Na
casa de vocês, não sei, mas não deve ser muito diferente. Na minha, ninguém
bebe água. O que ali se ingere em doses industriais é suco (natural, em pó ou
em caixinha) e refrigerante. H2O só industrializada, com sabor disso ou
daquilo. É um desconchavo. A exceção fica por conta desse escriba bissexto, que
adora água gelada. Em especial, na manhã seguinte, se me entendem. Sejamos
justos: a coca-cola estupidamente gelada também tem muita serventia “nessas”
ocasiões, a exemplo do chá de boldo morno.
Sou
do tempo do KI-SUCO. Depois, aderimos à saborosa tubaína, que continua fazendo
muito sucesso na periferia, como tenho atestado em minhas andanças quase
jornalísticas. Quando a situação melhorou um pouco (pouquinho que só), partimos
para a coca família, de um litro – presença quase obrigatória em nossa mesa no
domingo posterior ao dia do pagamento do pai. Depois, voltávamos à rotina:
KI-SUCO, tubaína e groselha, quando dava para comprar. No mais das vezes, era
água mesmo, purinha da silva.
No
domingo especial, consumíamos com notável satisfação e sofreguidão ímpar a coca
família – cujo lema deveria ser: um litro para todos! –, o frango ensopado e o
macarrão. Como sobremesa, pêssegos em calda. Não como pêssego em caldas há
cinquenta anos, ou há quase isso. Talvez não queira correr o risco de constatar
que eles não são tão bons quanto minhas lembranças fantasiam. (2013) LEIA TAMBÉM: AQUELA NÃO ERA MINHA MÃE http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/2015/04/aquela-nao-era-minha-mae.html#comment-form
Ele
pediu ao analista a paz possível, necessária, mas na “medida certa”.
O
doutor de vários títulos foi curto e grosso, como costumam ser os doutores com
vários títulos:
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Ou há paz, ou não há paz – sentenciou o filho de Hipócrates.
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O senhor não entendeu nada.
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Explique-se, então.
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Quero continuar saindo com minha cunhada. Mas sem complexo de culpa. Captou?
***
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Jurema: suas nádegas estão tão lindas... Cheguei a pensar que fossem as de sua
irmã.
VELÓRIO
Fora
homem de posses, de muitos conhecidos, poucos amigos – a começar dos seus, mais
interesseiros que queridos. Por via das dúvidas, deixou claro em testamento:
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Quero três carpideiras das boas. Das que choram a noite toda. Não quero passar
vexame.
Os
óculos de lentes grossas, tipo fundo de garrafa, como se dizia naqueles tempos,
tinham pouca (ou nenhuma) serventia. A avó era praticamente cega – cega
teimosa, cega irrequieta. Inútil lhe pedir para que não andasse sozinha pela
casa. Tanto fez, até que caiu, quebrou o fêmur, ficou internada por bom tempo.
Mas era dura na queda, ainda bem. Voltou pra casa, mais teimosa que nunca.
Um
dia, ela se levantou e saiu perambulando pelo corredor. Deixou pelo caminho um
rastro de destruição. Dizimou com seus pés igualmente cegos e pesados os dois
times de futebol de mesa do neto. A mãe prometeu ao filho que, assim que
pudesse, compraria outros botões. Que por ora brincasse com as bolinhas de
gude. Quem mandou deixar os botões no chão? Inútil argumentar que a mesa da
cozinha estava sempre ocupada. Onde colocar o campinho?
Sabedor
que comprar times de botões não era prioridade da mãe – o dinheiro sempre curto
–, começou a brincar com as bolinhas de gude. Toda vez que ele via o campinho
vazio, sem jogadores, tinha vontade de chorar. Toda vez que ele via a avô zanzando
pela casa, olhava para as bolinhas de gude. E lamentava não ter estilingue. (abril/2014)