quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

HORA DA VITROLA

IRACEMA
DE ADONIRAN BARBOSA
NA VOZ DE CLARA NUNES



CONFESSIONÁRIO





E o padre mais não lhe disse:


-- Filho, calma: seus pecados são veniais, são culpas de amor. 
Um Pai Nosso lhe basta.

A ARTE DE SIMONE GRECCO

SÃO FRANCISCO
ESCULTURA EM ARAME

Por Simone Grecco






NÚBIA NONATO

NAS ENTRANHAS 



Tinha acabado de atravessar a rua quando tive a nítida sensação de tê-lo visto... Entrei no prédio da Faculdade às pressas fugindo do sol tórrido do meio-dia. Fui direto para o elevador quando ouvi alguém pedindo que o esperasse. O meu coração bateu acelerado, aos pulos... eu sabia que era ele, não podia estar enganada.

Ele ficou atrás de mim, senti o seu perfume... era o mesmo. Esperava desesperadamente que tivesse me esquecido. Nem ousava respirar direito. Senti seus dedos me tocando de leve no braço e depois subindo para a minha nuca. Ele não me esqueceu...

Sua mão pesada acariciava meu pescoço enquanto eu ia perdendo o compasso da minha respiração. A porta do elevador abriu-se, mas ele não me deixou sair:

- Espera – pediu-me suavemente, segurando meu braço.

Sem olhar nos seus olhos, obedeci. Ele me puxou para uma pequena sala do nono andar, virou-me bruscamente forçando um beijo que a todo custo queria evitar, eu sabia que sucumbiria... Ele forçou-me a entreabrir os lábios com tamanha urgência que feriu-me. Fiz um último esforço para tentar desvencilhar-me, inútil, ele jamais medira a força que tinha e só o instiguei mais ainda.

Senti sua língua urgente, a saliva quente em minha boca. Colei meu corpo ao dele me entregando sem pudores. Ouvi seu gemido de satisfação quando eu o segurei pelos cabelos. Deixei-me possuir ali mesmo e tudo que estava a nossa volta desapareceu.

Tocava seu corpo com medo, mas com a mesma fome de ontem.. Inúmeras centelhas acendiam meu corpo num calor insuportável e aquela ardência despudorada que subia e subia, até que explodimos em gozo, risos e lágrimas.

Ele continuou dentro de mim tentando perpetuar aquele momento. Eu nada lhe perguntei...nem ele. Saímos do prédio de mãos dadas. Ele me abraçou forte. Eu beijei-lhe a palma das mãos. Seguimos caminhos opostos, pois o tempo há muito fugira de nós e no meu corpo, impregnado de seu perfume, ficou a sua  última lembrança.






quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

HORA DA VITROLA


DESLIZES
DE MICHAEL SULLIVAN e PAULO MASSADA
NA VOZ DE FAGNER



RECLAMAR DE QUÊ?

De nada. 

Das dificuldades? Quem não as tem? 

2013. 

Conheci pessoas dez. Reencontrei gente mil. 

O que prova que o FB não é de todo inútil, embora ordinário.



terça-feira, 3 de dezembro de 2013

TEMPO BOM...

LILICO estava certo: tempo bom não volta mais.

Seu João, 8.8, é de um tempo em que homem não podia ver calcinha no varal. Só de ouvir o slogan das Casas Marisa...

Mas o tempo passa. E o tempo bom não volta mais.

Hoje, quando sua gata 8.7 sai pelada do banheiro, ele se limita a perguntar com mau humor evidente:

-- Aonde pensa que vai?

***

(PRA QUEM NÃO LEU)

SEU JOÃO, 8.8

-- Tudo bem com senhor? – quis saber o vizinho.

-- Graças a Deus. Da cintura pra cima, está tudo excelente.



NÚBIA NONATO

ANTES QUE EU DESISTA



Sinto tuas
mãos trêmulas
em minhas
costas nuas.
Devassa-me
com os dedos
sorrateiramente
até sentir que
estou pronta.
Abafa a
minha voz
com sua língua
e me penetra
antes que

eu desista.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

ESTORVO



Bengala:
Pra desespero geral da nação, o pai te adotou.
E agora estamos assim:
Carregamos os dois: ele e você.


domingo, 1 de dezembro de 2013

PAPO FROUXO

Há muito não se visitavam. A afinidade entre eles era, na hipótese mais generosa, nenhuma. Sempre fora assim. Não haveria de mudar com o tempo. Quando se encontravam em festas, a convivência era mais fácil. Muita gente, alguma bebida, nenhum compromisso de falar sobre isso ou aquilo. Cara a cara, apartados da multidão, a coisa muda – para pior.
E o silêncio se foi por aqui...

Passados os primeiros dez minutos, os dois casais já sabiam que, ao menos no discurso, estava tudo bem com todos, que a doença da tia Maria só fazia piorar etc. O silêncio se impôs, para o constrangimento dos cinco. Cinco? Cinco. Até o cão não conseguia esconder seu desconforto.

O marido da dona da casa, sabedor da língua de trapo da prima, resolveu facilitar as coisas:

-- E aí, gente: vamos falar mal de quem?


A noite continuou chata. Mas, apressado, o silêncio saiu pela janela.