lá das razões foi
Deus quem não quis
Você me propôs e não foi capaz
Fez pouco de mim até nunca mais

A dor que passou deixou cicatriz
Pois aquele amor já tinha raiz
Profunda no coração
Foi tão ruim amar em vão
Agora me deixe ir
Adeus eu vou fugir da ilusão

Parabéns pra você por tentar me enganar
Me ferir por prazer num capricho vulgar
Me querer por querer
Pra depois se negar à decisão
Abusar sem pensar foi demais pro meu coração

Problema teu
Se daqui pra frente esta saudade
Em tua vida for metade
Por favor não vem me procurar


sábado, 21 de setembro de 2019

HORA DA VITROLA: ALCEU VALENÇA

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MORENA TROPICANA
De Alceu Valença




Da manga rosa
Quero gosto e o sumo.
Melão maduro, sapoti, juá.
Jaboticaba, teu olhar noturno;
Beijo travoso de umbú cajá.

Pele macia,
Ai! carne de cajú!
Saliva doce, doce mel,
Mel de uruçú.

Linda morena,
Fruta de vez temporana,
Caldo de cana caiana,
Vem me desfrutar!
Linda morena,
Fruta de vez temporana,
Caldo de cana caiana,
Vou te desfrutar!

Morena Tropicana,
Eu quero teu sabor.
Ai! Ai! Ioiô! Ioiô! (2x)

Da manga rosa
Quero gosto e o sumo.
Melão maduro, sapoti, juá.
Jaboticaba, teu olhar noturno;
Beijo travoso de umbú cajá.

Pele macia,
Ai! carne de cajú!
Saliva doce, doce mel,
Mel de uruçú.

Linda morena,
Fruta de vez temporana,
Caldo de cana caiana,
Vou te desfrutar!
Linda morena,
Fruta de vez temporana,
Caldo de cana caiana,
Vem me desfrutar!

Morena Tropicana,
Eu quero teu sabor.
Ai! Ai! Ioiô! Ioiô! (2x)

Morena Tropicana,
Eu quero teu sabor.
Ai! Ai! Ioiô! Ioiô! (2x)

Da manga rosa
Quero gosto e o sumo.
Melão maduro, sapoti, juá.
Jaboticaba, teu olhar noturno;
Beijo travoso de umbú cajá.

Pele macia,
Ai! carne de cajú!
Saliva doce, doce mel,
Mel de uruçú.

Linda morena,
Fruta de vez temporana,
Caldo de cana caiana,
Vou te desfrutar!
Linda morena,
Fruta de vez temporana,
Caldo de cana caiana,
Vem me desfrutar!

Morena Tropicana,
Eu quero teu sabor.
Ai! Ai! Ioiô! Ioiô! (2x)
Morena Tropicana!...

HORA DA VITROLA: ALCEU VALENÇA/ZIZI POSSI (SOLIDÃO)

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NA PRIMEIRA MANHÃ
De Alceu Valença

Na primeira manhã que te perdi
Acordei mais cansado que sozinho
Como um conde falando aos passarinhos
Como uma bumba-meu-boi sem capitão
E gemi como geme o arvoredo
Como a brisa descendo das colinas
Como quem perde o prumo e desatina
Como um boi no meio da multidão

Na segunda manhã que te perdi
Era tarde demais pra ser sozinho
Cruzei ruas, estradas e caminhos
Como um carro correndo em contramão
Pelo canto da boca num sussurro
Fiz um canto demente, absurdo
O lamento noturno dos viúvos
Como um gato gemendo no porão

Solidão.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

AMIGOS


Como alguns perceberam, ando distante do FB e do blog, por razões alheias à minha vontade – todas motivadas por alguns problemas de saúde. Tenho fé de que, em meados de outubro, voltaremos ao ritmo normal. Até lá. Abraço a todos. (OS)