sexta-feira, 31 de julho de 2015

NÃO FOI DESTA VEZ

Foto: www.suza.com.br
O apelido de Zeca – “Péssimas Novas” –, evidentemente, não surgiu do nada. O homem jamais, em tempo algum, foi molhar a goela no bar do Carneiro sem levar consigo notícias ruins. No dizer de muitos que o conheciam, é uma espécie de corvo em forma de gente.

Para alguns dos frequentadores, os mais generosos, ele é apenas um sujeito pessimista, adepto da Lei de Murphy, que tem certeza absoluta de que tudo que pode não dar certo dará errado. Uma simples gripe evoluirá para a pneumonia -- e a consequente internação do paciente. Daí, para a infecção generalizada e o óbito é um passo. Para outros colegas de copo, porém, ele é mais que pessimista: é um agourento, torce sempre para que o pior aconteça – e logo, se possível. O que faz com que muitos jamais se aproximem dele. Há, no entanto, os precavidos, que optam por lhe pagar bebidas, na esperança de que Zeca não lhes deseje - nunca - mal nenhum.

Pois bem. Naquela tarde, Zeca “Péssimas Novas” entrou no bar do Carneiro cheio de otimismo. Disse que havia encontrado Abelardo e que sua recuperação era mais que surpreendente, era fantástica. “Quem diria, após tantas cirurgias? Tenho certeza de que ele voltará a ser o que sempre foi: um homem saudável, vigoroso” – não se cansava de repetir, para espanto geral. Um espanto que, a bem da verdade, durou pouco, até Zeca dar continuidade à conversa:

-- Agora, quem não anda nada bem, é dona Jurema, mulher de Abelardo. Está pálida demais. Tenho pra mim que, neste Natal, ela não estará viva pra comer castanha.

(26/11/2013)

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ORNAL DA BESTA FUBANA

DALINHA

Dalinha Catunda


A JUREMA É PRA CARVÃO 

Estaca não me ofereça,
Que não tenho precisão.
Quando cerquei meu roçado
Eu cerquei foi com mourão!
E pra você não pular
 Na cerca mandei plantar
 Muita urtiga e cansanção.

***

Aqui na minha fazenda
Tem angico e imburana,
Não me falta sabiá,
Só não quero é pé de cana...
Não venha com: ora poxa!
Porque sua jurema roxa
Aqui não é soberana.

***

Para falar a verdade
E acabar a discussão,
A tal da jurema roxa
Só serve para carvão.
Eu não tenho fogareiro,
E só uso marmeleiro!
É a lenha meu fogão.



BRUNO NEGROMONTE

GONZAGA LEAL - ENTREVISTA EXCLUSIVA

Com 40 anos de estrada, o artista vem apresentando "De mim", projeto que conta com a adesão de nomes como Marília Medalha e Jaime Alem
Chega uma hora em que há necessidade de mudança em nossas vidas. Desde os mais simplórios gestos até transformações que interferem de forma radical em nossa vida. No caso de Gonzaga Leal este momento chegou quando teve que optar por trilhar o caminho da música ou da dança e ele optou pela segunda alternativa. Hoje, com oito discos gravados (incluindo o EP "Aparição") Leal vem apresentando desde o início do ano "De mim", um álbum que apresenta diversas características que o destaca não apenas na carreira fonográfca do artista, mas também na cena musical como um todo. O disco é responsável por trazer novamente aos estúdios de gravação a cantora e compositora Marília Medalha assim como também por apresentar mais uma faceta do artista pernambucano: o seu lado compositor. Depois de protagonizar, aqui mesmo em nosso espaço, a pauta sob o título de "SOB A ÉGIDE DA VIOLA, GONZAGA LEAL ATEMPORALIZA-SE EM SINTONIA COM A SAUDADE", Gonzaga volta a este espaço para este bate-papo exclusivo onde fala sobre este novo projeto que vem recebendo elogiosas críticas Brasil afora, a sua relação com a cena musical de São Paulo e que virá em comemoração as quatro décadas de carreira que o artista comemorou em 2014. Vale a pena conferir. Boa leitura!
O ano passado foi um ano emblemático para você, afinal de contas completaram-se quarenta anos desde a sua primeira aparição profissional diante do público. O que você destacaria ao como relevante em sua carreira ao longo destas quatro décadas de estrada?
Gonzaga Leal - Sempre acho que o mais recente trabalho de um artista é o mais importante de uma trajetória, uma vez que ele representa um alcance definido por tudo que ele já produziu e passou. Para gravar esse novo disco, apoiando-me na sonoridade da viola brasileira e debruçando-me sobre um repertório baseado no tempo e na saudade, foi necessário olhar para trás e ver no passado um espelho do que venho produzindo e do que ainda pretendo fazer.
“De Mim” como o próprio título sugere vem arraigado de pessoalidade através de letras que poderíamos até afirmar tratar-se de confessional. Qual foi o principal desejo que o conduziu a registro com essas peculiaridades?
GL - Estava há quatro anos sem gravar, mesmo sendo incentivado e ativado no meu desejo pelos músicos que trabalham comigo já há algum tempo, mas, mesmo assim, não encontrava motivo algum que justificasse entrar em estúdio, pois gosto de gravar projetos, não canções apenas porque são lindas ou magníficas, isto não me atrai. 
Mas o tempo não brinca com ninguém, e aí que fui surpreendido por uma canção enviada por Públius. Ao ouví-la, fui tomado por um sentimento gigantesco, sobretudo de aproximação comigo mesmo. Naquele período havia completado 55 anos e a canção ativou em mim uma saudade de mim mesmo, de um Gonzaga que não é mais, mas se avizinhando de um novo tempo. A canção chama-se "Da Saudade". E assim, percebi de imediato que o projeto começava a nascer, projeto no qual iria cantar sobretudo o tempo e a saudade, e fazê-lo, com muito frescor e ausência de ressentimento.
A sonoridade do disco apresenta a viola de modo matricial. Há em suas reminiscências alguma razão ou motivo para torná-la o principal instrumento de um projeto que traz como características tanta pessoalidade
GL - Realmente, a viola é uma das principais protagonistas do projeto. Sou um homem do interior, e muito precocemente comecei a me familiarizar com o mistério e o enigma do som das violas. Sem falar no fato que o meu diretor musical, Cláudio Moura, é um magnífico violeiro, que extrai poesia pura do som do seu instrumento. A junção desses dois fatos foi o grande lance para suscitar em mim o desejo de ter comigo outros violeiros de gerações diferentes para fazerem parte do projeto, a exemplo do Jaime Alem, Hugo Lins e Juliano Holanda, cujas violas têm afinações diferentes umas das outras.
Nestas últimas duas décadas a cantora e compositora Marília Medalha mantém-se afastada dos estúdios. Acredito que essa participação em “De Mim” venha a ser o seu único registro fonográfico até então ao longo deste século. Como se deu o convite para que a Marília viesse a participar do álbum e quais os argumentos que acabaram por convencê-la a tais participações?
GL - É um enorme privilégio tê-la neste projeto. Realmente a Marília hoje vive um tanto quanto reclusa, mas não avessa a realizar trabalhos que a entusiasme. Somos grandes amigos, já fizemos alguns trabalhos juntos e temos muito interesse pelo repertório de canções de domínio público. Quando formulei o convite e, encaminhando o reisado “A deusa da lua”, percebi de imediato o seu interesse e alegria em vir à recife, cidade que ela tanto gosta, fazer a gravação. Naquele momento, me senti premiado. Foi tudo emocionante e lindo.
Uma característica presente em seus projetos é a valorização ao texto da canção. Suas interpretações são carregadas por muita verdade e “De Mim” parece trazer essa característica de modo muito mais arraigado inclusive a partir de peculiaridades antes não existentes como a inserção de “Sonho imaginoso” (primeira composição de sua lavra que aqui ganha seu registro). Você pretende a partir de então dar continuidade a registros de sua autoria?
GL - Realmente não me considero um cantor. Estou muito distante, interessa-me cada vez mais aguçar em mim o intérprete que habita-me. Por isso, deixo-me tanto perseguir pela palavra. A palavra, pra mim, é de uma força inimaginável, tanto no que diz respeito a sua força, complexidade e simplicidade. Preciso sentir-me emoldurado pela palavra para dar sentido ao meu canto. Com relação à "Sonho Imaginoso" (Gonzaga Leal - Guito Argolo - J. Velloso), a ideia partiu de J. Velloso, que gostou de um texto confessional que escrevi e achou que poderia virar canção. Então consultou-me e eu, sem titubear, dei todo o aval para que ele pudesse editar o texto e convidar pessoa da sua confiança para inserir melodia. Foi quando ele trouxe o Guito Argolo para cuidar de musicar o texto. Adorei de verdade e combinamos que quem primeiro gravasse um cd, convidaria o outro para dividir os vocais. Isso não quer dizer que sou um compositor. Não sou, pois sou o mais crítico de mim mesmo. Foi um feliz e fecundo acaso.
A sua ligação com a cena musical paulista faz-se bastante perceptível ao longo dos seus projetos fonográficos (com exceção dos álbuns tributos a Nelson Ferreira e Capiba). Essa aproximação deu-se de modo intencional ou foi algo espontâneo?
GL - São Paulo é uma cidade que adoro, onde tenho grandes amigos das mais variadas linguagens artísticas. Gosto de trabalhar em São Paulo, sobretudo com os paulistas. A minha conversação sobre música mais profunda e consistente com São Paulo acontece exatamente no álbum "Minha Adoração - um tributo a Nelson Ferreira", quando, a meu convite, Zé Miguel Wisnik colocou versos na valsa azul, de Nelson Ferreira. Isso foi um passo para, através do Zé Miguel, conhecer o Luiz Tatit que, no meu cd "Gonzaga Leal cantando Capiba, ...e sentirás o meu cuidado", vestiu o choro "Relembrando Nazareth", de Capiba, com seus lindos versos. Essa ponte foi determinante para todas as demais conversações que tive e continuo tendo (e que muito me interessa!!!) Com São Paulo.
A capital pernambucana já teve a oportunidade de receber o espetáculo referente ao álbum “De Mim” por duas vezes. A primeira, em janeiro, na estreia da turnê e posteriormente em abril. Você tem recebido elogiosas matérias da crítica especializada em todas as regiões do país. Já existe uma agenda fechada em relação a turnê do álbum para o segundo semestre?
GL - Estou muito orgulhoso e agradecido pela forma como a imprensa brasileira tem recebido o meu trabalho. Isso é o máximo para qualquer artista. Nesse aspecto também me sinto um privilegiado. Adoro fazer o show do disco por tudo que o envolve e o emoldura: os músicos, os diretores (musical e cênico), o cenário, a luz, o repertório e toda a cumplicidade das pessoas envolvidas. Temos uma turnê prevista, mas a depender da aprovação do funcultura por esses dias. É um show caro, que envolve uma equipe de pelo menos 15 pessoas. Adoraria que o projeto fosse aprovado para termos a oportunidade de sair pelo Brasil. Sem isso, se torna praticamente impossível, pois não me contento em apresentar um trabalho pela metade. Não é justo que se ampute uma equipe e uma estética para viabilizar viagens. Nisto sou muito rigoroso e não faço concessões.
Você é um dos artistas que mais subiu ao palco do Teatro de Santa Isabel. Em relação a esse feito você nos trouxe em tom confessional aqui mesmo neste espaço que arquitetava um projeto pautado em piano e voz cujo título a princípio seria “Teatro – Na boca de cena nasci”. De janeiro de 2012 (época da primeira entrevista) aos dias atuais a que pé anda o projeto? Quando esse desejo tomará forma?
GL - O teatro e a minha casa são os lugares onde mais me sinto confortável e seguro. É como se fossem um templo que me remete inevitavelmente ao sagrado. O Teatro de Santa Isabel, em especial, faz muito sentido na minha vida, não só artística mas de espectador, foi lá que lancei todos os meus cd's, realizei outros tantos shows e presenciei espetáculos memoráveis. Tenho um apreço muito grande por esse lugar. Tornei-me amigo de grande parte de seus diretores e nutro amizade também pela maioria de seus funcionários. Por isso, acho-me com essa dívida de fazer um cd que possa homenageá-lo, sobretudo agora que ele completa 160 anos. Portanto, o projeto na boca de cena nasci, de voz e piano, com repertório de trilhas de peças de teatro, continua sendo o meu grande sonho e desejo. Espero realizá-lo em breve. Estou indo atrás. Um detalhe desse projeto é que os pianistas serão aqueles todos que tive a felicidade de trabalhar, a exemplo de Zé Gomes, Francis Hime, Marco Caneca, George Aragão, Cida Moreira, Zé Miguel Wisnik e Eliana Caldas.
Por falar em Santa Isabel “De Mim” foi o único projeto que não teve seu lançamento no palco do tradicional teatro. Há pretensão de levar o espetáculo a este teatro que é considerado o templo maior da cultura pernambucana?
GL - A estreia desse show em um teatro que já vinha tendo um grande namoro: o Teatro Capiba. Num acordo conjunto entre músicos, equipe e diretores, tomamos essa decisão de estrear num teatro menor, onde pudéssemos estar numa relação mais próxima com o público, coisa que o repertório e a sonoridade do show, de uma certa forma, exigem. Foi tudo lindo e surpreendente, sobretudo porque estreamos dentro do projeto janeiro de grandes espetáculos. Mas acredito que, até o final de ano, estaremos levando o show para o teatro de Santa Isabel, para o contentamento ficar completo. Claro que o show sofrerá algumas adaptações, especialmente no plano cenográfico e de iluminação.
Neste ano você está chegando aos 40 anos de estrada qual o balanço que você faz desse percurso? Esta comemoração se estenderá aos palcos?
GL - Esse aniversário me dá uma noção mais apurada da minha responsabilidade e do meu compromisso com todos os que me acompanham ao longo de todos esses anos e com essa cidade que tanto me abraça e me prestigia. Imagine um jovem que chega do interior na cidade sem conhecer ninguém e, pouco a pouco, vai construindo uma rede de amizades férteis que me impulsionam a ser artista. É a sensação exata de ter obtido régua e compasso. E claro que a melhor forma e contrapartida para com todos, é através do que posso emocioná-los e presenteá-los com meu singelo canto e o meu fazer artístico. Tendo sempre o palco como um nobre parceiro. Uma coisa que realmente adoraria em termos de comemoração de uma data redonda, é construir uma cartografia interpretativa a partir da revisitação todo o meu repertório de shows. Nos dias atuais, isso se torna praticamente impossível. Mas não custa nada sonhar, não é?
Com tantos anos de estrada e primorosos registros fonográficos não seria a hora já de cogitar a possibilidade de um projeto áudio-visual? Já pensou na possibilidade de um registro em DVD?
GL - Sinceramente, esse desejo já esteve mais aguçado. Hoje não tenho mais tanta motivação e interesse em fazer um registro em dvd. Mas, se eu o fizer, interessa-me fazer algo bem simples com uma moldura cenográfica e uma luz muito poética, em preto e branco, em um estúdio de gravação. Jamais realizar um show para transformá-lo em dvd. Esse formato não me interessa. Por enquanto as coisas mais imediatas são continuar fazendo o show "De mim"; o projeto chamado concerto de assobios, que pretendo estrear ainda esse ano na companhia da atriz Ceronha Pontes e dois músicos (um violeiro e um percussionista). É um recital baseado na poesia do poeta Manoel de Barros e canções da tradição oral brasileira, que juntos formam uma dramaturgia. Estamos todos felizes, por estarmos embalados por tanta lindeza contida na poesia e nas canções. Por fim, continuarei empenhado em viabilizar o projeto na boca de cena nasci, mesmo porque ele já tem um tempinho de pendência. Na minha vida não sou afeito a pendências. 
Quero te agradecer, Bruno, por esta nobre oportunidade que mais uma vez você me concede. É sempre muito bom, para qualquer artista, dar uma entrevista para uma pessoa que conhece do seu trabalho e se interessa pelo artista. E nesse aspecto, tenho o maior prazer de responder quantas perguntas me chegarem. É assim que me sinto: agradecido e prestigiado.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

XICO BIZERRA

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CANÇÕES NÃO HÁ

O dia já envelhecido, a noite ainda de fraldas e meus botões, com paciência, escutando o nada-a-dizer dos meus olhos. Na calçada, cadeiras vazias não enxergam o que calo e o que não quero dizer. Meus sentidos, todos mudos, silenciam mais ainda diante da lua que já desponta. Aperto o interruptor da lua e deixo o céu quase escuro um pouco mais escuro para escutar uma canção de Humberto, das que já não se faz. Não a ouço, pois canções não há além do barulho que se faz nas rádios de hoje. Violentaram-na com esporas grosseiras, cinturões de grandes fivelas e artefatos de ferro. Não há mais Humbertos. Não há mais Dantas. Não há mais Gonzagas. Não há mais canção.           


Xico Bizerra é compositor, poeta, 
cronista e produtor musical.
Parceiro de Dominguinhos,
tem mais de 270 composições gravadas
http://www.forroboxote.com.br/




RAPIDÍSSIMAS (XCVI)


AUTOESTIMA

-- Antes de se sentir inferiorizado, por não ter entendido o que fulano lhe disse, certifique-se de que ele, de fato, falou coisa com coisa. A idiotia está em alta.

TRILHA

Toda rota é errática, inexata. A sua não foge à regra. Só você pode percorrê-la. Deixe a maioria dos palpites esquecidos na sessão de achados & perdidos.

E O “POETA” NÃO DEIXOU POR MENOS

“Esses versos são para que todos me “ousam”, por mais longe que estejam...” Um cara desse precisa ser internado.

PSIU

O que tinha a dizer era tão pouco... Melhor não puxar pela memória, melhor jogar o bloco de anotações no baú dos perecíveis.

A ÚLTIMA ESPERANÇA

-- Querida: o CORISTINA D falhou. Tente o fio dental de bolinha amarelinha.   



GOSTO DE MAR

Banho sempre é bom. Não necessariamente antes do sexo.

POETINHA

- As muito magras que me perdoem: um pouco de carne é fundamental.

LÁPIS

Colorir está na moda. A moda é (quase) sempre imbecil.



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CLAYTON – O POVO (CE)



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JARBAS – DIÁRIO DE PERNAMBUCO

JORNAL DA BESTA FUBANA


NÚBIA NONATO



NEM SEMPRE

E já que a poesia nem sempre
agrada a gregos e troianos,
vou fazer que nem malandro
que na ginga vai se entortando.

Que no "qual é" saca qual é a
sua.

Que na hora de pedir a dose
não faz medida, quem sabe
esbarra num perdulário.

Que tira som da caixinha de
fósforos e exercita o punho
no levantamento de copo.

Que olha a cabrocha de
rabo de olho, doido para
vê-la na horizontal.

Na boa, esse malandro já
saiu da linha, esbarrou na
poesia no momento em que
sonhou.

Tem jeito não, fico com a
poesia e você que se
entenda com o "malandro".




CLÓVIS CAMPÊLO

Fotografia de Clóvis Campêlo / 2015


O PREÇO DO AMOR

(Por Clóvis Campêlo) Consta que o homem é o único animal que se prevalece do sexo em nome do prazer. Para todas as outras espécies, serve o sexo para a manutenção da espécie. Em função disso, nas sociedades ditas modernas, estabeleceu-se uma verdadeira indústria do prazer sexual.

Antes, na era vitoriana, quando apenas aos indivíduos do sexo masculino era permitida a relação sexual fora do casamento, prevalecia a prostituição feminina, com os corpos sendo vendidos nos lupanares da vida. Às mulheres, restava apenas o casamento, quando saia do julgo econômico e social do pai, para ficar sob a responsabilidade financeira do marido. Às que ficavam no caritó, solteironas, restava apenas a fuga freudiana da histeria.

Se aos indivíduos do sexo masculino era permitida a satisfação dos desejos sexuais nos prostíbulos, às mulheres a virgindade era condição sine qua non para conseguirem um marido. Às mulheres que se “perdiam”, envolvidas geralmente por homens de pouco caráter, só restava o caminho da solidão nos conventos ou no meretrício.

No meu tempo de menino, quando os costumes ainda não haviam adquirido um nível tão alto de permissividade, cansei de presenciar moças de família, algumas até irmãs de amigos de infância, serem colocadas de casa para fora, pelo pai, por haverem se aventurado pelos caminhos da satisfação sexual antes dos contratos nupciais. A virgindade, além do dote paterno, quando era o caso, tinha um alto poder de barganha e podia servir de instrumento de ascensão social para quem soubesse ou pudesse usá-la com inteligência. Lembro, por exemplo, da existência de um grupo de meninas, essas já avançadas demais para aquele tempo, que se permitiam o sexo anal, mas mantendo a integridade do hímen, preciosa membrana de alto valor social. Essas moças ousadas e de um autocontrole admirável, eram chamadas pejorativamente de “bundeiras” e nem sempre eram tratadas com o devido respeito pela sociedade excessivamente machista da época.

CLÓVIS CAMPÊLO


As mocinhas do interior que vinham para a cidade grande em busca de emprego, e que geralmente trabalhavam como doméstica nas casas de família também sofriam com a discriminação da perda antecipada da virgindade. Para essas, invariavelmente, só restava o “caminho da zona”. Caso fossem engraçadas e fisicamente privilegiadas, podiam acabar numa pensão de melhor nível. Se fossem feias e desajeitadas, iam para as pensões de baixo nível, invariavelmente para morrer de sífilis ou tuberculose, contraídas com os parceiros que não podiam escolher e pelas noites perdida de sono, cigarros, bebida e má alimentação.

Esse foi o preço pago pelas mulheres da minha geração que, por burrice ou ousadia, tiveram a coragem de romper com os padrões vigentes.

Hoje, a situação é outra, bastante diferente. O sexo já não é considerado como algo pecaminoso ou sujo. A virgindade já não vale mais, nada sendo ridicularizada e tratada até com ironia e desdém. Às mulheres foi dado o direito ao prazer e à liberdade sexual. O comércio sexual se ampliou e permite, por exemplo, que um motel instalado em um prédio decadente da Rua da Palma, no centro do Recife, coloque no alto do seu terraço a propaganda acima, onde as pessoas de pouco poder aquisitivo poderão desfrutar de três horas de amor pelo preço módico de R$ 29,90, com direito ainda a uma latinha de cerveja gelada.

Os tempos mudaram, amigos!

Recife, julho 2015


quarta-feira, 29 de julho de 2015

COISAS DA VIDA



O BAÚ

(Por Violante Pimentel) Ermelindo Souto era um homem bom, amigo de todos, e de boa conversa. Era Vereador numa cidade do interior do Rio Grande do Norte, e já planejava se candidatar a um novo mandato nas próximas eleições. Era inteligente, eloquente, e tinha o dom da oratória. Só tinha um defeito: Não sabia guardar segredo…

Com a maior facilidade, ele passava pra frente qualquer história que alguém lhe contasse, principalmente se lhe fosse pedido sigilo. Era o chamado bocão. Quando lhe reclamavam da sua indiscrição, respondia em cima da bucha: “Quem tiver seus segredos não me conte!…” Dizia abertamente que a sua língua coçava, se alguém lhe contasse alguma coisa e ele guardasse somente para si. Não achava nada demais passar para frente um segredo que o próprio dono não conseguira guardar.

Violante Pimentel
Violante Pimentel é procuradora aposentada
  do Estado do Rio Grande do Norte
 Num certo dia, um eleitor seu, que levava mais chifres do que pano de toureiro, encheu a cara de cachaça e foi procurá-lo, para lhe confidenciar o drama que estava vivendo em casa, diante da traição da esposa. Queria lhe pedir um conselho sobre o caminho que deveria tomar. O homem foi logo dizendo:

- Dr. Ermelindo, eu quero lhe contar um segredo, mas lhe peço que fique somente entre nós dois. Tenho dez anos de casado com Maria, e descobri agora que estou levando chifres. Peço ao senhor para não contar isso a ninguém. Quero que me dê um conselho...

Ermelindo, sentindo-se ferido com a recomendação, reagiu irritado:

- Não precisava me pedir segredo!!! Minha boca é um túmulo…Mas se você é o dono do segredo, quem tem de guardar esse segredo é você!!! Se você não é capaz de guardá-lo, quanto mais eu!!! E quer saber de uma coisa?

Eu não sou baú!…

E a história se espalhou…




terça-feira, 28 de julho de 2015

HORA DA VITROLA: MARTINHO DA VILA (NAMORADEIRA)




NAMORADEIRA
De Roque Ferreira / Grazielle
Na ginga de Martinho da Vila





Quando entrei na roda
A baiana olhou para mim
Ô baiana, ô baiana
Namoradeira que é que você tá querendo
Com os olhos de manteiga
Ô baiana, se derretendo
Você é muito formosa
Mas não sambo do seu lado
Porque é muito fogosa
E já tem três namorados
O primeiro é polícia
O segundo é traficante
O terceiro é valentão
É mau, é valentão
É valentão, é mau é valentão
Vou-me embora desse samba
Que eu não quero confusão
A barra da sua saia
Ô baiana
É que nem mamão papaia
Ô baiana
Seu cheiro é de manacá
Ô baiana
Seu beijo é que nem ingá
Ô baiana
Mas eu só olho de banda
Não sambo na sua beira
Não quero zanga ô baiana
Por mulher namoradeira




QUASE HISTÓRIAS (LXXI)

Fonte: Internet

E OS AMIGOS LHE PEDIAM

-- Tatu, saia da toca, Tatu. O dia está lindo. Venha ver.

E Tatu lhes respondia:

-- Tatu está na toca, Tatu está bem aqui. Da toca, Tatu não sai.

Como água mole cansa de bater em pedra dura, os amigos deixaram Tatu pra lá.

Tempos depois, um dos amigos foi até a toca, mas Tatu lá não estava.

Por onde anda Tatu? É pergunta que, entre eles, amigos, não cala.


PONTOS DE VISTA

-- É um absurdo, afronta mesmo. Só lhe partindo a cara, canalha. Você não tira os olhos da bunda de minha senhora.

-- Perdão, amigo: quem tira não a bunda de meus olhos é a bunda de sua senhora. Já botou reparo na exuberância?


COISINHAS

Há coisas para se ler. Há coisas para se ouvir. Há coisas para se ver. Escritores que querem que eu leia o que quero ver me aporrinham. Naturalistas? Chatos.


CLÓVIS CAMPÊLO

FOTOGRAFIA: CLÓVIS CAMPÊLO



A HORA DE DESCANSAR

O poeta Ascenso Ferreira nasceu e morreu no mês de maio. Nasceu na cidade dos Palmares, na zona da mata sul do Estado de Pernambuco, e morreu no Recife, a capital do Estado. Nos 70 anos em que viveu, de 1895 a 1965, escreveu poemas diversos e viveu polêmicas diversas também.

Segundo os seus estudiosos, começou escrevendo sonetos, baladas e madrigais, sem relevâncias. Depois, descobriu o Modernismo e a Semana de Arte Moderna, e sob a influência de Guilherme de Almeida, Mário de Andrade e Manuel Bandeira, descambou por um caminho onde afirmou-se como um dos grandes nomes do movimento no nosso Estado.

Segundo o site Releituras, Ascenso “distingue-se não pela quantidade, mas pela qualidade, atingindo não raro efeitos novos, originais, imprevistos, em matéria de humorismo e sátira”.

O poema “Filosofia”, que abaixo transcrevemos, insere-se nesse contexto. O poema foi publicado no livro "Catimbó e Outros Poemas" (Editora José Olympio, Rio de Janeiro, 1963). Depois, foi incluído no livro "Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século" (Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2001, pág. 83), organizado por Ítalo Moriconi.

CLÓVIS CAMPÊLO


Politicamente, segundo a Wikipédia, participou ativamente da campanha presidencial de Juscelino Kubitschek, em 1955, inclusive participando de comícios no Rio de Janeiro. Em consequência disso, no ano seguinte, foi nomeado por JK para a direção do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, no Recife, mas a nomeação foi cancelada dez dias depois, porque um grupo de intelectuais recifenses não aceitava que o poeta e boêmio irreverente assumisse o cargo. Foi nomeado, então, assessor do Ministério da Educação e Cultura, onde só comparecia para receber o salário.


Dizem que o poeta nos finais de tarde, gostava de passear pelas margens do Rio Capibaribe, na altura do atual shopping Paço da Alfândega, onde em sua homenagem, no Circuito da Poesia Pernambucana, foi erguida a escultura acima, em sua homenagem.

O poema abaixo casa bem com a imagem por nós captada, onde operários descansam deitados na calçada, ao lado da estátua do poeta, sob a sombra de um pé de amêndoa (coração de nego, para nós). Confiram:

FILOSOFIA

Hora de comer — comer!

Hora de dormir — dormir!

Hora de vadiar — vadiar!

Hora de trabalhar?

— Pernas pro ar que ninguém é de ferro!


Recife, julho 2015


NOTA DO EDITOR:

Esse Ascenso foi da virada. Leiam também "Minha escola" e outros poemas.