terça-feira, 9 de setembro de 2014

NÚBIA NONATO

CURTAS


Núbia Nonato
NÚBIA NONATO


Bem me quer
mal me quer
na dúvida
me entrego.

***

As pipas
pequenas tiras
de papel
esvoaçam no ar
são mariposas
coloridas.

***

Na rede
agora vazia
teu suor
ainda me
embala.

***

Enxergar o óbvio
é para os/pragmáticos
Prefiro ver além
e tropeçar nas entrelinhas.

CLÓVIS CAMPÊLO

O LIXO DO CAPIBARIBE




Leio no Diário de Pernambuco que a ONG Recapibaribe, em apenas três horas de ação, retirou do rio Capibaribe, no centro do Recife, nada menos do que 1,3 toneladas de lixo. A entidade pretende reciclar o que for possível nesse material recolhido e doá-lo à instituições de caridade.

Se lhe parece muito essa quantidade de lixo recolhido na nossa Veneza Brasileira em apenas três horas, fique sabendo que em Londres dois barcos percorrem o rio Tâmisa recolhendo 30 toneladas de lixo por dia. O rio inglês, aliás, no século XIX, era conhecido como “o grande mau cheiro”. Segundo matéria publicada no site da Globo em 2012, eram comuns naquela época as epidemias de cólera na capital inglesa, e as sessões do Parlamento, que fica na margem do rio, tinham que ser suspensas quando o vento fazia o odor chegar às salas do prédio. Para reverter essa situação, as autoridades inglesas e londrinas construíram várias estações de tratamento de esgoto ao longo dos anos, além de criarem vários outros mecanismos de monitoramento e controle do lixo que chega ao rio. Hoje, revitalizado, o Tâmisa possui mais de 120 espécies de peixes catalogados, além de mais de 400 espécies de invertebrados. Um exemplo a ser seguido, principalmente por nós, recifenses, que vivemos numa cidade construída e mantida por sobre as águas do Rio Capibaribe e de outros rios menores.

Ainda segundo a matéria do Diário de Pernambuco, até o mês passado, a Emlurb retirava a cada dois meses cerca de 20 toneladas de resíduo sólido do rio, providencia hoje suspensa por encerramento do contrato com a firma terceirizada.

No lixo recolhido pelo trabalho voluntário da ONG, foram encontrados, além das garrafas e sacolas plásticas, muitos brinquedos e objetos poucos usuais, como um vibrador elétrico, uma buzina de pipoqueiro, uma cabeça de touro empalhada e um papagaio de hospital. Segundo Maria do Socorro Cantanhede, dirigente da Recapibaribe, em um ano de trabalho voluntário a instituição já recolheu cerca de 600 toneladas de lixo. Chama a atenção, porém, para os esgotos, segundo ela o principal poluidor do rio.´

CLÓVIS CAMPÊLO

O Rio Capibaribe, que na língua tupi significa “no rio das capivaras”, nasce na Serra do Jacarará, no agreste do Estado de Pernambuco, na divisa dos municípios de Jataúba e Poção. Tem 240 quilômetros de extensão e banha 42 municípios, a maioria dos quais despeja nas suas águas os dejetos dos esgotos. Tem 74 afluentes e os reservatórios da sua bacia têm uma capacidade máxima acima de 1 milhão de metros cúbicos. Atravessa o Recife, banhando vários dos seus bairros, como Várzea, Caxangá, Apipucos, Casa Forte, Torre, Capunga, Madalena, Derby e Ilha do Leite. Antes desaguar no Oceano Atlântico, encontra-se com o Rio Beberibe por trás do palácio do Campo das Princesas, no centro histórico da cidade.

É o rio dos poetas, o cão sem plumas de que nos fala João Cabral de Melo Neto. A sua história se confunde com a história do Recife, como bem o disse o sociólogo Gilberto Freyre, no Guia Prático, Histórico e Sentimental da Cidade do Recife: “O rio está ligado da maneira mais íntima à história da cidade. O rio, o mar e os mangues. Assassinatos, cheias, revoluções, fugas de escravos, assaltos de bandidos às pontes, fazem da história do Capibaribe a história do Recife”.

Cuidemos, pois, do Capibaribe!

Recife, setembro 2014




sábado, 6 de setembro de 2014

CLÓVIS CAMPÊLO

A HORA DE MORRER



Nenhuma morte deveria ser antecipada. Ninguém merece. Deveríamos morrer assim, no fim da vida, dormindo, sonhando, apagando-se suavemente como uma chama que se autoconsome. A morte antecipada sempre é brutal. Como tudo na vida, possibilita interpretações várias, dependendo da síntese ideológica ou filosófica do observador.

Do mesmo modo, a morte antecipada é sempre uma traição, pois nega a crença de que possamos ter algum controle sobre algo, mesmo que esse algo sejam as nossas próprias vidas. No jogo de forças incompreensíveis e poderosas que regem o universo, somos partículas atômicas diminutas, sujeitas às intempéries do acaso (ou do caos).

Na nossa mente animal, porém, alimentamos a ideia de que a morte é algo a ser superada e anulada. Vivemos a ilusão de que caminhamos para um nível de conhecimento onde isso será possível. Afinal somos filhos e feitos à semelhança de Deus. E se a ele foi dado o direito de criar e administrar o mundo, demiurgo cósmico que é, por não será assim também com os seus filhos?

A angústia de um dia superar a morte, termina por se transformar, para nós humanos, em um sentimento maior do que a angústia por medo da própria morte. Já não admitimos mais que exista uma hora certa para morrer. O pensamento transborda, desliga-se da base material e perde o senso da realidade. Um verdadeiro delírio.

Assim, quando o trágico ressurge em nossos caminhos e antecipa um desfecho qualquer em qualquer uma das vidas por nós conhecidas, voltamos a nos indagar e a vacilar diante do fato inevitável e incontornável.



Voltamos a ter a percepção de que continuamos a ser uma poeira cósmica, sem eira nem beira, a mercê do que o destino, ou outra qualquer conjunção de forças incompreensíveis para nós, preparou. Percebemos que as forças da natureza são tão gigantescas e incontroláveis que voltamos a entrar em pânico. Não existe saída racional para a morte, do mesmo modo como não nos foi dada nenhuma escolha sobre a possibilidade de vivermos ou não. De repente, abrimos os olhos e tomamos consciência de que existíamos em um mundo que precisava ser traduzido. O nosso esforço vital, assim, passa a ser o exercício da sobrevivência do indivíduo para perpetuar-se a sobrevivência da espécie. De repente, fecharemos os olhos e seremos deslocados para outra dimensão existencial, onde, talvez, necessitemos de um outro aprendizado para uma nova sobrevivência, até que haja uma nova consumação.

Mas, para falar a verdade, nem mesmo disso temos certeza alguma. São puras conjecturas do nosso condicionamento racionalista. Por isso, a necessidade de voltarmos a confabular conosco mesmo em busca de um entendimento mais tranquilizador e que nos permita entrar em sintonia com um ritmo adequado de pulsação cósmica.

Somos e seremos sempre uma poeira cósmica na infinitude do universo.

Recife, 2014



sexta-feira, 5 de setembro de 2014

POEIRINHA

leandrofca.blogspot.com

Décio Pinto, nosso POEIRINHA, é um senhor esquecido. Nunca sabe que dia é hoje, não faz a menor ideia de que dia amanhã será. Quando a família descuida, ele foge, vai até o bar do Carneiro, toma duas, às vezes três, faz três perguntas no máximo, não espera as respostas. Respostas não lhe interessam. Naquele dia, não foi diferente.

-- Velho Marinheiro, qual foi o resultado do jogo de ontem à noite, Portuguesa Santista e Jabaquara?

-- Ananias, meu jornalista: o Jânio já tomou posse?

-- Velho Carneiro: o Lula terminou o primário?

E POEIRINHA se foi, como sempre: sem respostas. Feliz da vida.


BRUNO NEGROMONTE

Falecida em 12 de abril de 2011, a cantora, atriz e apresentadora Julie Joy foi a última Rainha do rádio em 1958
Por Bruno Negromonte - @brunonegromonte
Dando início a série que abordará ao longo das próximas semanas o nome daquelas que foram eleitas Rainhas do rádio optei por começar de trás para a frente. Como assim? Vou explicar melhor... Começarei a falar da última artista a ter ganho o título perpassando por todas os outros nove nomes que alcançaram o título durante o tempo em que o concurso vigorou.
Com o advento da televisão a partir de 1950 a popularidade do rádio deu uma significativa baixa nos anos subsequentes e os programas de auditórios que antes levavam centenas de pessoas as emissoras muitas vezes ao longo de todos os dias da semana foram aos poucos perdendo a guerra para a comodidade do sofá e aparelhos de tv. Essa mudança de hábito acabou refletindo-se também naquele que era considerado sem dúvida alguma o maior e mais popular concurso artístico ao longo as últimas décadas:  o concurso para eleger a Rainha do Rádio.
Em 1958, quando o concurso já não contava com adesão das centenas de milhares de eleitores de outrora, foi realizado o último concurso para eleger aquela que ostentaria o mais cobiçado e nobre título do rádio brasileiro. A vencedora talvez não soubesse que aquela eleição seria a última e, além de consagrá-la e alavancar a sua carreira, a cantora ostentaria seu reinado para todo o sempre, uma vez que não houve mais eleição nos anos subsequentes.
O concurso acabou sendo vencido pela carioca Beatriz da Silva Araújo, uma jovem com 28 anos incompletos e que adotava o nome artístico de Julie Joy. Seu avô  inaugurou a indústria farmacêutica no Brasil com o vinho Reconstituinte Silva Araújo (tônico), em 1888. Sua avó foi célebre cantora de operetas no princípio do século XX, no Brasil. Sua família era numerosa eram ao todo treze irmãos, sendo Beatriz  a caçula.
A sua carreira artística teve início ainda nos anos de 1940, mas precisamente em 1948 na Rádio Guanabara interpretando standards americanos. Um ano depois assinou contrato com a Rádio Nacional, por lá permaneceu pouco tempo, até que desistiu de cantar. Só voltaria a atuar como cantora em 1955, passando a interpretar juntamente com os hits americanos algumas músicas brasileiras. Em 1956, foi contratada pela etiqueta Sinter e lançou seu primeiro disco, com o fox-trot Verão em Veneza (Incini e Ribeiro Filho) e o samba Finge gostar (Meira e Chico Anísio). Nesse período além de trabalhar no Rádio, também atuou em diversos programas da TV Tupi carioca e gravou canções como o xote Amor é bom de dar (Bruno Marnet e Roberto Faissal), o beguine Sombras (Johnny Mercer e Lavello, versão de Arierpe), o bolero Tinha que ser (Fernando César), a Valsa do primeiro filho (Ari Rabelo e Luiz de França) o bolero Podes voltar (Othon Russo e Nazareno de Brito) e a valsa E a chuva parou (Ribamar, Esdras Silva e Vitor Freire). À época em que foi eleita Rainha do Rádio chegou também a atuar no cinema nos filmes "E o Bicho Não Deu...", produzido pela Herbert Richers, e "O Camelô da Rua Larga", pela Cinedistri.
Na década de 1960 chegou ainda a atuar como cantora e gravar canções como os fox Você não tem razão (Bartel, Burns e Magio) e Quero sonhar (J. Gluck Jr e F. Tobias) acompanhada da orquestra e do coro de Bob Rose e chegou a lançar pela Columbia o elepê u Jóias de Julie Joy. No entanto retirou-se da vida artística ao longo desta década dedicando-se a interesses pessoais como o casamento com o compositor João Roberto Kelli e as duas filhas do casal.
Um detalhe que interessante a ser registrado foi a amizade entre Julie e a não menos inesquecível Dolores Duran. Com escassos recursos no início da carreira de ambas e a necessidade de estarem bem afeiçoadas em suas apresentações nas emissoras de rádio e televisão, procuraram as mais diversas alternativas para amenizar esta adversidade. A compra de sapatos e vestidos demandava boa parte do orçamento, então, para poupar dinheiro, a compositora de A noite do meu bem costurava os vestidos que seria utilizada por ambas. Um dia usava Julie outro Dolores, depois o tingiam, acrescentavam acessórios para dar a impressão de que era novo.
Quando eleita, Julie Joy arrecadou 329.431 votos e na época declarou "Eu até estou acreditando que sou mesmo rainha. Não é por superstição ou vaidade, mas é que a coroa ajuda a carreira. Haja o exemplo das outras cantoras que foram Rainhas anteriormente". 
Esta série idealizada por mim tem por objetivo fazer com que o nome destas artistas, figuras de extrema popularidade à época dos respectivos reinados, não caiam no ostracismo em que estão condenados pelos grandes canais midiáticos. Ao menos aqui, no Musicaria Brasil, assim como  na memória afetiva de muitos, Julie Joy e tantos outros personagens da música e do rádio vivem e são devidamente reverenciados.

DALINHA

VIDA PALPÁVEL

DALINHA

O que será de verdade
Este mundo virtual
Onde amizade irreal
Prolifera em quantidade
E a concreta amizade
Transforma-se em ilusão
Vislumbro alienação
Quando o vício é voraz
E em sua bagagem traz
Um mundo de solidão.

***

Eu quero ver a paixão
Dentro do seu olhar
Eu quero sentir palpitar
No peito meu coração
Quero a magia da mão
Inquieta e buliçosa
O suspiro de quem goza
E gosta do visceral
É neste estágio real
Que fomento a emoção.





quinta-feira, 4 de setembro de 2014

A GELADEEEEEIRA!



Não sei se a ideia foi de mamãe, não sei a ideia foi de papai. Não sei bem que ano foi, era guri, quatro, seis anos no máximo. Compraram uma geladeira. 

1960, 1959, 1961. Que ano foi não sei. 

Mas que a geladeira chegou, chegou. E junto com ela uma garrafa, de plástico, com água gelada. E meio queijo branco. 

Mamãe e papai, afinal, precisavam impressionar, naquele domingo, seus pais. Prósperos que eram. Quase emergentes. Dia de festa. Com direito – quem diria? – a pãozinho e margarina.


CLÓVIS CAMPÊLO

O CANO DO PINA



Fotografia gentilmente cedida pelo amigo Apeles Duarte

Há quarenta nos atrás, amigos, era difícil imaginar a paisagem da praia do Pina sem aquele cano. Em torno dele, cresceram várias gerações de pinenses. Ali, nas peladas de futebol realizadas quando a maré estava baixa, formaram-se vários craques que depois despontariam no futebol pernambucano e no futebol brasileiro. Ali, também, por conta dos excrementos expelidos pelo cano, a alimentação farta atraia peixes e pescadores. Assim, o cano nos parecia eterno.

Mas, não era. Em março de 2004, quando a Prefeitura da Cidade do Recife fez um trabalho de revitalização da praia naquela área, o cano, que estava encoberta pela areia, foi redescoberto. Segundo matéria publicada no Diário de Pernambuco do dia 10 de março de 2004, entendeu a CPRH, hoje chamada de Agência Estadual de Meio Ambiente, que o cano, mesmo em desuso, funcionava como um elemento de poluição da praia. Ordenou, então, à Prefeitura que o retirasse.

Na verdade, não foi levada em consideração por nenhum daqueles técnicos a importância histórica daquela construção. Instalado em 1915, funcionava como um emissário submarino que trazia os dejetos tratados desde a estação de saneamento do bairro da Cabanga, do outro lado da bacia do Rio Pina, integrando o primeiro sistema de tratamento sanitário da cidade do Recife. Assim, o artefato com aproximadamente um metro de diâmetro, na época da sua demolição pertencente à Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa), e que durante muito tempo foi usado como saneamento e esgoto da zona sul da cidade, foi retirado da paisagem da praia permanecendo apenas na memória dos seus antigos frequentadores.



Portanto, construído e instalado antes mesmo da ponte do bonde, de 1920, a primeira a interligar o Pina com a Cabanga, e antes da construção da Avenida Herculano Bandeira, que só ocorreria em 1926, o antigo cano fazia parte da história e crescimento do bairro, e deveria ter merecido por parte dos poderes constituídos uma maior atenção para a preservação da sua memória e importância histórica.

Confesso que para escrever esse pequeno artigo, vasculhei o google, com o seu acervo maravilhoso de informações disponibilizadas para todos, indiscriminadamente, e pouco encontrei sobre a história do cano do Pina. No que se refere a fotografias ou qualquer outro registro iconográfico, nada foi encontrado para ilustrar esse texto memorialista.

O Pina hoje é um bairro moderno, recortado por largas avenidas, e que vem perdendo de forma galopante a sua identidade cultural e histórica. Alguns culpam a especulação imobiliária por essa mudança. Prefiro dizer que é o preço do progresso e contra isso toda luta será inglória. Às pessoas, como eu, que viveram essa e outras épocas, talvez caiba o papel de tentar fazer esse resgate, embora não seja um trabalho fácil.

Recife, agosto 2014




CARNAVAL EM BEZERROS




Do mesmo modo que a cultura de massa tem influenciado os ceramistas da feira de Caruaru, os personagens do cinema e da televisão também têm invadido a folia de papangus, na cidade dos Bezerros.

Hoje, é comum vermos circulando pelas ruas da cidade, durante o carnaval, fantasias inspiradas nesses heróis ou anti-heróis, como essa acima, que teve como tema a figura de Freddy Krueger. (Recife, 2011)


NÚBIA NONATO

Núbia Nonato

Já viu bichinho mais abusado?
Já viu passarinho mais ousado?
Foi então que o moço me
explicou...
Passarinho tem disso não
dona, ele tem é pressa de viver.



quarta-feira, 3 de setembro de 2014

PRESIDENTE TEM QUE SER MACHO



Entre umas e outras – todas, melhor dizendo –, a conversa rolava solta no bar da Bentinha. Ali, não tem assunto tabu. Nunca teve. É um espaço democrático, embora não se possa dizer o mesmo de muitos de seus frequentadores – alguns adeptos juramentados da filosofia do “prendo e arrebento”.

No bar da Bentinha, todos os temas são tratados com convicção e veemência, sempre. Pouco importa se os conhecimentos dos debatedores acerca das matérias em discussão são pífios. Cada um fala e repete o que lhe dá na telha. E o que é melhor: ninguém precisa arcar com as consequências. Naquele final de tarde, começo de noite, as discussões tinham a política como foco, por conta da morte mais que anunciada do caudilho venezuelano. 
 
-- O homem morreu – afirmou, consternado, Vicentinho, o mais mirrado e politizado da turma.

-- Que homem? – quis saber Mundo da Lua, o mais avantajado e alienado de todos.

-- Caracas, Mundo. O Chávez, Hugo Chávez, presidente da Venezuela. Chávez se foi.

-- Esse cara não era de Cuba?

-- Mundo, o de Cuba é Fidel Castro – explicou Vicentinho, com uma pitada de irritação.

-- É verdade. Esse também já morreu. Eu li nos jornais.

-- Morreu nada, homem. Está vivo. Está mal, mas está vivo.

-- E você está chateado por que o homem morreu? – perguntou Mundo da Lua.

-- Claro. Chávez era o cara: valente, não mandava recado, dizia na lata o que tinha que dizer. Chamou o presidente dos Estados Unidos de “diabo”. Só não pegou ele de pau porque os seguranças não deixaram. Na ONU. Desafiava todo mundo. Era socialista, queria o bem da humanidade, menos dos americanos. Destes, ele nunca gostou. Defendia com unhas e dentes seu país, seu povo. Vai fazer falta, vai fazer falta.

-- Mas era um ditador – retrucou Mundo da Lua, num raro ataque de lucidez.

-- Ditador coisa nenhuma. Ele não tinha paciência com políticos. É diferente. Se enchessem muito o saco dele, era capaz de mandar fechar o Congresso. Para que serve aquilo? Pra nada. Só pra gastar o dinheiro do povo pobre. Também mantinha a Justiça com rédeas curtas. Onde muita gente dá palpite, a coisa não funciona. O Brasil precisa de um Chávez, de um patriota, que salve este país.

-- Caramba, e o Lula, não é bom?

-- Mundo, Lula é frouxo. Em vez de fechar o Congresso, mandou dar mesada pros caras. Pode uma coisa dessas? Um homem que faz isso é macho? Chávez mandava todo mundo para o paredão. Com ele, não tinha conversa mole. O Brasil precisa de um cara que dê um murro na mesa e diga assim: “Olha aqui, minha gente: quem não seguir a nova cartilha vai ver o que é bom para a tosse”. Aí, endireita.

-- É verdade, Vicentinho. É por isso que gosto de conversar com você. Sempre aprendo coisas novas. Vai mais uma?  (março/2013)