domingo, 21 de setembro de 2014

SENHOR




Não me queira mal por chegar assim: de mãos abanando. Cheguei como pude – sem terno, sem mortalha, sem roupinha melhor. Sem compostura. Compostura, aliás, nunca foi minha praia. Venho como vivi: quase pelado: de bermuda ordinária, camiseta, chinelos, assuntando inutilidades.  Com cigarros no bolso, caixinha de fósforo na mão... Pode fumar aqui, Senhor?

sábado, 20 de setembro de 2014

JEJUM



asasdosversosereversos.blogspot.com


Segunda-feira.
O telefone toca, o coitado atende. Uma, duas, três vezes. Com a educação possível.
É a velha que não escuta querendo saber quanto custa para lavar o edredom.
(Perdão, senhora: aqui não é lavanderia.)
É o gerente querendo convencê-lo de que os juros cobrados pelo banco são excelentes.
(Obrigado, amigo, não quero empréstimo.)
É a moça do consórcio querendo lhe empurrar um carro,
é a senhora da creche pedindo ajuda, é, é... 
É o mundo lhe torrando o saco.
Na décima quinta vez, não perguntou quem era, bateu pesado:
- Vá pra puta que o pariu.
Era a mulher. De TPM. 
Vai jejuar um mês.

OUTUBRO/2013


RAPIDÍSSIMAS (XVII)



SAUDADE
Quando você tarda a chegar, desassossego.

UM BÊBADO SINCERO
-- Por que você bebe?
-- Para me suportar.

PARKINSON
Naquela sala, havia umas dez pessoas. Mas só o pai as enxergava.  

PARKINSON (II)
O pai via fantasmas, conversava com fantasmas, indicava livros para os fantasmas, fazia planos com os fantasmas. Mas era o filho quem vivia assombrado.

CONSCIÊNCIA
É a única “opinião” que, realmente, importa!


CLÓVIS CAMPÊLO

REMINISCÊNCIAS E HISTÓRIAS JULIANAS



Para mim, o mês de julho começa no dia 3, com o aniversário do meu neto Pedro. No dia 29, nasceu seu Clóvis, meu pai. Entre as duas datas natalícias, ainda comemoro no dia 5 o aniversário de dona Carmelita, a minha avó materna, e dos meus tios maternos Maurício e Luiz, nos dias 11 e 15, respectivamente,

Foi no dia 20 de julho de 1969, aliás, que a missão Apollo 11 pousou na lua. Os astronautas americanos Neil Amstrong e Edwin Aldrin, tornaram-se, assim, os primeiros seres humanos a pisar no solo lunar. Na noite desse acontecimento, eu participava de uma semana de arte popular organizada pelo grupo Juventude Unida de Brasília e Pina (Jubrapi), no salão de festas da paróquia de Brasília Teimosa. Foi uma noite de apresentações dos grupos de samba e maracatus do bairro, além de uma exposição de artistas plásticos e poetas populares. Engana-se quem pensa que o povo não tem uma cultura sólida e ancestral.

Curti tudo isso na companhia do meu amigo Valmir Sá e de Gracita Salgueiro, uma garota encantadora que estava na minha alça de mira havia tempos e que morava na mesma rua em que eu morava. Começamos a namorar naquela mesma noite. Juntos, assistimos o baticum dos maracatus e dos sambas suburbanos, vimos na pequena televisão em preto e branco o noticiário sobre a conquista da lua, e depois nos beijamos no portão da sua casa. Parafraseando o outro Amstrong, o Louis do piston, eu cantarolava “What a Wonderful World”!

Composta em 1967 por Bob Thiele e George David Weiss especialmente para Amostrong, a canção fala nas coisas simples do dia a dia e na esperança de um futuro melhor e mais promissor para a espécie humana. Ainda havia muito a ser aprendido por nós, adolescentes, e, portanto, a música vinha a calhar naquele momento histórico e pessoal.

Amstrong, o músico, por sinal, faleceria em Nova Iorque, no dia 6 de julho de 1971, quatro anos apenas após ter gravado a música acima.

CLÓVIS CAMPÊLO

O mês de julho também, dentro da tradição da Igreja Católica, é devotado ao Preciosíssimo Sangue de Cristo, em reverência ao sangue de Jesus derramado na cruz. Consta que, em 1848, o Papa Pio IX foi expulso de Roma pelas forças revolucionárias. No ano seguinte, os exércitos franceses permitiram-lhe voltar à Cidade Eterna, após um ataque que durou de 28 de Junho a 1 de Julho. Invocando e dando graças pelo sangue derramado por Jesus por amor aos homens de todos os tempos, o Sumo Pontífice criou esta festa, situando-a no dia em que lhe foi possível voltar a Roma. O Papa seguinte, Pio X, estendeu a festa à Igreja Universal. Nos nossos dias, quase esquecida, a festa é celebrada solenemente em algumas congregações religiosas.

Em julho, nós recifenses, reverenciamos Nossa Senhora do Carmo, a padroeira da cidade, cuja festa comemora-se no dia 16. Julho também é o mês de San'Ana, a mãe de Maria, com festa no dia 26.

Recife, 2014


MULHER NA PORTA DE CASA
Juazeiro do Norte/CE, 1993

Fotografia de Clóvis Campêlo

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A “LÓGICA” DO DENTISTA



-- Veja bem, doutor.

-- Eu vejo bem. O míope aqui é o senhor. Logo se vê pelas lentes de seus óculos.

-- Sei que meus dentes estão arruinados...

-- Os olhos também. Mas isso não é comigo. O senhor tem meia dúzia de cacos imprestáveis na boca. Quando estiver com os dentes bons, volte.

-- Mas, pra botar a boca em ordem, preciso do trabalho. Passei por todos os testes...

-- O senhor foi reprovado no exame odontológico. Boa sorte. Até logo.


ABRIL 2014


DALINHA


ANDANDO PELO SERTÃO

Dalinha

Eu voltei ao Ceará
Fui rever o meu rincão.
Passeei pelas caatingas
Pisei com gosto em meu chão
Coloquei o meu chapéu
O sol ardia no céu
No calor do meu sertão

***
Subi no pé de caju
Como fazia em menina.
Peguei no pé de angico
Um pouquinho de resina
Abracei carnaubeira
A conhecida palmeira
Desta terra alencarina.

***
No caneco de alumínio
Água de pote bebi.
Tinha pedras no caminho
Em cima duma subi
Fiz uma farra danada
Andando pela estrada
Da terra em que eu nasci.

***
O tempo passou bem rápido,
Achei que passou ligeiro,
Pois já estou novamente
É no Rio de Janeiro!
Terra de são Sebastião
Distante do meu sertão
Ô destino aventureiro



BRUNO NEGROMONTE

RAINHAS DO RÁDIO: A IMBATÍVEL

A artista hoje em questão teve um papel fundamental na história da música brasileira do século XX não apenas devido a sua meteórica subida ao panteão das grande cantoras e intérpretes nacionais, mas principalmente por seu carisma junto a um público cativo que a adorava como detentora do maior e mais expressivo título do rádio brasileiro ao longo de mais de uma década ininterruptamente. Sob o epíteto de "a maioral do samba", a filha de Batista Júnior (considerado por muitos como o maior ventríloquo existente no Brasil e que também era cantor e compositor) acabou por tornar-se um dos nomes mais expressivos da história da música brasileira de todos os tempos uma vez que o seu nome está intrinsecamente ligado a história do rádio em uma época em que este era a principal ferramenta de divulgação cultural existente no país. Era através das ondas dos rádios e programas de calouros que a boa música brasileira ganhava as devidas projeções e transformava em ídolos nomes como Orlando Silva, Francisco Alves, Silvio Caldas e tantos outros que submetiam-se aos testes radiofônicos na esperança de alcançar o estrelato. Dentre as figuras femininas destaque para nomes como Aurora e Carmen Miranda, Aracy de Almeida, Carmen Barbosa, Dalva de Oliveira entre outros expressivos e talentosíssimos nomes. Convenhamos que não era de se esperar que no meio de tanto talento viesse repentinamente a surgir uma artista que ganharia em poucos meses a relevância que Linda viria a ganhar. Contexto só explicado através de muito talento.
Nascida em São Paulo, Florinda Grandino de Oliveira, ficou conhecida nacionalmente como Linda Batista, uma artista que trazia características que a diferenciava de muitas pretensas artistas da época: compunha e cantava. Homônima ao seu nome, a sua voz só veio a ser conhecida do grande público casualmente, devido a ausência da irmã Dircinha no programa de Francisco Alves na Rádio Cajuti. Foi quando sugeriram que a instrumentista substituísse a irmã na apresentação. Linda acatou a ideia e isso acabou rendendo uma boa aceitação por parte do público presente naquela data fazendo com que a até então instrumentista decidisse investir na carreira artística como cantora. Estava ali plantada a semente para que a música florescesse em sua vida. Ainda no mesmo ano, em 1936, o destino acabou mostrando-a que a sua decisão havia sido a mais correta pois em poucos meses já estava participando, ao lado da irmã Dircinha, do filme "Alô, Alô, Carnaval". Sua participação no cinema era o que faltava para que a artista engrenasse de vez a sua carreira. Em apenas um ano, aquela que acompanhava a irmã em apresentações nos programas de auditórios, trocou o papel de instrumentista figurante para consagrar-se como a cantora protagonista. Seu sucesso aconteceu de modo tão meteórico que no ano seguinte Linda já encontrava-se apta a disputar o recém-criado concurso para Rainha do Rádio ao lado de algumas das mais expressivas artistas da época.
Organizado a princípio por um vespertino dos Diários Associados, o concurso para Rainha do Rádio teve em sua primeira edição em 1936 e não possuía o glamour e popularidade que viria a ter tempos depois, uma vez que pois tinha como eleitores apenas gente do meio radiofônico, artistas e jornalistas. Só no final da década seguinte, com a Associação Brasileira do Rádio tomando a frente a organização do evento, foi que o grande público pode participar do pleito. Nesta primeira edição realizada na década de 1930 no Iate dos Laranjas, barco carnavalesco atracado na Esplanada do Castelo, no centro do Rio de Janeiro, a vencedora foi, com seus dezoito anos incompletos, Linda Batista. Tal título a cantora obteve-o três vezes ao longo de mais de uma década. Em 1948, quando houve uma reorganização do evento por parte da ABR - Associação Brasileira do Rádio a artista resolveu abdicar para favorecer a sua irmã caçula. O título oportunizou a artista, como contratada da então recente Rádio Nacional, fazer uma excursão de enorme sucesso no Norte e Nordeste que durou seis meses, começando por Recife, PE.  Foi ali que teve a oportunidade de interpretar Capiba, o conceituado compositor de frevos pernambucanos, na terra natal do compositor ao lado a Jazz-Band Acadêmica no Teatro Santa Isabel
Deixo agora para os amigos leitores duas canções do repertório da artista. A primeira é "Vingança" do centenário Lupicínio Rodrigues. A gravação feita 29 de maio de 1951 foi lançada em agosto do mesmo ano:
A segunda canção trata-se de outro clássico do cancioneiro popular. A canção "Risque", composição de Ary Barroso, foi em 28 de novembro de 1952 e lançado em março do ano seguinte:

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

NÚBIA NONATO

VEJO-TE

Núbia Nonato

Vejo-te nos olhos azuis de tua mãe
que afoga as lembranças em lágrimas.

Vejo-te no afã de tuas mãos sequiosas
que procuram e não encontram.

Vejo-te em cada palavra, em cada
suspiro...

Vejo-te no desespero de quem ainda
queria embalar.

Vejo-te nas ilusões...doces ilusões
interrompidas e encarceradas
num hiato eterno.

Vejo-te no grito daquele que um
dia há de se conformar.

Vejo-te envolto nas tramas do tempo.

Um dia pensarei em ti e somente
sentirei saudades...





IMAGENS: CLÓVIS CAMPÊLO

MENINOS DO BRASIL
Juazeiro do Norte/CE, 1993

Fotografia de Clóvis Campêlo



O PAGADOR DE PROMESSA
Juazeiro do Norte/CE, 1993
Fotografia de Clóvis Campêlo



MENINOS DO MARACATU
Maracatu Estrela do Forte
Recife, 1994
Fotografias de Clóvis Campêlo




quarta-feira, 17 de setembro de 2014