quinta-feira, 7 de junho de 2018

CHÁ DAS CINCO: MANOEL DE BARROS

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Foto: arquivo Google

MANOEL POR MANOEL

Eu tenho um ermo enorme dentro do olho. Por motivo do ermo não fui um menino peralta. Agora tenho saudade do que não fui. Acho que o que faço agora é o que não pude fazer na infância. Faço outro tipo de peraltagem. Quando eu era criança eu deveria pular muro do vizinho para catar goiaba. Mas não havia vizinho. Em vez de peraltagem eu fazia solidão. Brincava de fingir que pedra era lagarto. Que lata era navio. Que sabugo era um serzinho mal resolvido e igual a um filhote de gafanhoto.

Cresci brincando no chão, entre formigas. De uma infância livre e sem comparamentos. Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação.

Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas. Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina. É um paradoxo que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor. Eu tenho que essa visão oblíqua vem de eu ter sido criança em algum lugar perdido onde havia transfusão da natureza e comunhão com ela. Era o menino e os bichinhos. Era o menino e o sol. O menino e o rio. Era o menino e as árvores.

(Memórias inventadas – As Infâncias de Manoel de Barros, 
São Paulo: Planeta do Brasil, 2010)
  

AS CHARGES DO DIA


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SPONHOLZ


IOTTI - ZERO HORA


Charge do dia 07/06/2018
MIGUEL - JORNAL DO COMMERCIO (PE)



NANI - NANIHUMOR



AMARILDO



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DUKE - O TEMPO (MG)



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AROEIRA - O DIA (RJ)


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IMAGENS: COLAGENS - DEREK GORES


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DEREK GORES
Derek Gores (Nova Iorque, 1971) é artista e designer. Dentre suas produções, destacam-se as colagens, nas quais ele utiliza revistas, rótulos, jornais entre outros materiais, numa espécie de reciclagem sobre a tela. Evidencia em suas produções a beleza, a feminilidade e a estética do design e do mundo fashion. 
(Fonte: obviousmag.org)


FOTOGRAFIAS - JEAN MANZON



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Fotógrafo e cineasta, Jean Manzon (Paris, França 1915 - São Paulo SP 1990) inicia sua carreira atuando como repórter fotográfico da revista francesa Paris Soir. Em 1938, integra também a equipe da Match, periódico francês de grande tiragem. Viaja para o Brasil em 1940. Fixa-se no Rio de Janeiro, onde atua em publicações dos Diários Associados, principalmente na revista O Cruzeiro, e depois na revista Manchete. É considerado por alguns estudiosos o responsável pela renovação do fotojornalismo brasileiro com a série de ensaios fotográficos que realiza para O Cruzeiro. Nessa publicação, seu trabalho está frequentemente associado ao de David Nasser, responsável pela redação dos textos. Atua como cineasta a partir de 1952, realiza mais de 900 documentários nas quatro décadas subsequentes, entre os quais se destaca L'Amazone, premiado com o Leão de Ouro do Festival de Cinema de Veneza, Itália, em 1966. Entre 1968 e 1972, retorna a Paris e assume nesse período a direção de Paris Match. É autor dos livros Mergulho na Aventura, 1950, em parceria com David Nasser; Flagrantes do Brasil, 1950; Brasil, 1952 (Mônaco); e Féerie Brésilienne, 1957 (Suíça), entre outros.

(Fonte: Enciclopédia Itaú Cultural)


QUASE HISTÓRIAS: PEDIU, LEVOU

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Foto: Arquivo Google

Naquele final de tarde de segunda-feira, o Bar do Carneiro estava literalmente às moscas -aliás, como sempre acontece nas ocasiões em que a data de pagamento coincide com o início do "feriadão". Em vez de quitar o que deve, a turma se manda para a Praia Grande, litoral Sul de São Paulo. Ainda mais se a meteorologia garante que os quatro dias pela frente serão de calor e sol, sem risco de chuvas. E o pobre do Carneiro que se dane com os fiados. 

O raciocínio dominante entre os muitos devedores  - se é que se pode chamar de raciocínio o que é mera lambança - parece ser o seguinte: "Ele é comerciante, empresário, pode esperar. E a gente também tem o direito de se divertir com a família, ou não?". Carneiro já se acostumou com isso. Seus fornecedores, infelizmente, não. Querem o seu. Carneiro que se vire. E ele, coitado, se vira. Tudo o que não pode é perder o crédito na praça.

Na mesma mesa de sempre, o Velho Marinheiro e Ananias. No balcão, a prosear com o proprietário da espelunca, um desconhecido por todos. O sujeito, provavelmente, estava de passagem. Ou acabara de se mudar para uma das ruas estreitas e íngremes da Vila Invernada. Ninguém o conhecia. A paz de cemitério foi interrompida com a chegada de Edivaldo Serrote - um dos pidões mais manjados da redondeza, mestre na arte de aporrinhar os outros, insistente que é. 

Serrote pediu a Carneiro uma lata de cerveja, uma cachaça e um cigarro solto made in Paraguai. Queria - para não variar, claro - pendurar a conta, àquela altura já salgada. De pronto, o dono do estabelecimento, movido por uma coragem por todos desconhecida, descartou a ideia: "Não vendo mais cigarro fiado nem que seja um só e por apenas um dia. Favor não insistir". Preservou o mata-rato, mas não impediu que a conta do cara-de-pau aumentasse, por conta da cachaça e da cerveja concedidas. Ou seja: o "não" de Carneiro nada mais que um "não" pela metade. 

Serrote, então, dirigiu-se ao ilustre desconhecido. Seu pedido deu em nada. O homem demarcou o terreno. Antitabagista radical, disse que jamais pusera uma "porcaria dessas na boca". E ainda desandou a falar: "Sabe qual é a melhor definição de cigarro?" Ante o silêncio dos poucos presentes, deu ele mesmo a resposta: "Cigarro é um pequeno cilindro com uma brasa numa ponta e um idiota na outra". 

O pidão profissional olhou para a única mesa ocupada, sabia que suas chances de sucesso eram mínimas, para não dizer nulas. Mesmo assim, resolveu arriscar:

- Velho Marinheiro, mestre dos mares, o senhor tem um cigarrinho para me arrumar? Só por hoje. Os meus acabaram de acabar.

- Tenho, Serrote, mas não vou lhe arrumar coisa nenhuma. E sabe por quê?

- Não.

- Porque você não se emenda. Crie vergonha na cara, vagabundo. Pare de fumar. Se não for pela saúde que a cachaça já lhe roubou, que seja para não encher mais o saco dos outros. Com licença. Vá vender seu cinismo em outra freguesia. Antes disso, acenda o maldito cigarro que está atrás de sua orelha direita. Ou então saque um do maço que você carrega no bolso esquerdo da calça. E, agora, nos dê licença.

Edivaldo Serrote foi serrar em outras freguesias. 

Por Orlando Silveira - Maio de 2018 

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E POR FALAR EM "PIDÃO"...
LEIA TAMBÉM: 
"DUAS GOTINHAS, PLEASE"

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Tudo bem, tudo bem. Pedir é melhor que roubar. Mas quem pede o tempo todo enche o saco. Ou não? Por Orlando Silveira, em "Só duas gotinhas, doutor".
http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/2017/05/so-duas-gotinhas-doutor.html#comment-form

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VEJA ESSA: 
VELHOS E BONS TEMPOS

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Quem diria? O Velho Marinheiro trocaria tudo - a começar pela experiência -, sem pestanejar, pelas ereções dos trinta anos. Por Orlando Silveira.
https://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/2018/05/quase-historias-velhos-e-bons-tempos.html#comment-form

A ARTE DE SIMONE GRECCO



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PAI E FILHA


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BUDA

Assim que me formei, eu comecei a trabalhar 
com pedra sabão. Esculpir era fascinante! 
Foram mais de 25 anos trabalhando com pedra. 
Simone Grecco

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ALONGAMENTO





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ROSE

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Foto do perfil de Simone Grecco, A imagem pode conter: 1 pessoa, sorrindo, chapéu e close-up

Formada pela Faculdade de Belas Artes
de São Paulo (1972)  e com diversos cursos
de especialização nos Estados Unidos,
Simone Grecco é uma artista plástica –
mestre em esculturas em arame –,
cuja obra é admirada no Brasil e no exterior.
Para entrar em contato com Simone, acesse:

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VEJA TAMBÉM

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Vale muito a pena conferir a obra 


quarta-feira, 30 de maio de 2018

E O AMOR SAIU PELA JANELA (11): ADERBAL, QUEM LHE MANDOU?

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Ilustração: Arquivo Google


Dito e Dita num ponto sempre concordaram. Aqui se faz. E aqui se paga. Caro.

Aderbal pagou.

Não por falta de aviso, porque Benedita, a Dita, filha do velho Dito, nunca foi mulher de mandar recados. Nem de ameaçar. Censurava Aderbal com o olhar certeiro, certo? Quem tivesse tino que entendesse. Do contrário, amargaria a solidão. 

Aderbal não entendeu picas. Morreu só.

Pobre Aderbal.

Aderbal não acreditou nos avisos que não vieram por escrito. Só por olhares. 

Aderbal, homem antigo, só acreditava no escrito. Prova disso é que jogava no bicho. 

Aderbal se embriagou, achou que o fígado e a paciência de Dita seriam para sempre. 

Aderbal – um homem de tino miúdo. Não mau, necessariamente. Criou filhos. Deu-lhes o conforto possível. Trabalhou pra caralho. Aderbal, tolo.

Depois que tomou o pé na bunda, Aderbal percebeu que não eram para sempre: a paciência de Dita e o fígado. A solidão é foda. Aderbal foi ao limite. Que graça viver, se o amor acabou?

Aderbal morreu atropelado. De tanto beber. 

Dita encomendou uma missa pela paz que Aderbal nunca teve em vida.

Deus é pai, Aderbal.

(Maio de 2018)


QUASE HISTÓRIAS

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Ilustração: Freepik


PAGUE, LEVANTE E ANDE!

-- Não quero menosprezar seu trabalho, pastor. Longe de mim uma barbaridade dessas. Mas, se eu tivesse todo esse dinheiro que o senhor me pede para que Jesus me cure, tinha ido ao médico. Quero minhas muletas de volta.

IDADE DE CRISTO

Meus olhos marejam por qualquer coisa. Sinto saudades de uns e outros, de todos. Acabo de me lembrar de tio Antônio, das festas em sua casa, festas de final de ano. Menino, eu comia até passar mal. Fartura: frutas, doces, coisas que nem sempre a gente tinha em casa, apesar do esforço do pai e da mãe. No dia 1º de janeiro, depois da comilança, tinha jogo de tômbola. 22 = dois patinhos na lagoa; 33 = idade de Cristo. E por aí íamos, felizes. Sinto saudades do jipe, quase pau de arara: levava oito: tio Antônio ao volante, pai, mãe, minha irmã, tia Laura, meus primos, todos de carona. Coisa boa ir ao piquenique de jipe.

TPM

As mulheres poderiam ser perfeitas. O que as “apequena” é a dita cuja. Sempre mais fortes que os homens, se livram do “problema” em poucos dias. E nós carregamos o trauma daqueles poucos dias para o resto da vida. Sabe o que é uma existência constatando o óbvio: mês que vem tem de novo. Passou da hora de nós criarmos uma ONG em prol das vítimas dos nervos arruinados: nós, os homens.

terça-feira, 29 de maio de 2018

QUASE HISTÓRIAS: O DAN ERA MENINO


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E o velho sábio, meu pai, descascava laranjas sem quebrar a casca. Contava histórias, tirava a pele sem ferir o gomo, aguçava o apetite, fazia por puro prazer. Com a calma de monge. O pequeno Dan se deliciava. E nós também. Aquilo tinha gosto de pomar. (OS)

terça-feira, 22 de maio de 2018

RAPIDÍSSIMAS

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AL CUORE

Discurso de padre e pastor, raramente, me faz a cabeça. Mas o badalar solitário dos sinos...

BASTA

Finalmente, cansou de esperar em vão.

MORTOS VIVOS

Os miseráveis de espírito não querem sua própria redenção. A desgraça alheia lhes basta.

MARIA FUMAÇA

Crise é como trem. Quando se vê, vem uma atrás da outra.

FOFOCA

- Sabe a última?
- Não sei. Nem quero saber. Xô!


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Ilustração: Exame/Abril

TANTO FAZ

Argumentar para que, se você já tem opinião formada sobre tudo? Pense o que quiser, meu bem. 

CATIVEIRO

Há gaiolas e gaiolas. Todas, porém, são gaiolas.

BELAS VISTAS

Qualquer paisagem fica mais linda quando se está atrás das grades - reais ou imaginárias.

CRISTAL TRINCADO

O que era doce desandou.


Por Orlando Silveira
Abril de 2018