Nas noites frias, antes de dormir, o
pai entrava em nosso quarto, para se certificar de que nós – minha irmã e eu –
estávamos protegidos. Levantava nossos pés e colocava as cobertas por baixo,
nos beijava e dizia “durmam com Deus”. Então, a gente dormia gostoso, sem frio,
sem medo. Acho que a gente dormia com Deus. (OS)
MENARCA
- Padre: sei que peco, mas não é
porque queira pecar. A carne é fraca, se o senhor me entende. Minha fé é miúda.
Rezo todos os dias para que o Senhor me perdoe e triplique a devoção que Lhe
tenho.
- Está no caminho certo, filho.
Reze, reze. Ainda que não saiba a razão de tantas preces. Mal não lhe fará.
Tenho certeza disso.
- Sou muito grato ao Senhor, padre,
por ter nascido homem. Jamais seria uma mulher.
- Como assim? Somos todos, homens e
mulheres, filhos de Deus. Todos iguais.
- Sei disso. Não tenho medo de quase
nada, nunca tive receio de lutar, trabalhar feito mouro pra enfrentar as
despesas. Não tenho preconceitos. Mas não posso ver sangue, uma gota sequer.
Quedo feio, feito folha seca. Não resistiria à menarca. (OS – ATUALIZADO EM AGOSTO DE 2018)
Rolando Boldrin relembra algumas historietas contadas por Mazzaropi,
com quem teve a oportunidade de contracenar em diversas oportunidades.
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Rolando Boldrin (São Joaquim da Barra – SP 22
de outubro de 1936) é músico, ator e apresentador de televisão. Desde pequeno,
aos sete anos, já tocava viola e começou uma empreitada musical junto com seu
irmão aos 12 anos de idade, formando a dupla Boy e Formiga.
Brasília é uma usina de déficits
e um bazar de ilusões.
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Fui um bom profeta, pelo menos melhor que Marx. Ele previra o colapso
do capitalismo; eu previ o contrário: o fracasso do socialismo.
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Talvez eu tenha tido os deslizes a que tinha direito porque passei
toda a juventude em absoluta castidade, num seminário. De modo que acumulei um grande
direito de pecar. Usei moderadamente o direito de pecar por falta de cooperação.
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Todo conselho é bom, desde que a gente não seja obrigado a aceitá-lo.
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A diplomacia é a arte de ver “antes”, não necessariamente de ver “mais”. E nunca ver “demais”.
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O único crepúsculo bonito é o da natureza. O dos deuses é uma
tragédia. O dos homens, uma chatice...
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A burrice no Brasil tem um passado glorioso e um futuro promissor.
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O telefone celular faz mal para a masculinidade: é cada vez menor,
anda sempre dobrado, cai a ligação várias vezes e não funciona quando entra no túnel.
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A diplomacia é como um filme pornográfico: é melhor participar que assistir.
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Estatização no Brasil é como mamilo de homem: não é útil nem
ornamental.
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Em nenhum momento consegui a grandeza. Em todos procurei escapar da mediocridade.
Roberto Campos (1917-2001) foi economista,
diplomata, ministro, senador, deputado federal, polemista e acadêmico
“O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada.
Caminhando e semeando, no fim terás o que colher”.
Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, que adotou o pseudônimo de
Cora Coralina, nasceu em 20 de agosto de 1889 em na cidade de Goiás, Goiânia.
Fez apenas os estudos primários, mas em 1910 teve um conto publicado no Anuário
Histórico Geográfico e Descritivo do Estado de Goiás, já com o seu pseudônimo.
Em 1911, fugiu com o advogado Cantídio Tolentino de Figueiredo
Bretas para Penápolis, vinte e dois anos mais velho que ela, casado e separado
da mulher. Casaram-se mais tarde, após a viuvez de Cantídio. Viveram em várias
cidades do interior paulista até 1934, quando Cantídio faleceu.
Cora Coralina e seus seis filhos mudaram-se para São Paulo.
Colaborou no Jornal O Estado de São Paulo e trabalhou como vendedora da
Livraria José Olympio. Em 1938 voltou para Penápolis e abriu uma Casa de
Retalhos.
Após quarenta e cinco anos voltou para sua cidade natal, para a
velha casa da Ponte do Rio Vermelho, onde nasceu. Trabalhou como doceira por
mais de vinte anos e assumiu seu outro ofício: o de poetisa. Cora Coralina
vendia seus doces de casa em casa e recitava suas poesias.
Recebeu diversos prêmios como escritora. Em 1983 recebeu o título de
Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal de Goiás.
Faleceu em 10 de abril de 1985, em Goiânia, GO.
Algumas obras: Poemas dos becos de Goiás e estórias mais (1965); Meu
livro de cordel (1976); Vintém de cobre (1983).
Um dia, numa rua da cidade, eu vi um velhinho
sentado na calçada
Com uma cuia de esmola e uma viola na mão
O povo parou para ouvir, ele agradeceu as
moedas
E cantou essa música, que contava uma
história
Que era mais ou menos assim:
Eu nasci há dez mil anos atrás
e não tem nada nesse mundo que eu não saiba
de mais (2x)
Eu vi Cristo ser crucificado
O amor nascer e ser assassinado
Eu vi as bruxas pegando fogo para pagarem
seus pecados,
Eu vi,
Eu vi Moisés cruzar o mar vermelho
Vi Maomé cair na terra de joelhos
Eu vi Pedro negar Cristo por três vezes
diante do espelho
Eu vi,
Eu nasci
(eu nasci)
Há dez mil anos atrás
(eu nasci há dez mil anos)
E não tem nada nesse mundo que eu não saiba
de mais (2x)
Eu vi as velas se acenderem para o Papa
Vi Babilônia ser riscada do mapa
Vi conde Drácula sugando o sangue novo
e se escondendo atrás da capa
Eu vi,
Eu vi a arca de Noé cruzar os mares
Vi Salomão cantar seus salmos pelos ares
Eu vi Zumbi fugir com os negros para floresta
pro quilombo dos palmares
Eu vi,
Eu nasci
(eu nasci)
Há dez mil anos atrás
(eu nasci há dez mil anos)
E não tem nada nesse mundo que eu não saiba
demais (2x)
Eu vi o sangue que corria da montanha
quando Hitler chamou toda a Alemanha
Vi o soldado que sonhava com a amada numa
cama de campanha
Eu li,
Eu li os simbolos sagrados de Umbanda
Eu fui criança para poder dançar ciranda
E, quando todos paraguejavam contra o frio,
eu fiz a cama na varanda
Eu nasci
(eu nasci)
Há dez mil anos atrás
(eu nasci há dez mil anos atrás)
E não tem nada nesse mundo que eu não saiba
demais
Não, não porque
Eu nasci
(eu nasci)
Há dez mil anos atrás
(eu nasci há dez mil anos atrás)
E não tem nada nesse mundo que eu não saiba
demais
Não, não
Eu tava junto com os macacos na caverna
Eu bebi vinho com as mulheres na taverna
E quando a pedra despencou da ribanceira
Eu também quebrei a perna
Eu também,
Eu fui testemunha do amor de Rapunzel
Eu vi a estrela de Davi brilhar no céu
E para aquele que provar que eu tou mentindo
eu tiro o meu chapéu
Eu nasci
(eu nasci)
Há dez mil anos atrás
(eu nasci há dez mil anos)
E não tem nada nesse mundo que eu não saiba
demais
METAMORFOSE
AMBULANTE
De Raul
Seixas
Prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Eu quero dizer
Agora o oposto do que eu disse antes
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou
Se hoje eu sou estrela
Amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio
Amanhã lhe tenho amor
Lhe tenho amor
Lhe tenho horror
Lhe faço amor
Eu sou um ator
É chato chegar
A um objetivo num instante
Eu quero viver
Nessa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou
Se hoje eu sou estrela
Amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio
Amanhã lhe tenho amor
Lhe tenho amor
Lhe tenho horror
Lhe faço amor
Eu sou um ator
Eu vou desdizer
Aquilo tudo que eu lhe disse antes
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
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Raul Seixas (1945, Salvador, BA -1989, São
Paulo, SP) foi um músico, compositor e cantor brasileiro, um dos grandes
representantes do rock no Brasil. É conhecido por músicas como “Maluco Beleza”
e “Ouro de Tolo”, que fizeram grande sucesso no país.
Raul Seixas se envolveu com ocultismo,
estudou filosofia e psicologia, o que o fez um dos poucos compositores a tentar
imprimir suas ideias em letras aliadas ao som vibrante do rock, juntamente com
ritmos nordestinos.
Em 1974, criou a Sociedade Alternativa, um
conceito de sociedade livre inspirada no ocultista Aleister Crowley e que foi
tema de uma de suas canções do disco "Gita" (1974).
Raul Seixas enfrentou sérios problemas com o
álcool. Faleceu no dia 21 de agosto de 1989, com apenas 44 anos, vítima de
pancreatite aguda.
Nascido em 1962, Mark Newman é um artista americano. Ele tem um
estilo marcante. Através de seu olhar vívido, cria esculturas que parecem estar
assustadoramente vivas!
Maria entrou em casa pisando duro, com cara de nenhum amigo,
soltando faíscas, resmungando impropérios. Zé pressentiu que ia sobrar para
ele. E sobrou. Sem novidade, sempre sobra.
-- O que aconteceu, Maria?
-- O de sempre. Zé, eu estou cheia de você. Cheia. Esgotada. Você só
me faz passar vergonha nesta vida desgraçada que levo.
-- O que eu lhe fiz dessa vez, mulher?
-- Quando souberam, no salão, que fiz aniversário ontem, todo mundo
quis saber se você tinha me levado para jantar fora, que presente você me deu,
essas coisas. Menti. Disse às moças que ganhei uma bolsa lindíssima e que
deixamos o jantar para sábado, que ontem estava indisposta etc. Não sei se
colou. Nós, mulheres, temos o tal do sexto sentido, se me entende...
-- Pelo amor de Deus, Maria, não seja injusta. Há anos, você não
quer que eu lhe compre presente algum. Você não cansa de repetir que eu não sei
fazer compras, erro sempre no tamanho da roupa, tenho gosto duvidoso e sei lá mais o
quê. Além disso, estamos numa situação complicada. O dinheiro da poupança está
no fim, eu não consigo emprego. O que você quer que eu faça? Anteontem, você
ainda me disse: “Não me traga nada, por favor. O mar não está pra peixe.”
Lembra?
-- Francamente. Você é um obtuso em tempo integral. Leva tudo ao pé da letra. Mas quem
sofre as humilhações sou eu.
-- Maria...
-- Vá se catar, Zé.
(ORLANDO SILVEIRA –
ATUALIZADO EM AGOSTO DE 2018)
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LEIA TAMBÉM Boas amizades são urdidas na quietude. Ser amigo não é bisbilhotar a vida do outro, querer que o outro lhe conte o que ele não quer contar. Há tempo para tudo: para discutir coisas sérias, para contar piadas, para assuntar besteiras, para, eventualmente, desabafar... Por Orlando Silveira https://orlandosilveira1956.blogspot.com/2018/08/o-mar-ensina.html#comment-form
Luiz
Felipe Pondé (1959, Recife) – filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em
epistemologia pela Universidade de Tel Aviv – discute temas como comportamento,
religião, ciência. É colunista da Folha de S. Paulo